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“Não há nenhuma chance de Marconi vir para o PSB sem a minha concordância”


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 30/07/2023 - 06:00

Foto: Roque Sá/Agência Senado
Jorge Kajuru - Senador PSB. Foto: Roque Sá/Agência Senado
Dono de uma trajetória polêmica, o senador Jorge Kajuru foi eleito senador em 2018 pelo Partido Republicano Progressista (PRP); migrou para o Partido Socialista Brasileiro (PSB), esteve no Patriota, Cidadania e foi filiado ao Podemos. Chegou a fazer uma tatuagem do rosto de Álvaro Dias quando ainda estava no Podemos. De volta ao PSB, Kajuru assumiu a liderança da sigla no Senado e tem tido uma boa relação com o governo Lula. Organizou, em Goiânia, o primeiro encontro de ministro do governo com empresários do agronegócio, da indústria e de outros segmentos econômicos na intenção de aproximar o governo desses setores da economia. Atua também para aproximar o governador Ronaldo Caiado de Lula e acha que uma eventual candidatura de Caiado a presidente é uma missão muito difícil.

Tribuna do Planalto – O senhor está organizando os encontros do governo Lula com os  empresários brasileiros do agronegócio, da indústria, comércio e serviço e o primeiro aconteceu na sexta-feira última aqui em Goiânia. Qual a participação do senhor no governo Lula? 

Jorge Kajuru – A minha participação em relação a esse assunto é 100% porque eu fui o primeiro e o único parlamentar do Brasil a fazer essa proposta para o presidente Lula, quando ele me convidou pra ser o vice-líder do governo no Senado Federal e quando (Geraldo)  Alckmin, vice-presidente e meu amigo pessoal desde 2004, me convidou para ser novamente do PSB, o Partido Socialista Brasileiro, e ser o líder do partido no Senado. Como líder do partido e vice-líder do Lula, eu fiz um pedido aos dois; não que eu condicionei, mas eu fiz um pedido aos dois em troca: eu não quero cargo, não quero dinheiro, não quero nada de vocês, não quero emenda, quero tudo a que todo mundo tem direito, mas quero fazer um reencontro do governo Lula com o agronegócio, em especial, e também com a indústria, o comércio, os serviços e demais segmentos. Mas em especial com o agronegócio, começando pelo meu estado de Goiás. Lula achou a ideia maravilhosa e falou: “acerta com o Alckmin vê o que o jeito que você quer fazer e programe tudo”. Começamos a conversar logo, Alckmin, eu e (Carlos) Fávaro, ministro da Agricultura, programamos como seria tudo, as demandas e começamos a escolher os maiores empresários do Brasil, do agro, da indústria, do comércio, dos serviços e dos demais segmentos, tanto no estado de Goiás como em todo o Brasil. São quase 700 e eles estão definindo quais serão as principais pautas. Alckmin participa como presidente interino do Brasil, porque o Lula está viajando, e também como ministro da Indústria e Comércio e Fávaro responde às demandas do agronegócio. Para mim é uma oportunidade de ouro para que o governo Lula se reencontre com o agronegócio, pois o primeiro governo dele foi o que mais investiu no agronegócio. E ele já está mostrando – e já está havendo o reconhecimento do próprio mercado do agro – que, em seis meses de governo, ele fez mais para o agro do que o Bolsonaro em quatro anos. Ele precisa falar o que ele está fazendo; está diminuindo o preço de tudo, exportação, taxas e tudo mais. É um  primeiro encontro nacional, eu tive o prazer de ser o único a pensar nisso, e vamos  transformar esse encontro no primeiro de uma série para outros segmentos que desejam conversar com o governo sobre suas demandas, sobre suas prioridades. 

Não é bom negociar com o Centrão porque é um negócio que você sabe que vai perder; não vai ganhar. E quem vai ganhar é só o Centrão, que é o que há de pior na classe política brasileira.Nada é pior do que esse povo.”

A Revista Veja divulgou recentemente que o senhor também estaria fazendo uma ponte entre o governo Lula e o governador Ronaldo Caiado. Isso procede? Se sim, como está essa aproximação?

