Nunca esperei decência política ou qualidade institucional de um dos Bolsonaro e de seu núcleo mais ideológico. Aliás, foi justamente esse tipo de comportamento, marcado pela provocação, pelo deboche e pela exploração dos ressentimentos, que deu notoriedade a essa gente na vida pública brasileira. O problema é que aquilo que começou como espetáculo de mau gosto deixou de ser apenas uma inconveniência da política nacional e passou a ocupar espaços de poder, influenciar decisões e colocar em xeque a própria convivência democrática.
O Brasil, convenhamos, não é estranho a personagens bizarros na política. Tiririca chegou à Câmara dos Deputados com o bordão “pior que tá não fica”, transformando o descrédito com os políticos em capital eleitoral. Celso Russomanno construiu parte de sua notoriedade televisiva com um programa de defesa do consumidor que, não raras vezes, transformava abordagens a trabalhadores do comércio em espetáculos constrangedores. Levy Fidelix protagonizou debates marcados por declarações absurdas, entre elas a infame afirmação de que “órgão excretor não reproduz”. Poderíamos lembrar ainda outras figuras que fizeram da excentricidade, da agressividade verbal e da exploração do ridículo uma espécie de plataforma política. São personagens de épocas e trajetórias distintas, mas que ajudam a compreender um fenômeno recorrente: quando o debate público perde qualidade, o espetáculo ocupa o lugar das ideias.
De tempos em tempos, essas figuras conquistam mandatos e chegam às instituições. Muitas vezes, porém, a performance que as tornou conhecidas não se converte em trabalho legislativo relevante, formulação de políticas públicas ou participação consistente nos grandes debates nacionais. Há exceções, evidentemente, e o voto popular não pode ser desqualificado pelo simples fato de alguém construir uma trajetória fora dos padrões tradicionais. O problema começa quando a representação política se resume à encenação permanente, à provocação nas redes sociais e à produção de conflitos que rendem audiência, mas pouco acrescentam à vida dos brasileiros.
Jair Bolsonaro foi um caso diferente pela dimensão que alcançou. Em um ambiente de profunda crise política, descrédito partidário, insatisfação social e desgaste das instituições, conseguiu sair das margens do sistema e conquistar a Presidência da República. Levou para o centro do poder uma linguagem que combinava confronto, humor de gosto duvidoso, ataques aos adversários e desconfiança em relação às instituições democráticas. Não foi apenas uma vitória eleitoral individual. Foi a transformação de um estilo de fazer política em um movimento nacional, com capacidade de mobilização, organização digital e influência sobre parcelas expressivas da sociedade.
O bolsonarismo, entretanto, não se limitou a Jair. Com a perda de protagonismo do ex-presidente, seus filhos e aliados passaram a disputar a liderança de um movimento que ajudou a projetar dezenas de políticos para os centros de decisão do país. Não é necessário enumerá-los. Basta acompanhar as redes sociais para reconhecer a turma que transformou a política em uma sucessão de provocações, vídeos de confronto, frases de efeito e polêmicas artificiais. Enquanto o Brasil enfrenta desafios concretos na educação, na saúde, na segurança pública, na economia e na produção de alimentos, uma parcela dessa representação parece mais interessada em alimentar a própria audiência do que em apresentar resultados.
Mas a última presepada da família Bolsonaro conseguiu ultrapassar até mesmo esse padrão.
Menos de 72 horas depois de perder o segundo turno da eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro foi parar nos Estados Unidos, após uma passagem pela Argentina, em uma viagem cercada de controvérsias. O deslocamento ocorreu depois de uma decisão judicial que determinou a apreensão de seus passaportes, no contexto de investigações em andamento. Já em território norte-americano, o senador publicou uma carta dirigida ao público brasileiro, agradecendo a Donald Trump e ao presidente argentino Javier Milei pelo apoio recebido.
O documento merece atenção não apenas pelo conteúdo, mas pelo que revela sobre a compreensão que Flávio tem da democracia e da representação política. Na primeira versão, o senador chegou a se apresentar como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, apesar de ter sido derrotado nas urnas. Pouco depois, recuou da expressão e passou a se definir como “líder do Brasil”. A carta também questionou o resultado eleitoral e atribuiu supostas irregularidades ao processo de votação sem apresentar provas que sustentassem suas alegações. A comparação com a estratégia de Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente interino da Venezuela em 2019, apareceu no próprio debate público sobre o episódio.
Confesso que esperava pouco dessa temporada americana. Imaginava uma sucessão de transmissões ao vivo, discursos inflamados nas redes sociais e fotografias cuidadosamente produzidas para alimentar a militância. Não seria difícil prever uma aproximação ainda mais estreita com Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e outros personagens que encontraram no ecossistema digital da extrema direita um espaço de influência que dificilmente teriam conquistado pelos caminhos tradicionais da política. Seria o prolongamento de uma estratégia conhecida: transformar o conflito em produto e a indignação em instrumento permanente de mobilização.
O que não esperava era a carta. Aquilo foi além da provocação habitual. A apresentação de um candidato derrotado como se fosse o verdadeiro vencedor, seguida de um recuo apressado, remete a uma mistura de improvisação, pretensão política e desrespeito ao resultado eleitoral. A referência a um Brasil de outra época, com o uso de “Brazil” e de uma denominação histórica já abandonada havia décadas, tornou o episódio ainda mais constrangedor. O documento parecia menos uma manifestação institucional de um dirigente político e mais uma peça improvisada para consumo de uma plateia já convencida.
