Há uma diferença importante entre ser jovem e representar renovação. E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores ilusões desta eleição: acreditar que votar em Flávio Bolsonaro significa necessariamente escolher uma nova geração para a política brasileira. Não significa. Flávio é jovem em relação a Lula, é verdade. Mas juventude biológica não é sinônimo de renovação política. É preciso olhar para a trajetória, para as ideias, para os métodos e, principalmente, para o projeto de poder que está por trás de uma candidatura.
Flávio Bolsonaro não chegou à política como alguém que construiu sua trajetória de baixo para cima, disputando espaço em partido, militando em movimentos sociais, organizando comunidades ou construindo uma liderança própria antes de receber projeção nacional. Ele é, antes de tudo, um herdeiro político. Filho de Jair Bolsonaro, entrou na vida pública carregando um dos sobrenomes mais conhecidos da política brasileira. Foi eleito deputado estadual no Rio de Janeiro, depois senador, e agora disputa a Presidência da República. Isso é legítimo dentro das regras democráticas. O eleitor pode escolher quem quiser. Mas também é legítimo perguntar: quanto dessa trajetória pertence ao próprio Flávio e quanto pertence ao capital político construído pelo pai?
Foi justamente essa questão que Ronaldo Caiado, então candidato à Presidência e adversário de Flávio no primeiro turno, colocou de maneira direta. Em uma de suas críticas mais duras, Caiado afirmou que o currículo de Flávio era praticamente a sua certidão de nascimento, numa referência ao fato de ele ser filho de Jair Bolsonaro. Em outra ocasião, disse que liderança não se herda e criticou a necessidade de Flávio recorrer às manifestações e cartas do pai para respaldar sua candidatura em momentos de crise.
Caiado foi além. A crítica ao currículo ganhou força depois que veio à tona uma inconsistência na formação acadêmica atribuída a Flávio: perfis oficiais do parlamentar registravam uma pós-graduação em Ciências Políticas pela UFRJ, mas a própria universidade informou não possuir registro correspondente. A campanha atribuiu a informação a erro ou equívoco. Independentemente da explicação apresentada, o episódio deu munição à crítica de Caiado de que quem apresenta informações incorretas no currículo precisa responder pela confiança que pretende conquistar para governar o país.
E existe uma outra questão que não pode ser ignorada. Flávio sequer foi, durante boa parte da construção das candidaturas de direita, o nome preferido por setores que procuravam uma alternativa ao lulismo sem necessariamente reproduzir integralmente o modelo político de Jair Bolsonaro. O exemplo mais claro veio de Silas Malafaia. Em março, depois de se reunir com Flávio, o pastor declarou apoio a ele, mas afirmou publicamente que preferia Tarcísio de Freitas para enfrentar Lula. Malafaia chegou a defender uma chapa com Tarcísio candidato e Michelle Bolsonaro como vice, dizendo que Flávio, Caiado, Romeu Zema e Ratinho Jr. tinham condições de ser presidentes, mas não necessariamente de derrotar Lula.
Isso diz muito. Porque uma parte da própria direita enxergava em Tarcísio uma possibilidade de renovação do campo conservador sem que a Presidência da República necessariamente permanecesse submetida ao núcleo familiar dos Bolsonaro. O fato de Flávio ter chegado ao segundo turno não apaga essa discussão. Ao contrário. Torna ainda mais importante perguntar que tipo de mudança o eleitor está escolhendo.
Flávio pode ser mais jovem, pode falar de maneira diferente do pai e pode tentar apresentar uma imagem menos confrontadora. Mas não vejo, até aqui, sinais suficientes de que represente uma mudança de comportamento político em relação ao clã Bolsonaro. E essa é uma distinção fundamental: mudar o personagem não significa necessariamente mudar o projeto.
A própria família é um exemplo dessa permanência. Jair Bolsonaro construiu uma trajetória política que acabou levando diversos integrantes de sua família para mandatos eletivos. E a eleição de 2026 reforçou esse fenômeno: Michelle Bolsonaro foi eleita senadora pelo Distrito Federal, Carlos Bolsonaro pelo Senado de Santa Catarina, Jair Renan para a Câmara por Santa Catarina e Renato Bolsonaro, irmão de Jair, para a Câmara por São Paulo.
É aqui que uma velha frase de Ulysses Guimarães ganha uma atualidade impressionante: “O bom político costuma ser mau parente”. Ulysses não estava defendendo a frieza familiar. Estava fazendo uma advertência republicana. A política não pode ser conduzida como extensão da sala de jantar. A frase aparece em registros da Biblioteca Nacional Digital e está associada à defesa de que a Pátria não pode ser colocada a serviço de filhos, irmãos e cunhados.
A causa pública não é propriedade de uma família. O Estado brasileiro não pode ser tratado como patrimônio político de um sobrenome, seja ele qual for. E isso não é uma crítica exclusivamente aos Bolsonaro. É uma questão democrática. Estudos acadêmicos sobre parentesco e representação política no Brasil mostram justamente como o capital político familiar pode facilitar o recrutamento e a chegada de parentes a posições de representação. Pesquisas sobre dinastias políticas também apontam a relação entre herança familiar, poder econômico, redes políticas e perpetuação de grupos no poder.
Quando a política passa a funcionar excessivamente pela lógica da família, a competição democrática fica menor. Não porque parentes não possam ser bons políticos, mas porque a democracia precisa produzir oportunidades para que pessoas fora das estruturas familiares tradicionais também possam chegar ao poder. Renovação verdadeira é abrir portas para quem não nasceu dentro delas.
