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“É uma emoção ser lembrada como uma possível prefeita, talvez a primeira mulher prefeita da capital”


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 08/10/2023 - 00:15

Adriana Accorsi Deputada federal (PT)
Adriana Accorsi, Deputada federal (PT)
Terceira parlamentar mais bem votada do Centro-Oeste no Prêmio  Congresso em Foco 2023, a deputada Adriana Accorsi está cotada para assumir o Ministério da Segurança Pública, caso seja criado, e foi indicada pelo PT para integrar duas das mais importantes comissões de investigação para o partido, a CEI do MST e a CPMI de 8 de janeiro. É também vice-líder do PT na Câmara. Toda essa visibilidade quase deixou Adriana fora da disputa pela Prefeitura de Goiânia, mas, ao que tudo indica, ela voltou atrás e está animada para concorrer pela terceira vez à eleição para prefeita da capital.

TRIBUNA DO PLANALTO – A senhora aparece liderando as pesquisas de intenção de votos para prefeita da capital e parece ter o apoio das duas presidentes dos diretórios do  PT, Kátia Maria, do estadual, e Neyde Aparecida, do municipal. Seria sua terceira candidatura a prefeita de Goiânia. Está disposta a concorrer novamente?

Adriana Accorsi – É uma grande alegria, uma grande honra ter meu nome lembrado pelas pessoas em pesquisas a mais de um ano das eleições. É um reconhecimento, um carinho, um apreço da população de Goiânia, um respeito pela nossa trajetória. Para mim, que sou filha de um ex-prefeito de Goiânia, é uma emoção imensa poder ser lembrada como uma possível prefeita, talvez, quem sabe, a primeira mulher prefeita da capital. Isso me anima a trabalhar mais, porque de fato, não só o nosso partido, mas  fazemos parte de uma federação, estamos dialogando com outros partidos ainda e estamos bastante animados. Nosso partido tem instâncias internas, temos todo um processo que já está acontecendo e nos próximos dias teremos reunião com o grupo de trabalho eleitoral do diretório nacional, que vai acompanhar as capitais e as  maiores cidades. Faremos essa reunião sobre Goiânia e Anápolis, onde Antônio Gomide aparece nas pesquisas, muito bem lembrado pela população, e portanto estamos muito felizes. Vamos conversar sobre isso e caminhar no sentido de uma definição nos próximos dias e meu sentimento é de uma animação muito grande com esse novo momento da política que vivemos, inspirado no presidente Lula, que não foi eleito por um partido e, sim, por uma frente democrática de partidos imbuídos nesse sentimento da defesa da democracia, das políticas públicas sociais, de um trabalho de muito diálogo com os setores da sociedade e é isso que nos inspira também aqui em Goiânia e vamos buscar essa frente democrática progressista aqui também. 

A direção nacional vai ter influência na decisão da candidatura?

A direção nacional acompanha de forma muito próxima. O diretório nacional decidiu dar uma prioridade nessas próximas eleições, não só para eleição de prefeitos, prefeitas e vice, mas também vereadores e vereadoras. Estamos trabalhando muito na formação das chapas e não há imposição. O que há é uma proximidade muito grande, um acompanhamento e uma orientação. Nós trabalhamos juntos e temos na direção nacional um grande apoio. Eu me sinto muito apoiada e essas reuniões vão definir  muitas questões nos próximos dias. 

O fato de o PT ser oposição ao Caiado pode aproximar o PT do PSDB na eleição?

A decisão do presidente Lula de agregar todos e todas que defendem a democracia, e não só na eleição; após as eleições ele amplia ainda mais esse leque de alianças para governar. Mais que ganhar, queremos governar com o maior número de setores da sociedade possível. Essa é a minha inspiração e a que temos aqui e é a nossa orientação. Tentaremos dialogar com todos os setores. Até setores do PL já fazem parte do nosso governo, votam com o governo. Não há limitações para esse diálogo. Embora sejamos oposição, temos um relacionamento muito respeitoso com o governador Ronaldo Caiado, republicano, democrático, estamos trazendo os benefícios do governo federal de forma idêntica ou até melhor que todos os estados. Acredito que vamos ter um diálogo sobre essa questão das próximas eleições com todo mundo.O PSDB já tem manifestado o desejo de lançar candidaturas, como foi  noticiado, o que nós respeitamos, mas não está descartado o diálogo.