Quando a Revista Veja me entrevistou, perguntou sobre a minha amizade com Caiado, que é de 38 anos, para mim o maior governador da história de Goiás, meu amigo pessoal, e sobre a minha amizade de 35 anos com Lula, desde os tempos de São Paulo, quando eu trabalhava em carreira nacional na televisão brasileira e eu e (José Luiz)  Datena ficamos amigos do Lula. Já fiz críticas ao Lula, como fiz ao  Caiado e ao (Jair) Bolsonaro, porque sou independente, graças a Deus, eu. Não sou capacho e nem sou puxa-saco de ninguém. Quando a Veja me perguntou, eu disse que conhecia o Caiado bem, que o Caiado não é rancoroso e que, para mim, o Caiado ia querer ter uma boa relação com o governo Lula. Eu vou procurá-lo. Aí,  procurei o governador Caiado, conversei com ele e ele  me respondeu: “eu quero ter com o governo Lula uma relação pacífica. Eu sou amigo pessoal de alguns ministros como Flávio Dino, como Geraldo Alckmin, mesmo tendo divergências políticas, eles são meus amigos,  Márcio França. Portanto, você vai ser o meu intermediário para chegar até o governo Lula – eu já ia te pedir isso – mas pode dizer ao governo que eu quero uma uma relação pacífica, sem ofensas, sem ataques e a eleição fica para 2026. Até lá, vamos trabalhar pensando em Goiás.” Eu adorei a resposta dele, transferi para o presidente Lula e para o vice-presidente Alckmin essas palavras dele e os dois disseram a mim: “então, a partir de agora, você vai ser o intermediário de Goiás no governo Lula e tudo que for importante para o Caiado e para a população de Goiás pede para o Caiado falar com você. Você marca com os ministros e  entrega as pautas e as prioridades”. Foi o que eu fiz imediatamente, levando o Caiado para conversar com o ministro dos Portos e Aeroportos (Márcio França) e lá  conseguimos 13 novos aeroportos para Goiás, inclusive o de Anápolis, que era um elefante branco há quase 30 anos; conseguimos mais de 10 mil casas do projeto Minha Casa, Minha Vida, uma casa maior, inclusive com varanda; e dez rodovias, algumas delas pedidas pelo Caiado e outras solicitadas por mim. Fomos também ao encontro de outros dois ministros, Renan Filho e Jader Filho. Nesses três ministros eu fiz questão de acompanhar Caiado e na reunião com o Alckmin eu estava viajando para Lisboa, em Portugal, mas marquei com o vice-presidente Alckmin. Eu tenho sido prazerosamente o intermediário da paz. Eu quero ser o elo da paz porque o que importa tanto para o Caiado quanto para mim é o estado de Goiás. É isso que está acontecendo. O ministro Flávio Dino acertou R$ 78 milhões de investimento na Segurança Pública, 57 viaturas que já foram entregues no último dia da festa de Trindade, e o Caiado pediu novas aeronaves e estamos conseguindo para o estado de Goiás.

Como o senhor vê uma eventual candidatura de Ronaldo Caiado em 2026?

É uma decisão pessoal dele e eu não tenho o direito de falar sobre isso. Eu estou com Lula e Alckmin, principalmente com o Alckmin, que é meu amigo pessoal. Se o Alckmin for  candidato, eu vou acompanhar o Alckmin.  Se o Lula for candidato, eu vou continuar acompanhando o Lula. Eu sou o vice-presidente do governo dele e  sou leal. Eu não tenho duas caras, só tenho uma cara. Agora, também não vou atacar o Caiado, jamais vou pedir voto contra ele, pela nossa amizade, e que ele lute pelo sonho que tem de ser candidato à Presidência da República, que começou em 1990 e que, hoje, tem uma situação pior do que em 1990. Mas, com todo o respeito ao Caiado, é uma missão muito difícil, não é fácil. 

O PSB tem criticado a aproximação de Lula com o Centrão. Como o senhor vê essa aproximação?