E talvez o maior exemplo dessa dificuldade esteja na política externa. Eduardo Bolsonaro deixou claro, ao longo do processo eleitoral, que deseja participar de maneira decisiva da política externa de um eventual governo da família. Flávio chegou a afirmar que não pretende nomeá-lo chanceler, mas o próprio debate em torno do Itamaraty mostra que a questão está longe de ser meramente administrativa. Há pressão de Eduardo, há nomes sendo discutidos e há preocupação dentro do próprio corpo diplomático com a possibilidade de influência política sobre a estrutura profissional do Ministério das Relações Exteriores.
E aqui está um ponto que precisa ser levado a sério. Mesmo que Eduardo Bolsonaro não seja oficialmente nomeado chanceler, sua influência sobre uma eventual política externa de Flávio seria uma questão relevante. Relações internacionais não são palco para disputas familiares ou guerras ideológicas particulares. Uma política externa mal conduzida pode afetar comércio exterior, investimentos, acordos internacionais, relações com parceiros estratégicos e a própria credibilidade diplomática do Brasil.
O Brasil precisa conversar com o mundo inteiro. Precisa vender para os Estados Unidos, para a China, para a Europa, para os países árabes, para a América Latina. Precisa defender seus interesses sem transformar diplomacia em extensão de uma disputa política doméstica. O Itamaraty tem uma carreira de Estado, conhecimento técnico e uma tradição diplomática que não pode ficar subordinada a interesses de família.
Há ainda outro conflito de interesses que considero impossível ignorar. Flávio já assumiu compromisso político com a defesa do legado do pai e fala em solucionar as questões jurídicas que envolvem Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, existe uma parcela do bolsonarismo que espera de um eventual governo Flávio a reversão das consequências judiciais relacionadas à tentativa de golpe de Estado e aos atos de 8 de janeiro. A Reuters registrou que Flávio se apresenta como defensor do legado do pai e declarou intenção de resolver suas questões legais caso eleito.
É legítimo que um filho queira defender o pai. O problema começa quando a defesa da família passa a disputar espaço com o interesse maior da República.
Um presidente da República tem que governar para 220 milhões de brasileiros, não para resolver a situação jurídica de uma família. Tem que administrar a economia, a saúde, a educação, a segurança, a infraestrutura, o meio ambiente, a agricultura, o comércio exterior e as relações institucionais. Se o primeiro grande compromisso de um governo for reparar a situação política e judicial de um grupo familiar, existe aí um conflito de prioridades que o eleitor precisa considerar.
E é justamente por isso que não consigo enxergar Flávio Bolsonaro como sinônimo de renovação. Ele pode representar uma nova candidatura. Pode representar uma nova eleição. Pode até representar uma nova etapa eleitoral do bolsonarismo. Mas isso é diferente de representar uma nova política.
Do outro lado, Lula também precisa ser analisado pelo mesmo critério. Se vencer a eleição, estará caminhando para o último mandato presidencial de sua vida política. E isso, paradoxalmente, pode ser uma oportunidade histórica para o campo progressista e para o centro democrático.
Um quarto mandato não deveria significar simplesmente a repetição dos três anteriores. Deveria significar a construção de uma nova etapa. Lula teria que abrir espaço para novas lideranças, novas gerações e novas ideias. O PT também precisaria compreender que a política brasileira não pode depender eternamente da figura de Lula. Um partido que pretende continuar relevante precisa formar sucessores, renovar seus quadros e permitir que novas lideranças tenham espaço real para governar.
E, se Lula vencer, acredito que não haverá alternativa política senão um governo de coalizão nacional. Não apenas uma coalizão eleitoral, mas uma coalizão política capaz de reunir diferentes setores democráticos em torno de uma agenda mínima de desenvolvimento, responsabilidade fiscal, combate à desigualdade, educação, segurança pública, infraestrutura e reformas institucionais. Nesse processo, Geraldo Alckmin terá novamente um papel importante como ponte com setores do centro democrático e do empresariado.
O Brasil não precisa escolher entre o passado do lulismo e o passado do bolsonarismo como se não existisse amanhã. O país precisa começar a construir o amanhã.
E é exatamente por isso que faço a provocação: Flávio Bolsonaro é jovem, mas não necessariamente novo. Lula é velho, mas pode, paradoxalmente, ter a possibilidade de produzir uma mudança de comportamento político maior em seu último mandato do que alguém com metade de sua idade.
A idade está no documento. A renovação está nas atitudes.
Se Flávio vencer levando consigo a mesma lógica de família, confronto institucional, defesa prioritária do clã e manutenção de velhas disputas, teremos apenas uma troca de geração dentro do mesmo projeto político.
Se Lula vencer e compreender que seu último mandato precisa preparar o Brasil para uma nova geração, construir uma coalizão democrática mais ampla e abrir espaço para novas lideranças, poderá fazer algo que a política brasileira raramente consegue fazer: usar a própria experiência para preparar a sua substituição.
No fim das contas, talvez a pergunta mais importante desta eleição não seja quem é mais jovem.
É quem está realmente disposto a deixar o passado para trás.
Porque renovar a política não é colocar um filho no lugar do pai.
É permitir que o Brasil seja maior do que qualquer família.