A senhora falou dessa relação respeitosa com Caiado. O governador confundiu isso quando disse que não tem oposição em Goiás? 

Da mesma forma que ele tem um relacionamento muito respeitoso com o governo Lula, inclusive no dia do lançamento do PAC 3, quem acompanhou viu os elogios, a gratidão que ele demonstrou e o reconhecimento e assim acontece em todos os eventos que temos participado, não só aqui em Goiás, mas em Brasília, onde Ronaldo Caiado, bem como o vice-governador, Daniel Vilela, são sempre recebidos com muito respeito, têm sido atendidos em seus pleitos e têm sido tratados de forma extremamente republicana. Eleição é uma coisa e a convivência e o trabalho em prol da população é outra. Questionar ações políticas de um governo em momento de um debate eleitoral faz parte da democracia. Ronaldo Caiado fazer isso em relação à Reforma Tributária é natural, assim como quando nós discordamos. Eu, quando deputada, muitas vezes discordei de projetos do Ronaldo Caiado, fiz discurso, sempre de forma respeitosa, sem xingamentos, sem ataques a sua legitimidade como governador, como pessoas extremistas fazem contra o presidente Lula. Atacam a eleição, atacam a sua legitimidade, não há esse tipo de ataque, porém a discordância democrática. Isso continuamos fazendo e pode ser que ele tenha confundido, mas a oposição existe, é séria, é propositiva. Hoje somos governo nacional e não só temos esse relacionamento respeitoso como temos responsabilidade extrema com o momento político que vivemos de retomada da democracia, dos diálogos. Hoje é um outro momento no país, totalmente diferente. Eu estive com o secretário de Segurança Pública de Goiás (coronel Renato Brum) assinando a entrega de uma área do governo federal que vai ser a nova sede da Secretaria de Segurança Pública e o secretário falou que estava sendo atendido nesses meses muito mais do que todos os anos do outro governo. Temos que ter responsabilidade nessa discussão. Não estamos em campanha eleitoral, portanto nossas falas são de diálogo, são o pedido do presidente Lula, de união e reconstrução. 

A eleição municipal tem como característica a proximidade com o eleitor. Há  possibilidade de uma reedição da eleição de 2022, como polarização muito acirrada entre os apoiadores de Lula e os bolsonaristas?

Essa situação acirrada que aconteceu no ano passado estará presente, porém de uma forma limitada. Acredito que a população de Goiânia vai querer debater seus problemas locais, que são muitos. Temos problemas graves na cidade para discutir, modernização, desenvolvimento, cuidado com o meio ambiente, debater a cidade com muita responsabilidade, conhecimento e amor pela cidade. Talvez isso seja insuflado por alguns alguns atores dessa disputa que queiram trazer temas nacionais, polêmicas que não serão  resolvidas aqui e que podem desviar dos grandes temas da nossa cidade e que se colocam nesse momento de uma crise ambiental sem precedentes que vivemos no mundo e que precisam ser debatidos nas cidades. A falta de água, de moradia, o retrocesso que o país sofreu na Educação Infantil com a pandemia. Quantas mil crianças aguardam vaga em CMEIs hoje em Goiânia? Como resolver isso de uma forma séria, responsável em parceria com o governo estadual e federal? Quem tem maturidade para essas parcerias? Sou a vice-líder do Partido dos Trabalhadores na Câmara e tenho o maior interesse em me ligar ao presidente, mas acredito que precisamos aprofundar os debates dos grandes temas da cidade e nas soluções que podemos apresentar de forma factível, de forma verdadeira.

A senhora é cotada para ocupar um eventual Ministério da Segurança Pública, caso haja a divisão do Ministério da Justiça. Qual a opinião da senhora sobre essa mudança na pasta?

