A dificuldade de transformar uma liderança estadual em um projeto nacional pode ter sido um dos principais obstáculos à candidatura do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) à Presidência da República nas eleições de 2026. A avaliação é da cientista política Silvana Krause, em entrevista à Tribuna do Planalto. Ao analisar a ida de Caiado ao PSD, após uma trajetória vinculada ao PFL, ao DEM e ao União Brasil, a pesquisadora aponta dificuldades para conciliar interesses estaduais em uma candidatura nacional.
“A nossa direita tradicional se reduz muito a fronteiras estaduais, e isso mostra muito a dificuldade dela de realmente convencer com um projeto de nação. Esse é o grande desafio da direita tradicional”, afirmou.
Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com atuação em pesquisas sobre partidos e eleições, Silvana lecionou durante 16 anos na Universidade Federal de Goiás (UFG). Na entrevista, examinou a candidatura de Caiado, a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e as negociações partidárias para o próximo mandato.
Ao tratar do ex-governador, a pesquisadora concentrou sua explicação na relação entre os projetos estaduais e a escolha de uma candidatura presidencial. Segundo ela, a construção de uma campanha nacional exige acordos entre lideranças que disputam posições dentro dos próprios partidos.
“Isso tudo é uma dificuldade muito grande de uma articulação nacional que consiga superar projetos regionais, estaduais de várias oligarquias”, disse. Na leitura apresentada pela entrevistada, a questão envolve a organização partidária e os compromissos necessários para reunir esses grupos em torno de uma candidatura.
A escolha do PSD e o papel de Kassab
Silvana citou a mudança de Caiado para o PSD ao discutir como as negociações partidárias interferem nas candidaturas nacionais. Ela relacionou a troca de legenda às disputas entre dirigentes de diferentes estados e aos respectivos projetos eleitorais.
“Basta a gente olhar o que aconteceu com Caiado. Ele teve que sair do seu partido porque tinha disputas regionais entre outros estados”, afirmou. Para a pesquisadora, essas negociações ajudam a compreender as condições em que uma candidatura à Presidência é organizada.
“Essa fragmentação, esse olhar muito em carreiras estaduais, dificulta muito uma expansão e mobilização nacional”, acrescentou. A observação foi feita em resposta à pergunta sobre a relação entre a presença política de Caiado em Goiás e sua atuação fora do estado.
Questionada sobre a decisão do PSD de escolhê-lo, Silvana evitou fechar um diagnóstico sobre a estratégia de Gilberto Kassab. “Essa é uma grande questão que eu estou tentando agora mastigar para analisar”, respondeu.
A pesquisadora disse que a expectativa em torno da candidatura estava relacionada à estrutura municipal do PSD. Ressaltou, porém, que ainda está examinando a escolha de uma liderança com trajetória concentrada em Goiás e o resultado dessa decisão para o partido.
Ao abordar os próximos movimentos de Kassab, Silvana apresentou como hipótese sua participação nas negociações do novo governo. “Provavelmente ele vai estar com o novo governo”, afirmou. A declaração foi uma projeção da entrevistada, sem anúncio de acordo ou indicação de cargos.
Caiado como conselheiro e articulador
A conversa também abordou o espaço que Caiado poderá ocupar depois da disputa presidencial. Silvana apontou a possibilidade de atuação nas articulações partidárias e junto ao mandato de sua mulher, Gracinha, no Senado.
“Não tenho dúvida de que ele tem política no sangue. Ele vai ter a esposa no Senado e vai ser uma importante figura de conselheiro, de articulador, sem dúvida”, afirmou.
A resposta foi dada à pergunta sobre a continuidade da trajetória do ex-governador fora de um mandato próprio. Silvana não indicou uma função formal ou uma nova candidatura. Sua avaliação se concentrou na possibilidade de participação nas negociações e no aconselhamento político.
Esse foi o desdobramento que a pesquisadora apresentou para o caso de Caiado: a manutenção de uma atuação partidária, mesmo depois do encerramento da campanha presidencial.
O resultado presidencial e a votação para o Congresso
No plano nacional, Silvana definiu a eleição como “atípica”. Ao explicar o termo, destacou a mudança de posição entre os candidatos nos dois turnos e a diferença entre os resultados das disputas para o Executivo e o Legislativo.
O presidente Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 48,21%, segundo o resultado anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Para a pesquisadora, a votação para a Presidência não permite atribuir automaticamente uma mesma identidade partidária ou ideológica às escolhas feitas para outros cargos. Ela lembrou que o eleitor pode apoiar candidatos de partidos diferentes ao longo da votação.
“Essa relação de resultado que a gente vê nas urnas agora, de ter um Executivo que continua centro-esquerda e um Legislativo em que cresce uma extrema direita, a diferença entre Executivo e Legislativo não é novidade”, afirmou, ao apresentar sua interpretação sobre a composição política decorrente da eleição.
Silvana também fez uma ressalva sobre as explicações para a reeleição presidencial. “Não dá para dizer que a vitória do Lula é uma vitória que se reduz a uma explicação ideológica de centro-esquerda”, disse.
Na entrevista, ela chamou atenção para o voto na pessoa do candidato e para a necessidade de examinar diferentes fatores na decisão eleitoral. Não apresentou uma distribuição desses fatores nem atribuiu a um deles, isoladamente, a definição do resultado.
Redes sociais e mobilização de rua
Ao analisar a campanha do segundo turno, Silvana destacou a combinação entre comunicação digital e participação nas ruas. Ela atribuiu a essa articulação um papel na mobilização em torno da candidatura do presidente Lula.
