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Da união democrática à fragmentação política: o que ficou da frente ampla de 2022


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 09/10/2026 - 10:56

tarifas Lula e Alckmin
Presidente Lula e Vice-Presidente Geraldo Alckmin formam o maior símbolo da frente ampla de 2022.

As eleições de 2022 representaram muito mais do que uma disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Depois de deixar a prisão, recuperar seus direitos políticos e voltar ao centro da cena nacional, Lula conseguiu reunir uma ampla frente política e social em defesa da democracia. Diante da polarização e dos questionamentos às instituições, tornou-se, para diferentes setores da sociedade, o principal símbolo da resistência democrática e da defesa da Constituição de 1988.

Aquela frente era ampla e complexa. Reunia setores historicamente adversários do lulopetismo, lideranças que discordavam das práticas políticas do PT durante seus governos e grupos que sequer compartilhavam seu programa partidário. Não era uma aliança ideológica nem uma adesão irrestrita a Lula. O que unia aqueles diferentes atores era a defesa da democracia, das liberdades e do Estado Democrático de Direito.

Não tenho dúvidas de que Lula só conseguiu derrotar Jair Bolsonaro em 2022 pela combinação de dois fatores. O primeiro foi a força social, eleitoral e organizativa do PT, construída ao longo de décadas. O segundo, não menos importante, foi a coalizão que se formou em defesa da democracia. Sua expressão mais simbólica foi Geraldo Alckmin, antigo adversário político de Lula que aceitou atravessar diferenças históricas para integrar a chapa presidencial. A vitória foi de Lula, mas a força que a tornou possível ultrapassou as fronteiras do PT.

O problema foi que a frente ampla, tão necessária para vencer as eleições, não se transformou em uma força política permanente para sustentar um projeto comum de país.

Depois da vitória, a necessidade de governabilidade, a disputa por espaços e os acordos com o Centrão passaram a ocupar posição central na organização do governo. É preciso reconhecer que o presidencialismo brasileiro exige negociação e construção de maiorias parlamentares. A questão, entretanto, não está na negociação em si, mas no preço político das alianças e na capacidade de preservar os compromissos que justificaram a união de 2022.

O Centrão reúne partidos e lideranças com interesses diversos, frequentemente orientados pela participação no poder. Ao ampliar esses acordos sem preservar, na mesma proporção, a participação e o diálogo com os diferentes setores da frente democrática, o governo contribuiu para alimentar a percepção de que aquela ampla coalizão havia cedido lugar a uma espécie de Centrão-Petista: um arranjo de sustentação política no qual a necessidade de governar passou a prevalecer sobre a construção de uma agenda compartilhada de transformação nacional.

As peças foram se reacomodando, as conveniências falaram mais alto e antigas fronteiras políticas perderam nitidez. Para muitos daqueles que se uniram a Lula em 2022 não por identificação com o PT, mas pela defesa da democracia, ficou a sensação de que a aliança havia cumprido sua função eleitoral e deixado de ter importância estratégica depois da vitória. A frente ampla não precisava eliminar as divergências entre seus integrantes, mas precisava preservar os canais de diálogo que permitiam superar essas diferenças em torno de objetivos comuns.

Enquanto isso, os problemas cotidianos continuaram pressionando a população. O custo dos alimentos, o aluguel, o endividamento das famílias, o transporte e a dificuldade de fazer a renda chegar ao fim do mês influenciam diretamente a percepção sobre qualquer governo. Ainda que existam avanços em determinadas políticas públicas e indicadores econômicos, é necessário que os resultados sejam percebidos concretamente pela sociedade. A defesa da democracia, por si só, não dispensa a obrigação de melhorar as condições de vida dos brasileiros.

A questão central, portanto, não é afirmar que o governo Lula nada fez, tampouco ignorar os obstáculos impostos pelo Congresso ou pela oposição. É perguntar por que a ampla convergência democrática de 2022 não foi transformada em um projeto capaz de manter mobilizados os diferentes setores que contribuíram para aquela vitória. Uma aliança construída em torno da defesa das instituições não poderia depender apenas da existência de um adversário comum. Precisava de diálogo permanente, compromissos compartilhados e uma agenda que ultrapassasse os interesses imediatos do governo.

O resultado do primeiro turno de 2026, com Lula e Flávio Bolsonaro classificados para a disputa final, tornou essa reflexão ainda mais urgente. A força eleitoral do bolsonarismo demonstra que a polarização permanece estruturando a política brasileira. Mas atribuir esse cenário exclusivamente à força dos adversários é insuficiente. Também é necessário examinar as escolhas de quem esteve no governo e a maneira como conduziu as alianças que lhe permitiram chegar ao poder.

Lula tem responsabilidade especial nessa análise. Foi ele quem conseguiu reunir forças políticas historicamente adversárias em torno da defesa da democracia. Sua liderança foi decisiva para aquela convergência, mas a confiança depositada em 2022 não representava um cheque em branco. Os integrantes da frente ampla não se tornaram petistas, nem renunciaram às próprias convicções. Esperavam que a defesa da Constituição e das instituições se traduzisse em uma forma de governar capaz de respeitar a pluralidade que tornou a vitória possível.

Independentemente do resultado do segundo turno, o Brasil precisa discutir qual democracia deseja construir para as próximas gerações. A alternância de poder, o respeito à Constituição, a legitimidade da oposição e a preservação das liberdades devem permanecer acima das conveniências de qualquer governo. O desafio é impedir que a disputa política reduza a democracia a uma escolha circunstancial entre adversários, sem um compromisso duradouro com as instituições e com a sociedade.

Talvez, portanto, o PT esteja procurando culpados no lugar errado. Antes de atribuir o avanço da direita exclusivamente à oposição ou às circunstâncias eleitorais, precisa avaliar por que a frente ampla que possibilitou a vitória de 2022 perdeu força como instrumento de diálogo e construção política. Lula conseguiu reunir o Brasil democrático em torno de uma causa comum, mas seu governo não preservou essa convergência na mesma proporção em que ela foi necessária para vencer as eleições.

A democracia não pertence a Lula, ao PT, à direita ou à esquerda. Pertence à sociedade brasileira. E a principal lição de 2022 talvez seja esta: reunir forças democráticas para vencer uma eleição é importante, mas preservar essa união para construir o futuro é ainda mais necessário.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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