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O preço de decidir


Luciano Cardoso Por Luciano Cardoso em 09/10/2026 - 07:28

custo da decisão

Toda decisão tem um preço. Algumas custam dinheiro, outras consomem tempo, comprometem relações, exigem renúncias ou colocam em risco aquilo que levou anos para ser construído. Há, entretanto, uma particularidade que nem sempre percebemos. A ausência de decisão também tem seu custo. E, não raramente, a demora acrescenta juros a uma conta que inevitavelmente terá de ser paga.

Decidir faz parte da condição humana. Decidimos na vida familiar, nas relações pessoais, na formação acadêmica, nas convicções religiosas, na atividade profissional e no exercício de responsabilidades públicas. Algumas escolhas são simples, quase automáticas. Outras exigem reflexão, conhecimento, coragem e uma compreensão razoável das consequências que produzirão.

No mundo empresarial, essa realidade assume contornos ainda mais complexos. Uma decisão aparentemente restrita a determinado setor pode desencadear repercussões financeiras, jurídicas, administrativas, operacionais e humanas. Aquilo que parece economicamente vantajoso pode ser juridicamente arriscado. O que se apresenta como solução imediata pode comprometer a sustentabilidade futura. E aquilo que parece prudência, muitas vezes, não passa de uma forma sofisticada de adiar o inevitável.

A própria origem da palavra ajuda a compreender essa realidade. Decidir deriva do latim decidere, associado à ideia de cortar, separar, eliminar alternativas. A etimologia revela algo interessante. Escolher um caminho significa, necessariamente, abandonar outros.

Talvez esteja aí uma das maiores dificuldades do processo decisório. Não basta identificar aquilo que se pretende alcançar. É preciso compreender aquilo de que se está disposto a abrir mão.

Quem decide expandir uma empresa assume riscos. Quem decide não expandir também. Quem promove uma reestruturação enfrenta resistências, custos e incertezas. Quem a posterga pode comprometer a própria sobrevivência do negócio. Quem enfrenta um problema paga o preço do enfrentamento. Quem o ignora pode descobrir, tarde demais, que o problema cresceu enquanto aguardava uma solução espontânea.

Há, ainda, um risco frequentemente subestimado. A decisão adiada em tempos de normalidade pode acabar sendo exigida em meio a uma crise, quando as alternativas diminuem, as pressões aumentam e as consequências se tornam ainda mais delicadas. Mas decidir em cenários de crise envolve nuances estratégicas próprias, que merecem uma reflexão específica. Assunto para outro artigo.

A experiência na gestão empresarial, especialmente em ambientes de elevada complexidade e situações de crise, permite observar que nem sempre o maior desafio está em identificar a decisão tecnicamente adequada. Muitas vezes, está em reconhecer o momento de tomá-la e aceitar suas consequências.

Há decisões que chegam acompanhadas de estudos, pareceres, projeções financeiras, avaliações de riscos e recomendações técnicas. Ainda assim, nenhuma dessas ferramentas elimina completamente a incerteza. Elas reduzem a possibilidade de erro, qualificam a escolha e oferecem fundamentos para sustentá-la. Mas não substituem o ato de decidir.

E é justamente nesse ponto que surge um dos custos mais elevados da gestão, raramente contabilizado nos balanços empresariais, a solidão da decisão.

Quem observa de fora costuma enxergar alternativas com uma clareza que nem sempre existe para quem está diante do problema. É relativamente simples apontar o caminho depois que os acontecimentos revelaram seus resultados. Difícil é escolher quando as informações ainda são incompletas, os interesses são conflitantes, os riscos são concretos e o futuro permanece desconhecido.

Nas reuniões, todos podem opinar. Assessores recomendam, especialistas analisam, equipes apresentam cenários e colaboradores defendem soluções. Entretanto, quando chega o momento de escolher, a responsabilidade frequentemente se concentra em uma única pessoa.

É possível compartilhar informações, construir consensos e distribuir atribuições. Mas determinadas responsabilidades não se transferem com a mesma facilidade. A decisão pode ser coletiva em sua construção, embora profundamente solitária em suas consequências.

Essa solidão não decorre necessariamente da ausência de pessoas ao redor. Muitas vezes, acontece justamente em ambientes repletos de profissionais competentes, opiniões divergentes e interesses legítimos. Quanto maior a repercussão da escolha, maior pode ser o peso experimentado por quem precisa dar a palavra final.

É um custo silencioso, difícil de explicar e praticamente impossível de mensurar. Quem nunca ocupou uma posição de responsabilidade decisória talvez não compreenda inteiramente seu significado.

Entretanto, reconhecer esse peso não significa defender decisões isoladas. Ao contrário. Uma das maiores demonstrações de maturidade de um gestor está em compreender que decidir sozinho não é o mesmo que decidir sem ouvir.

O processo decisório precisa de alternativas. E alternativas precisam ser construídas.

Nesse contexto, uma técnica aparentemente simples oferece uma lição importante. O brainstorming, desenvolvido pelo publicitário norte-americano Alex Osborn e difundido a partir da década de 1940, surgiu da percepção de que a criatividade coletiva poderia ampliar a capacidade de encontrar soluções.

Sua lógica original era estimular a livre apresentação de ideias, sem críticas imediatas. Primeiro, multiplicavam-se as possibilidades. Depois, em outro momento, avaliavam-se sua pertinência, viabilidade e consequências.