Na Câmara Federal, se Jesus Cristo for eleito presidente da República do Brasil ele terá que negociar com o Centrão e com o Centrão só existe uma troca, ele não quer uma caneta de presente, não quer uma camisa, um terno, nem um carro zero km de presente. Ele quer dinheiro. Centrão é dinheiro, é negócio. O Centrão é isso aí, e eu concordo com meu presidente Carlos Siqueira, para mim o homem público mais ético desse país, do PSB, Partido Socialista Brasileiro histórico, de 80 anos, partido de Miguel Arraes, de Eduardo Campos, de Geraldo Alckmin, Flávio Dino, Márcio França, Carlos Siqueira, Renato Casagrande, de tantas reservas morais que eu fico  encantado e privilegiado de, pela segunda vez, em quatro anos de mandato, ser escolhido de novo para ser o líder da bancada. Isso é histórico em Goiás, pois nunca nenhum senador conseguiu isso. Eu fui o único senador da história de Goiás que conseguiu ser líder de bancada por duas vezes, por dois anos, 2019 e 2020, e agora,  começa 2023 e vou até 2026. No total, eu serei líder por seis anos. É um recorde na na história de Goiás. Portanto, quem sou eu para discordar do presidente Carlos Siqueira? Eu, como presidente, não negociaria com o Centrão. Eu preferiria perder voto e tentar de outra forma obter maioria, mas vejo que é impossível, é muito difícil. Eu não vou deixar de concordar com o presidente Siqueira; eu penso como ele. Não  é bom negociar com o Centrão porque é um negócio que você sabe que vai perder; não vai ganhar. E quem vai ganhar é só o Centrão, que é o que há de pior na classe política brasileira. Nada é pior do que esse povo. Não todos, porque eu não generalizo. Tem muita gente do PP com quem eu convivo bem, janto, converso, tenho amizade. Agora, a maioria, pelo amor de Deus. É uma opinião do presidente do partido que eu vou respeitar sempre, mas eu não posso deixar de colocar isso para o presidente: presidente, me fala quem conseguiria ser presidente da República do Brasil sem negociar com o Centrão nos dias de hoje? Essa é a realidade.

Outra crítica feita ao governo foi a liberação de emendas parlamentares para a aprovação de projetos. O mais recente foi o da Reforma Tributária. Como o senhor vê essa prática e se o governo repete o método do governo Bolsonaro?

É totalmente diferente do governo Bolsonaro. É uma injustiça falar dessa forma. No governo Bolsonaro não era orçamento secreto, era propina; era emenda propina, porque não se sabia qual o parlamentar recebia e nem se sabia para onde ia o dinheiro. Portanto, isso era corrupção e fazia lembrar o mensalão. Um mensalão piorado. Eu sou muito independente e essa é minha opinião. Portanto, o que aconteceu no governo Bolsonaro foi propina, parlamentares foram comprados para votarem a favor de Bolsonaro. O que Lula tem feito é oferecer mais emendas,  porque na Câmara, é negócio conforme eu te falei: dá emenda ou dá o dinheiro que o cara fala que vai para emenda e, na verdade, vai para o bolso dele, e ponto final. No Senado é diferente, porque a maioria massacrante do Senado é formada por gente de bem, por gente que não pede nada em troca, por gente que vota por convicção contra ou a favor. Claro que tem aqueles que votam contra o Brasil. Eles não são contra o governo Lula, são contra o Brasil e não são patriotas. Eles querem que o Lula se destrua. Ou seja, aquela velha frase: quanto pior, melhor. Porque eles imaginam a volta de um bolsonarista, já que o Jair dificilmente voltará em razão de tantos processos que ainda tramitam contra ele e nos quais, evidentemente, ele será condenado. Nada contra ele, gosto dele, mas ele vai ter que passar pela Justiça como Lula já passou e a chance de ele perder é enorme. O resumo que eu faço é esse, na Câmara não tem beijinho, beijinho, não tem amor e paz. Na câmara é negócio, é toma-lá, dá-cá. Quer meu voto? Custa tanto o meu voto e ponto final. Também não generalizo; na Câmara Federal muitos deputados federais aprovaram a Reforma Tributária e não pediram nada em troca ao Lula. Muitos, mas a maioria, evidentemente, pediu e recebeu. Mas não foi propina. Nós sabemos o nome de todos que receberam. Lula divulgou o nome de todos e todos tiveram que dar satisfação para as cidades para as quais receberam emendas. Agora, alguns pegaram as emendas e não mandaram para as cidades. Mandaram para o bolso deles e para o cofre deles.

Qual a expectativa do senhor em relação a tramitação da Reforma Tributária no Senado? 

No Senado a Reforma Tributária passa rindo. Ao contrário da Câmara, no Senado haverá discussão sobre pontos da reforma; serão apresentadas emendas e, inclusive eu, que sou vice-líder do governo Lula, vou apresentar emenda. Há pontos de que eu discordo e outros senadores também discordam de alguns pontos. Mas eles não estão fazendo isso contra o governo Lula, contra o Brasil. Eles não são contra a Reforma Tributária; são a favor. Só que eles analisam alguns pontos e tudo vai ser discutido, mas que vai passar, vai, e com folga.