“A centro-esquerda descobriu como fazer campanhas no século XXI”, afirmou. Em seguida, explicou que se referia ao uso das redes sociais e de mecanismos de comunicação digital associados à organização de atos presenciais.
A pesquisadora disse ter observado mobilizações tanto nas capitais quanto no interior. “Além de muita gente das capitais, teve também movimentos muito significativos no interior”, declarou. A participação dos jovens também apareceu em sua análise: “Os jovens tiveram uma participação impressionante”.
As declarações expressam a interpretação de Silvana sobre a campanha. Na entrevista, ela não apresentou levantamento de público, distribuição territorial dos atos ou dados que permitissem medir a contribuição de cada forma de mobilização para a votação.
Ao desenvolver o argumento, a cientista política relacionou o processo à transformação das organizações partidárias. “Os partidos estão se digitalizando”, disse. Citou o PL ao discutir características de partidos que incorporam a comunicação digital à sua atividade.
Para ela, essa mudança envolve a maneira de organizar a participação política e de manter contato com o eleitor. “É um novo tipo de articulação”, afirmou, ao tratar da combinação entre redes, estruturas partidárias e presença nas ruas.
Governabilidade depende das negociações
Questionada sobre a relação do presidente Lula com o próximo Congresso, Silvana não tratou a diferença ideológica entre Executivo e Legislativo como uma resposta suficiente para definir as condições de governabilidade.
“A reeleição de Lula vai ser mais difícil? Tenho minhas dúvidas. Vai depender muito, claro, desse novo governo que se instala a partir do ano que vem”, afirmou.
A pesquisadora lembrou que a formação de maiorias parlamentares exige negociações e que a posição eleitoral dos partidos não determina, por si só, todos os acordos posteriores. Na sua análise, é necessário acompanhar como as bancadas e suas lideranças vão se organizar depois da disputa.
Silvana também incluiu na discussão a reação da oposição ao resultado presidencial. Relacionou os acontecimentos envolvendo sua principal candidatura às negociações no Congresso, mas não apresentou uma contagem de parlamentares que poderiam integrar a base governista.
Ao falar da relação entre os Poderes, ela destacou ainda a questão orçamentária. “O problema todo é que o Executivo se fragilizou muito nos últimos anos com as emendas. Isso é outra discussão”, afirmou.
A observação acrescentou uma dimensão institucional à sua resposta: além das posições ideológicas, a pesquisadora considera necessário examinar os instrumentos de negociação entre governo e Parlamento. A entrevista não detalhou propostas de alteração das regras das emendas.
MDB, PSD e o debate sobre federação
A reorganização dos partidos de centro ocupou outra parte da conversa. Silvana defendeu que MDB e PSD discutam uma federação e relacionou essa possibilidade à preparação para as próximas eleições.
“O desafio muito grande dos partidos do centro, principalmente, não estou nem falando dos pequenininhos, estou falando justamente do PSD e do MDB”, afirmou. Ao resumir sua leitura sobre o espaço ocupado por essas legendas na campanha, disse: “O centro ficou esmagado, sem muita cara”.
A pesquisadora distinguiu a possibilidade de federação de uma fusão partidária. “Fusão é praticamente impossível”, declarou, apresentando sua avaliação sobre a negociação entre as siglas. Na sequência, defendeu que o planejamento para 2030 seja discutido com antecedência.
O tema foi abordado a partir da cláusula de desempenho. A regra estabelece requisitos para o acesso ao Fundo Partidário e à propaganda gratuita, com critérios de votação ou de eleição de deputados federais. A partir de 2030, uma das alternativas será alcançar 3% dos votos válidos nacionais para a Câmara, com distribuição mínima prevista entre as unidades da Federação.
Questionada se esse mecanismo seria justo, Silvana deslocou a resposta para os objetivos da organização partidária. “Eu não acho que é uma questão de ser justo ou não. Você tem a preocupação de tornar o sistema partidário mais inteligível, menos fragmentado”, afirmou.
Segundo ela, essa discussão exige que os dirigentes negociem “um projeto não tão específico de suas carreiras individuais, mas um projeto mais amplo”. A formulação foi apresentada como sua interpretação sobre o desafio colocado às legendas.
Não há número ideal de partidos, diz pesquisadora
Silvana rejeitou a ideia de fixar um número ideal de partidos para o Brasil. Em sua resposta, diferenciou as legendas registradas das que conquistam representação e participam das negociações parlamentares.
“Partidos na representação política, partidos registrados no TSE, tudo isso é muito diferente”, afirmou. Para ela, a quantidade, isoladamente, não oferece uma explicação suficiente sobre o funcionamento de um sistema partidário.
“Qual é o número ideal de partidos representados? Depende muito. Depende muito de quem são eles, de onde eles vêm, o que eles representam”, disse.
A mesma cautela apareceu quando a conversa chegou ao parlamentarismo. Diante da hipótese de que o governo Lula teria terminado com o resultado da eleição legislativa, Silvana não endossou a conclusão e chamou atenção para as diferenças entre regras e trajetórias institucionais.
“Não existe um sistema partidário, um sistema eleitoral, um sistema de governo que é o ideal a ser seguido. É porque a realidade de cada país é muito distinta”, afirmou.
Ao encerrar esse tema, a pesquisadora retomou o segundo turno e a necessidade de examinar como as regras eleitorais influenciam a construção de acordos. Sua resposta manteve a ressalva que atravessou essa parte da entrevista: mudanças institucionais precisam ser analisadas no contexto em que funcionam.