Existe uma inteligência particular nessa separação. Quando julgamos uma ideia antes mesmo de permitir que ela seja desenvolvida, podemos eliminar uma alternativa que, devidamente aperfeiçoada, representaria a melhor solução.

Na gestão empresarial, isso significa compreender que a qualidade de uma decisão depende também da qualidade das opções disponíveis.

Não se trata de escolher entre duas alternativas ruins simplesmente porque foram as únicas apresentadas. Trata-se de perguntar se existem outros caminhos, outras combinações, outras soluções capazes de reduzir custos, preservar direitos, mitigar riscos e alcançar resultados mais consistentes.

Uma decisão empresarial responsável exige, portanto, uma visão integrada. A análise financeira precisa conversar com a jurídica. A estratégia precisa considerar a capacidade operacional. A urgência deve ser confrontada com os riscos. E os resultados pretendidos não podem ignorar os efeitos sobre as pessoas.

É nesse ambiente que o conhecimento técnico especializado deixa de representar apenas um instrumento de solução de problemas e passa a integrar a própria construção das decisões. O aconselhamento jurídico, por exemplo, não deve se limitar a informar o que é permitido ou proibido. Sua contribuição estratégica também está em identificar riscos, antecipar consequências, construir alternativas juridicamente sustentáveis e oferecer segurança para que a gestão possa escolher.

Naturalmente, nem toda decisão exige longos estudos ou extensas reuniões. Há momentos em que o tempo disponível é curto e a necessidade de agir se impõe. A gestão de crises ensina precisamente isso. Em determinadas circunstâncias, a busca interminável pela solução perfeita pode se tornar mais prejudicial do que uma decisão suficientemente fundamentada, tomada no momento adequado.

A prudência é indispensável. A paralisia, não.

Também existe um aspecto pouco considerado nessa equação. Decidir repetidamente desgasta. A sucessão de escolhas complexas, conflitos, pressões e responsabilidades pode comprometer a capacidade de avaliação. É o fenômeno conhecido como fadiga decisória, que recomenda atenção não apenas ao conteúdo das decisões, mas também às condições em que são tomadas e inclusive o horário a se submeter à tomada de decisões.

Saber decidir envolve, portanto, saber organizar prioridades, reconhecer limites, ouvir pessoas qualificadas e distinguir aquilo que exige resposta imediata daquilo que admite reflexão adicional.

Há ainda uma diferença fundamental entre decidir rapidamente e decidir oportunamente. A velocidade, por si só, não representa eficiência. Uma escolha precipitada pode produzir danos irreversíveis. Por outro lado, uma decisão correta, tomada tarde demais, pode já não produzir os resultados esperados.

O tempo integra o custo da decisão.

E talvez seja essa uma das lições mais importantes proporcionadas pela convivência com situações empresariais complexas. Problemas raramente permanecem imóveis enquanto aguardamos. Contratos vencem, oportunidades desaparecem, conflitos se aprofundam, passivos aumentam, relações se deterioram e circunstâncias se modificam.

O que hoje exige uma decisão difícil amanhã poderá exigir uma solução muito mais onerosa.

É necessário reconhecer, contudo, que nem sempre decidir significa agir imediatamente. Em algumas circunstâncias, aguardar é a escolha mais inteligente. Mas existe uma diferença substancial entre a espera estrategicamente deliberada e a omissão disfarçada de cautela. A primeira possui fundamentos, objetivos e limites. A segunda apenas transfere a responsabilidade para o tempo.

No exercício da gestão, aprende-se que não existe garantia absoluta de acerto. Mesmo decisões tecnicamente consistentes, cuidadosamente planejadas e tomadas de boa-fé podem produzir resultados indesejados. O que distingue uma gestão responsável não é a promessa de infalibilidade, mas a capacidade de fundamentar escolhas, assumir consequências, corrigir rumos e aprender com os resultados.

Decidir também exige humildade. A coragem necessária para escolher deve ser acompanhada da disposição de reconhecer quando uma escolha precisa ser revista. Persistir em um equívoco apenas para preservar a aparência de autoridade pode transformar um erro administrável em uma crise de grandes proporções.

Ao final, talvez a verdadeira maturidade decisória esteja menos na pretensão de escolher sempre o caminho certo e mais na capacidade de compreender os custos de cada alternativa, identificar o momento adequado e assumir, conscientemente, as renúncias necessárias.

Porque toda escolha encerra possibilidades. Toda decisão produz consequências. E toda responsabilidade exige disposição para suportar o peso daquilo que se escolheu.

Decidir tem um preço. Não decidir também. A diferença é que, enquanto a decisão permite conhecer, avaliar e administrar seus custos, a indecisão frequentemente entrega essa conta ao tempo. E o tempo, além de cobrar, costuma acrescentar juros.

Luciano Cardoso

É advogado inscrito na OAB/GO. Membro do Instituto Goiano do Direito do Trabalho. Membro e Conselheiro Fiscal da Associação Goiana da Advocacia Trabalhista - AGATRA. Membro da Comissão de Direito Empresarial da OAB/GO. Chefe do Departamento Jurídico da Companhia de Urbanização de Goiânia - COMURG.
E-mail: lucianodipaula@gmail.com.

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