Há algo de contraditório em uma sociedade que reclama diariamente da qualidade de seus políticos, mas nem sempre dedica à escolha deles a mesma seriedade com que exige que exerçam seus mandatos. Queremos ética na política, responsabilidade na gestão pública, honestidade no trato com o dinheiro público e compromisso com o interesse coletivo. Tudo isso é legítimo. Mas talvez exista uma pergunta anterior, mais incômoda e quase sempre evitada, pois com que critérios escolhemos aqueles de quem depois cobraremos todas essas virtudes?
Chegar à urna e apertar algumas teclas leva poucos segundos. Chegar historicamente ao direito de fazê-lo exigiu muito mais. A democracia brasileira não nasceu pronta, tampouco foi presente concedido por governantes benevolentes. O direito de participar da escolha dos representantes foi sendo construído em meio a avanços, retrocessos, preconceitos, exclusões e lutas travadas por gerações que defenderam a ampliação da cidadania.
Mulheres já foram impedidas de votar. Analfabetos permaneceram afastados das urnas durante mais de um século. O Brasil atravessou períodos nos quais a escolha popular dos governantes foi limitada ou simplesmente suprimida. A democracia que hoje permite que cada cidadão entre sozinho em uma cabine e manifeste livremente sua vontade carrega, portanto, uma história que não pode ser tratada com indiferença.
A Constituição de 1988 transformou essa conquista em fundamento de nossa ordem política ao estabelecer que a soberania popular é exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos.
Talvez esteja justamente aí uma das manifestações mais extraordinárias da democracia, eis que diante da urna, todos os votos possuem o mesmo valor.
O voto do empresário vale tanto quanto o voto do empregado. O voto do rico vale tanto quanto o do pobre. O voto daquele que possui títulos acadêmicos vale exatamente o mesmo que o daquele que teve poucas oportunidades de estudar. Por alguns instantes, diferenças econômicas, profissionais e sociais deixam de determinar o peso formal de cada cidadão na escolha de seus representantes.
Essa igualdade democrática faz lembrar uma reflexão feita recentemente pelo desembargador decano do Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região, por ocasião da sessão solene que marcou sua aposentadoria. Ao recordar uma comparação que certa vez fizera entre um magistrado e uma gari, observou, com a simplicidade própria das grandes lições e dos grandes homens, que o mundo provavelmente conseguiria viver sem um magistrado, mas dificilmente viveria sem quem recolhesse o lixo; poderia passar algum tempo sem uma sentença, mas não suportaria muito tempo sem que suas ruas fossem limpas.
Não pretendia, evidentemente, diminuir a relevância da magistratura — à qual dedicou mais de quatro décadas de sua vida —, mas recordar algo que frequentemente esquecemos: títulos, cargos e posições sociais não tornam um ser humano mais importante que outro. Na engrenagem da sociedade, funções diferentes possuem dignidades iguais e, não raramente, aquilo que julgamos socialmente mais simples revela-se absolutamente indispensável à vida coletiva. A urna traduz essa mesma lição em sua forma mais radical, nela, o voto do desembargador vale exatamente o mesmo que o voto da gari.
E talvez esteja justamente nessa igualdade silenciosa uma das maiores grandezas da democracia. Fora da cabine eleitoral, a sociedade distribui títulos, autoridade, riqueza, prestígio e poder de maneira profundamente desigual. Dentro dela, porém, nenhuma toga acrescenta peso ao voto, nenhum patrimônio o multiplica e nenhuma profissão o diminui. Cada cidadão recebe a mesma fração de soberania e, com ela, a mesma parcela de responsabilidade pelo destino coletivo.
Essa igualdade, porém, torna a responsabilidade ainda maior.
Votar conscientemente não significa apenas conhecer o nome do candidato ou assistir às suas propagandas. Exige pesquisar sua trajetória, compreender suas propostas, verificar sua atuação anterior quando houver, conhecer as ideias que defende e, sobretudo, identificar a concepção de sociedade e de Estado à qual está vinculado.
Candidatos não surgem no vazio. Eles representam ideias, grupos, partidos, projetos e determinadas visões sobre economia, liberdade, segurança, educação, saúde, trabalho, responsabilidade fiscal, políticas sociais e papel do Estado. Escolher alguém sem procurar compreender minimamente essas concepções significa entregar poder sem investigar como ele provavelmente será exercido.
Também é preciso abandonar uma confortável contradição nacional: não é coerente exigir uma política moralmente superior quando o próprio voto é transformado em instrumento de vantagem particular.
Quando a escolha depende do favor prometido, do benefício pessoal esperado, do emprego oferecido, da vantagem para determinado grupo ou de qualquer espécie de troca individual, deixa-se de perguntar qual projeto é melhor para a coletividade e passa-se a perguntar apenas: o que eu ganho com isso?
Nesse instante, o problema ético que se atribui exclusivamente à política começa antes da posse do eleito.
Não se pode desejar instituições republicanas sustentadas por escolhas orientadas por interesses estritamente particulares. Tampouco parece razoável vender, trocar ou hipotecar a própria consciência eleitoral e, no dia seguinte, indignar-se porque alguns representantes tratam o Estado segundo a mesma lógica de conveniência.
A ética que se exige do eleito também precisa estar presente na liberdade de quem escolhe.
Isso não significa que exista um candidato ideal, uma ideologia obrigatória ou uma única resposta correta nas urnas. Democracia pressupõe justamente divergência. Pessoas razoáveis podem estudar os mesmos problemas e chegar a conclusões políticas profundamente diferentes. Podem discordar sobre o tamanho do Estado, prioridades orçamentárias, políticas econômicas, segurança pública, programas sociais e inúmeros outros temas.
O que fortalece a democracia não é todos votarem da mesma maneira. É cada um saber por que está votando. É escolher depois de comparar. É desconfiar das soluções milagrosas. É distinguir promessa de proposta. É investigar o passado daquele que pede autorização para participar das decisões sobre o futuro. É compreender que carisma não substitui caráter, popularidade não substitui capacidade e discurso não substitui projeto.
Sobretudo, é recordar que não estamos escolhendo alguém apenas para nós.
Cada voto ajuda a entregar a determinadas pessoas poderes que alcançarão milhões de brasileiros que jamais participaram daquela escolha individual. O governante eleito administrará recursos públicos, formulará políticas, fará nomeações, estabelecerá prioridades e tomará decisões cujos efeitos poderão ultrapassar inclusive o período de seu próprio mandato.
Por isso, talvez seja necessário substituir uma pergunta muito comum em períodos eleitorais.
Em vez de perguntar apenas “o que esse candidato pode fazer por mim?”, deveríamos perguntar também: “o que acontecerá com o país se pessoas com essas ideias, esses valores e esse projeto receberem o poder que posso estar ajudando a lhes entregar?”
A resposta pode não ser simples. Mas a democracia nunca prometeu facilidade. Prometeu liberdade de escolha. E liberdade sem responsabilidade corre o risco de transformar uma conquista histórica em mero ritual.
Nosso futuro não está exclusivamente nas mãos dos políticos. Durante as eleições, por alguns instantes decisivos, uma parcela dele retorna às nossas próprias mãos.
Talvez seja esse o verdadeiro privilégio do voto, a liberdade de poder escolher.
E talvez seja essa a sua maior responsabilidade, ter de conviver, depois, com as consequências daquilo que livremente escolhemos.










