Um estudo com seis anos de acompanhamento identificou alterações cardíacas persistentes entre homens que mantiveram o uso de esteroides anabolizantes. Já entre aqueles que interromperam essas substâncias, os pesquisadores observaram melhora na estrutura e na função do coração. O trabalho foi publicado no European Heart Journal – Cardiovascular Imaging.
Para o médico nutrólogo e intensivista José Israel Sánchez Robles, os resultados mostram que as consequências do uso podem ultrapassar as mudanças corporais. “O coração também responde à exposição prolongada a doses hormonais acima dos níveis fisiológicos, e essas alterações podem se acumular ao longo do tempo.”
A pesquisa reavaliou 105 integrantes da coorte estudada entre 2017 e 2019: 70 usuários ou ex-usuários de esteroides anabolizantes e 35 praticantes de musculação sem histórico de uso. Entre os 50 participantes que utilizavam essas substâncias no início do estudo, 35 mantiveram o uso e 15 o interromperam. Outros 14 permaneceram abstinentes, enquanto seis voltaram a utilizá-las.
Entre os participantes que mantiveram o uso, os exames revelaram aumento persistente da massa do ventrículo esquerdo, redução da fração de ejeção — indicador da capacidade de bombeamento do coração — e piora da função diastólica, relacionada ao relaxamento cardíaco. “O aumento da massa cardíaca não representa um fortalecimento saudável: pode refletir uma adaptação prejudicial e comprometer o funcionamento do órgão”, explica o médico.
Os participantes que interromperam o uso apresentaram redução da massa ventricular e aumento médio de seis pontos percentuais na fração de ejeção. Os resultados se aproximaram daqueles observados no grupo controle. “A melhora após a interrupção é um dado importante, mas não permite afirmar que todos terão recuperação completa ou no mesmo intervalo de tempo”, alerta José Israel.
O estudo também identificou uma associação entre o tratamento anti-hipertensivo e a melhora da função sistólica entre os participantes que continuaram utilizando esteroides anabolizantes. Os pesquisadores ressaltam, porém, que o tratamento não foi avaliado como uma estratégia capaz de neutralizar os danos. “Controlar a pressão arterial é necessário, mas não torna seguro manter o uso de anabolizantes. Tanto a avaliação quanto a interrupção dessas substâncias devem ser acompanhadas por profissionais de saúde”, conclui o nutrólogo.