A Medida Provisória (MP) para regulamentar as apostas esportivas atende as demandas do setor?

Eu fui o primeiro parlamentar brasileiro a, no ano passado, querer entrar com um projeto de lei, entrei, exigindo a regulamentação das casas de apostas esportivas e a tributação, porque todos eles, 100%, sonegando, sonegando e ficando bilionários. incitando crianças de dez anos de idade, que passaram a usar cartão de crédito de pai e de avô e os pais e avós desesperados, ao final do mês, porque não tinham como cobrir o cartão que crianças de dez anos estavam apostando 14 horas por dia. Eu entrei porque é uma questão de justiça porque isso aí virou um cartel. Quando  entrei, tive a surpresa de ser bombardeado pelos donos de casas de apostas, que me procuravam, xingando até minha mãe. Quando eles viram que eu ganhei força com o ministro (Fernando) Haddad, que uma entrevista me apoiando integralmente. e disse que iria escolher entre o meu projeto de lei e uma medida provisória, os empresários donos de casa de apostas mudaram de opinião, viram que não havia volta, e me procuraram. Foram a Brasília e foram bem intencionados, dizendo que queriam trabalhar de forma legal e pagar impostos. A única coisa de que eles discordam e pediram apoio é sobre a licença que o ministro Haddad quer colocar,  no valor de R$ 30 milhões, porque há casas de aposta que não têm R$ 30 milhões. Eu fiz uma proposta ao ministro Haddad para o valor da licença ser proporcional, de acordo com o tamanho da casa de aposta. Ele concordou comigo, pediu para eu  colocar isso na emenda, porque eu fui escolhido pelo governo e por todos os líderes para ser o relator da Medida provisória, e é isso que vai acontecer. Se quiserem ficar no Brasil, ficarão legais, pagando impostos como todo mundo tem que pagar, e depois vamos discutir a manipulação de resultado de futebol. 

O governo espera que a regulação das apostas esportivas melhore a fiscalização de práticas criminosas relacionadas às apostas esportivas. O senhor acredita que isso vá ocorrer?

A Medida Provisória não tem nada a ver com manipulação de resultados. Não existe Medida Provisória para discutir com manipulação de resultados, o que existe é a Medida Provisória para regularizar e tributar as casas de apostas. A Comissão de Esportes que foi criada, cujo presidente é o Romário e eu sou o vice-presidente, vai virar uma CPI. A primeira pauta dela é investigar a fundo e punir para valer, com rigor a manipulação de resultados de futebol, juízes, jogadores, todos os envolvidos.

O PSB não tem a cara do Marconi e o Marconi não tem a cara do PSB. Isso é um sonho que passa pela cabeça de quem está ao redor do Marconi. A chance de Marconi ir para o PSB é a mesma do Kajuru substituir Francisco no Vaticano.”

O Marconi Perillo ainda pode ir para o PSB? 

Essa conversa nunca existiu comigo e nunca existirá. O vice-presidente Geraldo Alckmin e o presidente Carlos Siqueira e, por unanimidade nacional, de todos os integrantes do PSB e todos os integrantes da Executiva Nacional, fui escolhido líder do partido. Como líder, eles respeitam a minha posição. Portanto, não há nenhuma chance de o Marconi ir para o PSB sem ter a minha concordância.Carlos Siqueira é um homem leal, é um homem honesto, o Alckmin é meu amigo pessoal, honesto, leal, e eles não fariam isso comigo sem ter a minha concordância. 

E o senhor concorda? 

Não tenho opinião formada sobre isso. Quero que o Marconi siga a vida dele, eu sigo a minha. Não tenho nada contra ele mais, mas também não sou amigo dele, não me sento na mesa dele e não vou a casa dele nem ele se senta na minha mesa e  não vai à minha casa. Ele vive a vida dele e eu vivo a minha. Na minha opinião, são duas posições diferentes. O Marconi tem uma posição e eu tenho outra. O PSB não tem a cara do Marconi e o Marconi não tem a cara do PSB. Portanto, isso é um sonho que passa pela cabeça de quem está ao redor do Marconi. A chance de Marconi ir para o PSB é a mesma do Kajuru substituir Francisco no Vaticano. 

 

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