É uma grande honra ser lembrada para uma das funções mais importantes do país, na minha opinião, e eu fico extremamente honrada, eu fico emocionada de ver uma mulher, porque nunca na história desse país tivemos uma mulher neste cargo. A Segurança Pública ainda é um meio extremamente masculino, onde somos poucas e lutamos muito pelo nosso reconhecimento. Só de ser lembrada é uma grande honra e acredito que estou também honrando as mulheres trabalhadoras da Segurança Pública. Eu estive com o ministro Flávio Dino, levando mulheres trabalhadoras da Segurança Pública, porque estamos lutando pelo nosso direito da aposentadoria especial, que foi retirado. Hoje as mulheres policiais civis, federais, penais, guardas, trabalhamos mais que os homens porque nos foi retirada a aposentadoria especial. Todas as profissões que têm um desgaste físico e/ou emocional muito grande, como é a Segurança Pública, têm essa prerrogativa. Nós conseguimos com a presidenta Dilma (Rousseff), mas o presidente (Michel) Temer retirou esse direito de nós. Estivemos com o ministro, levando essa demanda, essa angústia, essa injustiça e ficamos com o coração cheio de esperança de que ele vai nos ajudar para que consigamos novamente esse direito. Portanto, isso demonstra como nós mulheres ficamos num segundo plano nas questões de Segurança, embora sejamos a maior parte da população que recebe esse serviço e precisa dele e também estamos em todas as forças de segurança, mostrando a nossa competência, humanizando essas forças, levando um olhar dedicado e atento também para as vítimas mulheres e crianças. Portanto é uma grande honra,  deixando muito claro que não houve convite, não houve uma indicação oficial. Foram companheiros de partido, sobretudo de forças de Segurança, principalmente da minha força, que é a Polícia Civil, que lembraram do meu nome. Recebi o ministro Flávio Dino aqui em Goiânia recentemente, quando veio fazer a entrega de muitos equipamentos de Segurança, viaturas, drones, armamentos, com o governador Ronaldo Caiado, e também tenho um diálogo constante com o secretário Legislativo Elias Vaz, que nos recebe sempre de braços abertos e nos atende. A divisão do ministério é um compromisso de campanha do presidente Lula e ele deseja fazer essa essa divisão para demonstrar e efetivar uma prioridade na Segurança Pública. Nós discutimos isso na campanha, eu fiz parte da transição, quando debatemos esse tema e isso foi resolvido. Entretanto, creio que o presidente Lula acerta muito em não efetivar essa divisão nesse primeiro ano, porque o Ministério da Justiça e Segurança Pública tem em suas mãos temas extremamente complexos, que se referem à vida das pessoas e que são compromissos muito fortes do presidente Lula, como a questão do controle do armamento no país, que é imprescindível e tem que ser feito porque estamos enfrentando grandes interesses financeiros de políticos que querem de toda forma que o Brasil se torne uma nação de descontrole de armas. Nem o Exército tinha mais o controle, não se sabia quem tinha arma e quantas. A Polícia Federal foi efetuar uma prisão legal de um ex-deputado e foi recebida com material de guerra. A polícia não tinha conhecimento de quem eram as pessoas que obtinham o direito de adquirir armas usadas em guerra, como granadas, a que as polícias Federal e Civil não tinham acesso. Para se ver o nível de descontrole absoluto em que o nosso país estava. E se isso continuasse, como estaria  o nível de violência contra mulheres, contra crianças, em escolas? Isso precisava ser feito e precisava ser uma pessoa como um ex-juiz, um ex-governador, uma pessoa de crédito na sociedade, como o ministro Flávio Dino, em um ministério forte que abrangesse a Justiça e a Segurança Pública,  porque no controle de armamento os dois temas estão muito ligados. Um outro aspecto é o combate aos criminosos golpistas, que tentam dar golpe contra a democracia brasileira, como o que aconteceu em 8 de janeiro. Da mesma forma, a Segurança e a Justiça interligadas no combate a estes crimes, cujo combate ainda está acontecendo. Eu estou na CPMI dos atos golpistas e é muito grave o que temos descoberto, o que a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal têm descoberto e punido com o rigor da lei, como é necessário.O presidente acerta muito em não realizar essa divisão no primeiro momento, dada a gravidade, a complexidade e a sensibilidade de temas muito importantes para o governo e que necessitavam de um ministério muito forte. Creio que é natural que  caminhemos no sentido dessa divisão para que tenhamos uma grande prioridade na Segurança Pública, que é o que o presidente Lula quer demonstrar. 

