Presidente municipal do PT, Neyde Aparecida já prepara o partido para disputar as eleições de 2024 em Goiânia. Apesar de a deputada federal Adriana Accorsi ter declarado que não teria interesse em disputar o pleito, Neyde acredita que essa decisão não é definitiva e que ela pode vir a representar o PT. Assim como José Dirceu, que não descartou que o partido possa abrir mão de cabeça de chapa para favorecer alianças, a presidente afirma que a eleição municipal é uma etapa das próximas eleições gerais, e que o partido vai trabalhar em 2024 para favorecer o PT em2026.
TRIBUNA DO PLANALTO – O PT tem pelo menos três pré-candidatos a prefeito de Goiânia, o professor Edward Madureira, que já manifestou interesse em disputar a eleição, a deputada federal Adriana Accorsi e o deputado estadual Mauro Rubem. Quais serão os critérios para a escolha do candidato e qual instância vai definir esse nome, considerado o interesse do partido nas eleições nas capitais?
NEYDE APARECIDA – Os outros nomes se colocaram, pelo menos o professor Edward, porque a deputada Adriana disse que não gostaria de ser candidata. Depois de várias conversas, ela dizia que a preferência dela era para continuar atuando no mandato, ela está tendo destaque nacional, já é vice-líder do PT na Câmara, está em várias comissões, tem compromisso com vários municípios porque teve votos em quase todos os municípios.
Acho que ela tem toda razão em ter preferência pelo mandato, mas ela também já disse que está à disposição do partido. O professor Edward disse que só colocou o nome porque havia conversado com a Adriana e ela lhe disse que não seria candidata, mas Adriana hoje já não está dizendo a mesma coisa. Após a visita da presidenta nacional, Gleisi Hoffmann, várias conversas foram feitas porque o PT Nacional defende que o candidato mais competitivo tem que estar na disputa. A Adriana hoje é, sem dúvida, a candidata mais competitiva que nós temos, mas se não chegarmos a um consenso sobre o nome teremos um encontro municipal no ano que vem, o diretório nacional que define as datas dos encontros municipais, para definição da candidatura. Mas queremos resolver essa questão de forma consensual ainda este ano. Acho que isso é importante para o PT e para quem for o candidato ou a candidata do partido, porque quando há três candidatos vai ficando muita dúvida se realmente o candidato é competitivo, se o PT não tem consenso em relação ao nome. Todos têm absoluta certeza de que o nome mais competitivo , até pela sua trajetória, é o da delegada Adriana Accorsi.
A definição se dará dentro do diretório municipal?
Logicamente que nas capitais e grandes cidades, o diretório nacional tem um papel preponderante. Vimos agora em São Paulo, quando uma parte do partido não queria uma definição pelo Guilherme Boulos e o PT nacional reuniu o partido e bateu o martelo: o pré-candidato do PT é o Boulos. Isso pode ocorrer em Goiânia também, já que a presidenta nacional já esteve aqui, disse que ia conversar com a Adriana e com os outros précandidatos em busca de um consenso para uma definição agora que, lá na frente, pode mudar, pode ter aliança. As definições, do ponto de vista da legalidade, da Justiça Eleitoral, só vão ocorrer em julho do ano que vem, e daqui até lá muita coisa pode mudar. Mas no momento, o que o PT nacional tem defendido, especialmente nas capitais e grandes cidades, é a escolha pelo candidato mais competitivo. O PT nacional fará uma pesquisa em Goiânia e em todas as capitais. Lógico que será uma pesquisa qualitativa porque o cenário ainda não está definido, não temos todas as candidaturas colocadas e a própria população não está no momento de pensar em candidaturas a prefeito ainda, de ter definições. Isso é só no ano que vem. A presidenta
nacional tinha até marcado essa semana uma conversa com a deputada e quer fazer um consenso aqui em Goiânia.
O diretório estadual participa dessa decisão?
Todas as lideranças políticas têm um papel importante, mas a decisão, se for seguir os estatutos do partido, é do encontro municipal.
José Dirceu, em encontro realizado no fim de semana em Goiânia, disse que o PT pode abrir mão da cabeça de chapa. Que isso não seria impossível. O PT trabalha com essa possibilidade?
Impossível não é. Nós queremos alianças e o bloco de aliança do presidente Lula é muito amplo. O PT está pensando também em 2026 e não queremos uma eleição tão polarizada quanto a eleição passada para a Presidência daRepública. A eleição de 2024 é como se fosse uma uma prévia da de 2026. Tudo isso está sendo pensado, está sendo discutido para que a gente possa tomar uma definição com relação a Goiânia, todas as capitais e grandes cidades do país. Todas as cidades são importantes, mas o PT nacional tem um olhar principalmente para as grandes cidades. As cidades um pouco menores ficam a cargo do PT estadual e do municipal para fazer essa discussão política.
Quais são as alianças que já estão no radar do PT neste momento?