A comparação com Juan Guaidó torna o episódio ainda mais revelador. Em vez de reconhecer que a disputa eleitoral terminou e organizar uma oposição dentro das regras democráticas, Flávio procurou construir uma narrativa de legitimidade paralela, com apoio político no exterior. Não se trata de negar a qualquer opositor o direito de criticar o governo ou questionar decisões judiciais. Trata-se de reconhecer que contestar uma eleição exige provas e que a vontade popular não pode ser substituída por uma declaração unilateral de vitória.
Seria cômico se não fosse trágico. Estamos falando de um político que recebeu quase 60 milhões de votos na disputa presidencial e que, por pouco mais de quatro milhões de votos de diferença, não chegou à Presidência da República. O episódio, portanto, não diz respeito apenas a uma carta mal elaborada ou a uma publicação infeliz nas redes sociais. Ele expõe o tamanho do desafio que o Brasil enfrenta quando lideranças com alcance nacional tratam a legitimidade democrática como algo que pode ser reivindicado ou descartado conforme a conveniência.
Há ainda uma dimensão judicial que precisa ser tratada com seriedade. Flávio Bolsonaro é investigado em apurações distintas. Uma delas examina suspeitas relacionadas à obtenção de recursos do banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Outra apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo sua relação com o advogado Willer Tomaz e negócios ligados ao setor de apostas. As investigações também examinam possíveis vínculos empresariais e movimentações financeiras. Flávio e os envolvidos negam irregularidades, e as suspeitas precisam ser apuradas pelas autoridades competentes, com respeito ao contraditório e à presunção de inocência. Não cabe a um artigo de opinião antecipar condenações. Cabe, sim, cobrar transparência, respeito às decisões judiciais e igualdade perante a lei.
É justamente por isso que o episódio exige uma resposta política e institucional, não uma revanche. O campo democrático brasileiro, inclusive a direita democrática, precisa estabelecer uma fronteira clara entre a disputa legítima pelo poder e a tentativa de desacreditar as regras que permitem essa disputa. Não se trata de exigir unanimidade, silenciar opositores ou impedir que qualquer família participe da vida pública. Trata-se de não normalizar condutas que colocam em dúvida o resultado das urnas sem provas e que tratam as instituições como obstáculos a serem contornados quando deixam de servir aos próprios interesses.
As autoridades devem agir nos limites da Constituição e das leis. Se houver descumprimento de decisões judiciais, cabe às instâncias competentes avaliar os fatos e aplicar as consequências previstas no ordenamento jurídico. Se houver provas de crimes, que sejam investigados e julgados com independência. Se não houver, que os investigados tenham seus direitos preservados. Essa é a diferença entre o Estado Democrático de Direito e a política de perseguição que tantas vezes se atribui, sem fundamento, aos adversários.
Considero-me um democrata, um cidadão comprometido com a democracia e, acima de tudo, um servo do Estado Democrático de Direito. Por isso mesmo, não aceito que a defesa da democracia seja confundida com a defesa de um partido, de um governo ou de uma liderança específica. A democracia precisa valer para todos, inclusive para aqueles de quem discordamos. Mas ela também precisa ser defendida contra quem deseja usufruir de suas liberdades sem aceitar suas regras.
A família Bolsonaro e o movimento criado por Jair precisam ser confrontados politicamente por suas escolhas, por suas contradições e por sua relação com as instituições. Não basta rir das trapalhadas, compartilhar os memes e seguir adiante. O humor pode ser uma ferramenta legítima de crítica política, mas não pode nos fazer perder de vista a gravidade do que está em jogo. Quando a encenação ocupa o lugar da responsabilidade, o prejuízo não fica restrito aos protagonistas: alcança o país inteiro.
E fica uma pergunta que deveria inquietar qualquer brasileiro comprometido com a democracia: se essa família, depois de perder uma eleição, é capaz de produzir um episódio dessa dimensão, o que faria se tivesse vencido a disputa presidencial, com um Congresso Nacional no qual o bolsonarismo ampliou sua presença e com a possibilidade de indicar quatro ministros para o Supremo Tribunal Federal ao longo de um mandato? Que limites institucionais teríamos? Que garantias seriam respeitadas? Como ficaria a relação entre os Poderes e a própria confiança dos brasileiros nas regras democráticas?
Não se trata de afirmar que tudo isso necessariamente aconteceria, mas de reconhecer o tamanho da responsabilidade que acompanha o exercício do poder. A democracia não se sustenta apenas no dia da votação. Ela depende do respeito ao resultado, da independência das instituições, da responsabilidade de quem exerce mandato e da compreensão de que ninguém está acima da Constituição.
O Brasil já pagou um preço alto pela banalização do absurdo na política. Não podemos permitir que a escatologia, o deboche e o desprezo pelas regras continuem sendo tratados como simples entretenimento. O que está em jogo é muito maior do que a reputação de uma família ou o destino de um movimento político. É o futuro das instituições brasileiras. E isso é muito grave!