“É lamentável a postura de certos parlamentares extremistas de direita que envergonham o nosso país e o nível baixíssimo com que essas pessoas atuam no Congresso Nacional. Discordar é natural, faz parte da democracia, mas o que mais chama atenção é o ódio que elas têm das mulheres.”
“É lamentável a postura de certos parlamentares extremistas de direita que envergonham o nosso país e o nível baixíssimo com que essas pessoas atuam no Congresso Nacional. Discordar é natural, faz parte da democracia, mas o que mais chama atenção é o ódio que elas têm das mulheres.”

A senhora participou de duas CPIs importantes para o governo, a CPMI do 8 de janeiro e a CPI do MST, já encerrada. Como é a convivência com os bolsonaristas no Congresso Nacional?

Eu tive essa essa função importante de participar temporariamente da CPI do MST, uma comissão extremamente fracassada, que queria tumultuar e gerar desgaste para o governo e acabou demonstrando para toda população brasileira a importância desse movimento social, que luta pela reforma agrária, para os trabalhadores terem uma terra para viver e trabalhar; que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina; que doou toneladas de alimentos na época da pandemia e também na tragédia que atinge o Rio Grande do Sul; sua organização e organicidade e sua vontade de lutar junto com o governo e as autoridades pelo  desenvolvimento do nosso país. Os países que se desenvolveram, como os Estados Unidos, só o fizeram após realizar a reforma agrária, que é importante para o desenvolvimento econômico. E por isso essa luta é tão importante. Por outro lado a CPMI dos Atos Golpistas, que a princípio nós governistas fomos contrários, porque a Polícia Federal e a Justiça estão realizando um trabalho brilhante. Ao contrário da necessidade da CPI da Covid, quando tínhamos um ministério que não cumpria as suas funções e se omitia na proteção à vida das pessoas; um governo que não comprava vacinas, respiradores e não fazia ações integradas com os secretários de Saúde, o que resultou na grande tragédia que vivemos. durante a pandemia. Hoje,  temos instituições funcionando e de forma brilhante, rigorosa, legalista, que é o que deve acontecer. Em um primeiro momento, colocamos que deveríamos nos ocupar com temas mais urgentes e necessários para o andamento no Congresso. Vivemos um grande conflito político no ano passado, muitas políticas ficaram paralisadas, o orçamento tornava o Brasil praticamente inviável, tanto que conseguimos aprovar a PEC da transição com grande maioria dos votos. No entanto, quando é divulgado um  vídeo no qual as imagens foram adulteradas para tentar culpar o próprio governo do crime no qual ele era vítima, entendemos que era imprescindível que a CPMI acontecesse para que, no aspecto político – temos o aspecto de justiça de polícia – os fatos fossem revelados para a população e as provas buscadas. Isso está sendo feito de uma forma muito competente, sobretudo pela relatora, senadora Eliziane Gama. Ela nos inspira muito pela pela atuação firme, corajosa, mas sobretudo séria e competente. Vamos apresentar um relatório que vai comprovar que a democracia brasileira sofreu um crime gravíssimo não só no dia 8 de janeiro, que foi um ápice, mas tivemos pessoas que queriam explodir um caminhão cheio de bombas no aeroporto de Brasília. A minha filha estava lá, quantos familiares estavam  indo para casa ver a família no Natal, quantas pessoas iriam perder a vida, ficar feridas para criar uma situação de caos. Pessoas que insuflaram as redes sociais, que foram para a frente dos quartéis, mobilizando para a prática de crime. Porque golpe em uma eleição democrática é crime, crime grave. A CPMI vem no sentido de trabalhar concomitantemente ao Supremo Tribunal e também à Polícia Federal e é onde essas ações têm sido reveladas. O importante é que reste tudo  apresentado à população, os criminosos, tanto os que perpetraram, quanto os que patrocinaram e também aqueles que insuflaram em redes sociais que esses crimes fossem cometidos

As duas investigações foram propostas por parlamentares bolsonaristas e as  mulheres têm sido muito atacadas nessas comissões. Inclusive, a senhora quase foi impedida de entrar em uma reunião da CPI do MST aqui em Goiás. Como é conviver nesse ambiente?