Por enquanto, conversamos dentro da federação, PCdoB e PV, e não há dúvida de que o nome de preferência dos demais partidos – até pelo que está colocado nas pesquisas – é o nome da delegada Adriana Accorsi. Mas estamos abertos para conversar com todos os partidos que estejam no arco de alianças do PT e queiram conversar conosco aqui em Goiás. Não há veto a nenhum partido do arco de aliança do presidente Lula.
O MDB já foi aliado do PT no passado, o que resultou na eleição de Paulo Garcia. O PT pode voltar a se aliar ao MDB e vir a apoiar uma candidatura do MDB?
Tudo é possível. Como eu disse, dentro do arco de aliança do presidente Lula e pensando já em 2026. O que temos, quando conversamos com os demais partidos, é que queremos estar juntos em 2024, mas que estejamos juntos também em 2026. Dentro dessa discussão temos a abertura para fazer conversas com todos os partidos que fazem parte desse arco de aliança e que queiram conversar conosco.
No caso do MDB, o PT poderia vir a apoiar uma eventual candidatura de Gustavo Mendanha?
Desde que estejamos alinhados em 2024 e em 2026. Não há veto a qualquer nome ou a qualquer partido do arco de aliança do presidente Lula.
Há conversa com o PSB e Elias Vaz pode vir a ser vice na chapa do PT?
Formalmente, não houve essa conversa, mas os deputados e as nossas lideranças vêm conversando. O PSB é um aliado de primeira hora, tem vice-presidente da República. Isso realmente é possível, mas essa conversa ainda não se concretizou.
iado declarou recentemente que seu governo não tem oposição. Como a senhora analisa essa declaração?
Talvez a forma que o governador entenda a oposição seja diferente da que nós entendemos. Os nossos deputados são oposição na Assembleia Legislativa, mas
estão muito abertos a dialogar, não ficam xingando, esbravejando. Não sei se é assim que ele entende oposição. Mas, em alguns momentos, os nossos deputados votaram contra projetos do governador. Em projetos que nossos deputados julgam importantes para a população, logicamente que eles vão votar a favor. Não somos oposição por oposição. Nossos deputados fazem oposição quando tem projetos que achamos que não são aceitáveis ou que não são bons para a sociedade. Nisso o PT sempre tem uma posição contrária ao governador.
O PT mudou a forma de fazer oposição?
Não é que mudamos a forma. Nossos parlamentares sempre têm muita firmeza na defesa dos seus seus projetos, daquilo que pensamos, do nosso programa, como pensamos o estado brasileiro. Mas isso não significa que somos contra tudo que vem por parte do governo. Nossos deputados estão abertos ao diálogo e, se entenderem que o projeto é importante para a população, vão votar a favor, mas projetos como o que taxou o agro, nossos deputados foram contra; em relação ao projeto que taxava os aposentados, nossos deputados foram contra e se posicionaram firmemente.
Como avalia o governo Ronaldo Caiado? Tem então alguns pontos de convergência com o pensamento do PT?
Eu não diria isso. As declarações e as posições que ele vem tomando nos últimos tempos tem sido ao contrário. O que fez durante a pandemia, por exemplo, ele foi firme, não se colocou como a direita contra a ciência, contra a vacina, contra os avanços que significaram salvar vidas, mas hoje ele tem se posicionado muito à direita, como quando esteve na CPI do MST. A declaração dele (associou o MST ao narcotráfico) foi muito infeliz. Em relação à Reforma Tributária, por exemplo, nossos ministros fazem questão de visitar o governador, por uma questão republicana, de relacionamento de governo e, independentemente de partido, se colocam à disposição para um diálogo. O que me parece é que o governador é contrapor ser contra, não não quer fazer uma discussão sobre o assunto. Ele tem se colocado como candidato nas eleições à Presidência da República da direita. Mas o relacionamento dos nossos deputados e do governo federal com o governador Caiado é muito bom, uma relação republicana de governo para governo sem exclusão de qualquer assunto, porque isso interessa não para o governador ou para o presidente da República; interessa à população brasileira e à sociedade goiana. Aquilo que for bom para a sociedade goiana, tanto o governador quanto o presidente da República vão conversar, vão dialogar e vão se acertar. É assim que entendemos como fazer um governo republicano.
Qual a avaliação que o PT faz da administração Rogério Cruz?
A administração tem sido muito criticada e nossa vereadora tem se colocado como oposição na Câmara dos Vereadores. Nossa avaliação é a mesma que se vê nas pesquisas, o prefeito não tem sido bem avaliado pela população: a cidade está suja, abandonada, as obras não saem, não andam, e isso tudo a nossa vereadora Kátia Maria tem dito na Câmara Municipal.
O PT perdeu muito espaço na Câmara Municipal nos últimos anos. Chegou a ter seis vereadores em 2005, na legislatura passada não elegeu nenhum e, agora, tem apenas um. O que explica essa redução de representantes do PT em Goiânia?
