Relatório da Polícia Federal identificou o senador como titular de perfil com “nível elevado de acesso e gerenciamento” a conta da Alcazar Holdings, empresa que detinha um terço do jato Legacy 650 usado por ele em viagem aos Estados Unidos. Flávio e o advogado Willer Tomaz negam conta conjunta.
A Polícia Federal identificou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como “usuário master” da conta bancária da Alcazar Holdings, empresa offshore sediada na Ilha da Madeira, em Portugal. A informação consta de um relatório da investigação sobre desvios no INSS, obtido pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo.
Segundo o documento, a Alcazar detinha um terço do jato Legacy 650 de matrícula PP-NLR, adquirido em 2023 pela Fraction 024. Foi nessa aeronave que Flávio viajou de Brasília a Fort Lauderdale, na Flórida, em janeiro de 2025. Na época, os outros dois cotistas do avião eram o dono da Totvs, Laerte Cosentino, e a Prime You, que tinha Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, entre seus sócios.
E-mails revelam vínculo até maio de 2025
A PF recuperou e-mails do banco Santander no iCloud do advogado Willer Tomaz, único sócio formal da Alcazar. Em mensagem enviada em 22 de maio de 2025, a secretária Fayla Menezes solicita a inclusão de um novo usuário no perfil Master da conta e pede a desvinculação de duas contas. “Na oportunidade peço por gentileza no gerenciador do usuário master desassociar as contas abaixo”, escreveu. Em seguida, lista um número associado ao nome de Flávio Bolsonaro e outra identificada como “conta PF Willer”.
O Santander respondeu três horas depois: “As contas foram excluídas do contrato, conforme solicitado”. Segundo a PF, a documentação de abertura da conta indicava Flávio Bolsonaro como usuário master, condição que lhe conferia “nível elevado de acesso e gerenciamento” e “acesso operacional relevante”. Para os investigadores, essa condição “sustenta a hipótese de sua eventual participação econômica ou societária de fato na empresa”.
Alcazar e o jato de Vorcaro
A Alcazar Holdings tem Willer Tomaz como único sócio formal. Além da conta bancária, a empresa detinha 33,33% da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., proprietária do Legacy 650. A aeronave foi usada por Flávio em janeiro de 2025, em viagem de ida e volta entre Brasília e os Estados Unidos. O senador afirmou que voou como convidado de Tomaz, de quem é amigo. O advogado declarou que não sabia que a Prime You era cotista do avião nem que a empresa pertencia a Vorcaro.
O mesmo jato foi usado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e por sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, em agosto de 2025. Um outro relatório da PF, apresentado ao plenário do STF pelo ministro André Mendonça, aponta que Vorcaro negociou com Viviane um contrato de R$ 50 milhões. O acordo previa a cessão da cota da Prime You e mais R$ 10 milhões para manutenção da aeronave. O escritório Barci de Moraes Associados já havia firmado outro contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master, dos quais R$ 80 milhões foram pagos.
Defesa de Flávio Bolsonaro
Em nota, a assessoria do senador afirmou que ele “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”. Segundo a defesa, “toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa”. A assessoria sustenta que o próprio e-mail apresentado comprova que a vinculação era indevida, “tanto que solicita a desvinculação”. “Essas insinuações surgem em pleno período eleitoral e exigem responsabilidade. A divulgação de fake news é crime eleitoral e os responsáveis deverão responder na forma da lei”, diz a nota.
Defesa de Willer Tomaz
O advogado Willer Tomaz também negou qualquer vínculo financeiro ou societário com Flávio Bolsonaro. “Com o senador Flávio Bolsonaro mantém apenas amizade”, afirmou em nota. “Os dois nunca dividiram conta bancária. O e-mail enviado ao Santander não demonstra o contrário. Extrair desse documento uma eventual participação econômica ou societária é ilação.” Sobre as viagens, Tomaz afirmou que os deslocamentos citados foram “viagens de lazer com as famílias, que embarcaram como convidadas, sem pagamento ou contrapartida de qualquer natureza”.
Outras viagens e mensagens secretas
A investigação também aponta que Tomaz bancou viagens com Flávio e seus familiares. Em março de 2025, os dois participaram de um safári na África do Sul ao lado do senador Weverton Rocha (PDT-MA), que também é alvo de investigações no escândalo do INSS. Documentos mostram reservas em jatos executivos para voos entre Cascais e Nice, com destino final em Mônaco, em maio de 2025. Constam como passageiros Flávio, suas filhas, sua esposa Fernanda Bolsonaro, Willer Tomaz, a esposa dele e outros familiares.
A PF também identificou que Tomaz e Flávio se comunicavam pelo aplicativo Confide, uma plataforma de mensagens criptografadas que se autodestroem e são à prova de captura de tela. O número de telefone do senador constava como contato favoritado pelo advogado.
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