Houve uma tentativa de impedir que eu entrasse, mas eu entre e participei de toda a diligência. É lamentável a postura de certos parlamentares extremistas de direita que envergonham o nosso país. É uma vergonha o nível baixíssimo que essas pessoas estão colocando no Congresso Nacional, porque discordar é natural, faz parte da democracia e eu convivo – aprendi com o meu pai Darci Accorsi – tranquilamente. Essas pessoas são extremistas e o que mais chama atenção é o ódio que elas têm das mulheres. É impressionante. Eu sempre me lembro de uma obra literária que se tornou um filme muito genial que se chama “Os homens que não amavam as mulheres”. É muito grave e eles tentam nos coibir de estar ali naquele momento, de falar, a nossa presença é atacada de forma muito agressiva, muito baixa e eu fiquei impressionada, embora, como deputada estadual em Goiás, já tivesse presenciado e até sofrido ameaças, mas jamais imaginei que teríamos pessoas de um nível tão rasteiro, que envergonham a palavra política. Não são políticos de uma democracia, são extremistas contra a democracia, embora tenham sido eleitos no sistema democrático, por uma urna eletrônica, são pessoas que não condizem com a democracia, porque querem impedir a participação e às vezes até a vida daqueles que pensam diferente. No lançamento do Plano Safra, o maior plano da história do Brasil, que mais trouxe recursos para o agronegócio e para a agricultura familiar, o superintendente nacional da Conab (Eduardo Dumont) contou a história do pai dele, Adão Pretto, deputado federal do MST do Rio Grande do Sul e que Ronaldo Caiado era deputado e que eles tinham embates políticos de alto nível. Quando o pai dele ficou doente, Ronaldo Caiado foi ao hospital visitá-lo e se dispôs a cuidar dele. Essa é a grande política, esse é o diálogo democrático. Na apresentação do PAC, estavam o governador Ronaldo Caiado, o ministro Rui Costa, deputados de todos os partidos, prefeitos. Essa é a democracia, passou a eleição temos que trabalhar juntos pelo povo, não ficar xingando e humilhando as mulheres, tentando impedi-las de participar da política. Eu sou delegada, não tenho medo e eu estou lá, firme e minha voz não será calada. Represento também as mulheres de Goiás, que são muito corajosas e lutadoras, e eles não vão nos calar. 

O governador de Goiás e de estados do Norte e Nordeste estão lutando para  manter os incentivos fiscais no texto da Reforma Tributária. Como a senhora vai se posicionar em relação a essa demanda regional? 

A Câmara Federal já aprovou a Reforma Tributária e eu votei favoravelmente. Essa reforma não é um projeto de lei do governo, já estava no Congresso muito antes das eleições presidenciais de 2022, mas, por uma série de motivos, e principalmente pela falta de diálogo com a sociedade, não era aprovada. A reforma é necessária para o desenvolvimento do país, para termos justiça fiscal e justiça social e para modernizar o sistema tributário nacional. As críticas e ponderações são naturais porque é algo extremamente complexo. Jamais se chegou a um consenso e esperando esse consenso ela nunca foi aprovada. O governo Lula e a maioria dos deputados e deputadas entenderam que, embora houvesse ponderações, como essa que o governador Ronaldo Caiado colocou, deveríamos aprová-la, e eu acredito que deve ser aprovada também no Senado Federal. Outros governadores concordaram com a reforma, inclusive o governador Tarcísio de Freitas, de São Paulo, porém as ponderações do governador são recebidas com respeito. Eu estive com o ministro Alexandre Padilha, ouvindo essas ponderações do governador Ronaldo. Porém, o governo entendeu que para as políticas de longo prazo propostas nessa reforma pelo grupo de trabalho do Congresso Nacional desta forma ela funciona melhor. Nós temos tranquilidade em receber essas ponderações do governador, que deve levá-las ao Senado, que vai debater de forma democrática. Isso faz parte da democracia, não vejo nenhum problema, não é uma crítica ao governo, até porque é um projeto do Congresso, vejo como a ponderação natural. Infelizmente não é possível agradar a todos. 

Discute-se a possibilidade de regulamentar os incentivos fiscais em outra lei ou dispositivo. Como a senhora se posiciona em relação a manutenção dos incentivos?