O PT passou por um período muito difícil, não apenas o PT, mas especialmente ele, um período em que diziam que era um partido que não defendia a população, que era corrupto, e a imprensa corroborou muito com isso. As pessoas achavam que o PT ia acabar, muitos achavam isso. Um período de muito acirramento e a política não pode ser dessa forma. O acirramento das ideias é perfeitamente normal e saudável, não o acirramento pessoal, de xingamento – como tivemos candidatos xingados e ameaçados, a delegada Adriana Accorsi, durante a campanha,teve que fazer uma denúncia porque uma pessoa a parou com a filha e a xingou e a ameaçou. Esse tipo de coisa não pode ocorrer na política. O debate de ideias e de posições políticas é saudável e normal; agora partir para a agressão pessoal e até agressão física, porque muitas vezes as pessoas ameaçavam os nossos militantes, arrancavam as bandeiras das mãos dos militantes, isso é muito ruim para política, esse tipo de acirramento e esse tipo de campanha eleitoral ou essa forma de fazer política. Foi uma uma era de fake news, que estão sendo muito combatidas agora, de mentiras, de coisas absurdas
que falaram do Lula, que falaram do Haddad, que falaram das lideranças do partido. Houve a judicialização da política e isso foi muito ruim para o país, ruim para a democracia. Acho que a democracia pressupõe respeito à Constituição, respeito às leis estabelecidas para todos, não só para um. O presidente Lula foi preso, mudaram a
forma de entender a Constituição para prender o presidente Lula e várias lideranças do PT. Ainda bem que os órgãos superiores da Justiça perceberam que estavam equivocados. E foi justamente por esse caminho de não respeitar a democracia, de não respeitar as decisões das urnas que levaram ao 8 de janeiro. O PT foi o partido que mais teve ataques em todo esse período. Nós tivemos uma redução no número de prefeituras, de vereadores, porque foi um ataque mesmo. Quem fazia campanha percebia isso, éramos xingados na rua, as pessoas não aceitavam que estivéssemos nas ruas com as nossas bandeiras vermelhas. Foi um período muito, muito difícil para o PT, mas o PT deu a volta por cima, e Lula voltou. Foi preso, podia ter pedido asilo em algum outro país para não ser preso, mas disse: “não faço isso porque eu não devo e vou provar que eu sou inocente”. E foi isso que ele fez. Não é por acaso que voltou e foi eleito para o terceiro mandato.
O professor Edward disse que só colocou o nome porque havia conversado com a Adriana e ela lhe disse que não seria candidata, mas Adriana hoje já não está dizendo a mesma coisa.”
O presidente Lula, durante a campanha, disse que não seria candidato em 2026. José Dirceu deu como certa a candidatura dele à reeleição. Como que a senhora vê a possibilidade de Lula ser candidato?
Não há nenhuma decisão porque é muito cedo ainda para isso. Mas logicamente todos aqueles que vêm acompanhando o governo e percebendo o avanço que o país está tendo acham que Lula tem que continuar. Essa decisão está bem mais na frente, está no primeiro ano do governo ainda e ainda é cedo para que nós possamos dizer que Lula será candidato em 2026.
E qual é o projeto da senhora para as próximas eleições?
Meu projeto é formar uma chapa competitiva de vereadores e vereadoras em Goiânia e fazer a campanha para a prefeitura de Goiânia. É isso que eu vou fazer como presidenta do partido. Tenho conversado com todas as lideranças, feito encontros, tiramos um calendário, vamos fazer no dia 26 um encontro para discutir a comunicação do partido e vamos fazer encontros nas dez zonais do PT de Goiânia com lideranças, com os dirigentes das regiões, com todos aqueles que querem discutir a nossa cidade. Depois vamos fazer, em outubro, a plenária municipal para tirar de tudo desse encontro com a população uma pré-proposta para a Prefeitura de Goiânia.
O cenário atual da eleição tem como pré-candidatos o prefeito Rogério Cruz e um provável candidato do MDB com o apoio do governador Ronaldo Caiado. O PT pode polarizar com o prefeito ou será a terceira via?
O PT vai fazer uma campanha de oposição e se mostrar viável para governar mais uma vez Goiânia. O nosso discurso é um discurso de oposição, até porque o que nós defendemos não é o que está aí. Nós defendemos a mudança, achamos que a população tem direito a uma cidade muito melhor do que está tendo agora, serviços públicos de muito mais qualidade.
Pela votação que Lula teve em Goiânia, 36% dos votos, enquanto Jair Bolsonaro obteve 63%, ele é um um forte cabo eleitoral?
Lula está melhorando muito, vem melhorando a cada mês, a cada pesquisa a sua aceitação. O acirramento que tivemos foi muito grande e isso não se dilui de uma hora pra outra. Mas com certeza Lula é um ótimo cabo eleitoral e aquele ou aquela que for candidata do PT logicamente vai querer o Lula em sua campanha.
Vimos em São Paulo, quando uma parte do partido não queria uma definição pelo Guilherme Boulos, o PT nacional reuniu o partido e bateu o martelo: o pré-candidato do PT é o Boulos. Isso pode ocorrer em Goiânia também.”