Eu não vejo problema algum em debatermos essa questão. Os incentivos têm tido na história de Goiás e do Brasil um papel importante. Eu não sou contrária aos incentivos, no entanto precisamos analisar se o retorno dos incentivos como é hoje pode vir de encontro ao pensamento da Reforma Tributária. Disponho-me a participar desse diálogo e, se for possível, creio que poderemos aprovar. Acho que é uma ponderação importante que o governador faz, não podemos deixar de analisá-la e o governo tem toda a disposição de dialogar e o potencial de chegar a acordos nesse sentido. 

Em relação às críticas à minirreforma eleitoral, de que flexibiliza as regras, principalmente as da ficha limpa, e reduz a participação das mulheres, além da rapidez com que foi aprovada na Câmara, como a senhora se posiciona?

A minirreforma também se fazia necessária. A cada eleição temos mudanças nas regras e nem sempre isso é regulamentado de forma clara, tanto que a maioria das prestações de contas de partidos e de muitos políticos, sobretudo daqueles que gastam muito pouco e às vezes não tem condições de ter um advogado e um contador, acabavam judicializadas. Havia necessidade de definições. Sobre inelegibilidade tínhamos várias regras que eram sempre discutidas na justiça e chegou-se a um consenso de quando deveria começar a contar essa inelegibilidade. São propostas que os partidos trouxeram para simplificar e evitar a judicialização. Nós, mulheres de praticamente de todos os partidos, lutamos para garantir os 30% da chapa, porque havia proposta de que não fosse mais obrigatório. Nós negociamos para que ficasse nas federações para que não perdêssemos. Além disso, estamos lutando para termos cota de cadeiras nas casas legislativas. Isso para mim é um grande passo. Temos centenas de câmaras municipais que não têm uma mulher e  passaremos a ter sempre mulheres nas câmaras municipais e nas assembleias. Não conseguimos entrar num acordo sobre isso e por isso não foi votada, mas é  uma grande discussão que estamos fazendo. Eu lamento essa questão da anistia, ela me preocupa muito, não sou favorável à anistia para quem não cumpre as cotas e tenho lutado muito para que não seja aprovado. Tenho sido uma voz contra essa anistia, porque acredito que isso vai prejudicar a luta das mulheres. Nós precisamos avançar em políticas públicas, garantir os recursos, garantir a punição rigorosa à violência política de gênero e ter políticas afirmativas de estímulo à presença das mulheres. Quando temos uma agressão a uma mulher na um assembleia legislativa tem que haver punição rigorosa para que as mulheres se sintam seguras de política. É na política que decidimos as questões importantes para nossa vida.  A maior causa de morte de mulheres é o câncer de útero e de mama. Onde se define quanto recurso vai para os exames de prevenção, se esses exames vão chegar nas mulheres da região rural, se vão chegar nas periferias, se vão chegar nas mulheres encarceradas? Essa é uma luta da minha vida e é uma política pública. Só nós, mulheres, lembramos disso quando estamos lá. Por isso a política precisa da nossa presença

Dentro dessa discussão, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, afirmou ser a Justiça Eleitoral desnecessária. A senhora concorda com ela? 

Eu não acho desnecessário. A Justiça Eleitoral foi a grande guardiã da democracia nas últimas eleições. A presidenta faz ponderações críticas dentro dessa questão que eu tenho colocado sobre a minirreforma, a falta de definições claras. Por exemplo, quando se define quantas candidaturas de pessoas negras temos na chapa para que se defina o recurso? Esse foi um problema que nosso partido teve, porque a regra mudou no curso do prazo eleitoral e foi impossível cumprir a regra eleitoral. É preciso que isso seja regulamentado, que seja esclarecido, porque senão, a cada eleição, vamos judicializar as questões relacionadas às chapas e às eleições. Por exemplo, que dia se define que a pessoa está inelegível e não pode ser votada? O eleitor tem o direito de saber se o voto dele será considerado ou não e isso tem que ser definido pelo menos até o dia da eleição. Essas definições são necessárias para a democracia, para que as pessoas tenham os seus direitos. A pessoa que não gastou nada na campanha poderá ter uma prestação de conta simplificada, porque senão ela gasta mais com o advogado e o contador do que na própria campanha. 

Estive com o secretário de Segurança Pública de Goiás, assinando a entrega de uma área do governo federal que vai ser a nova sede da Secretaria de Segurança Pública e o secretário falou que estava sendo atendido nesses meses muito mais do que todos os anos do outro governo.”

 

 

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