A equipe do Tribuna do Planalto esteve na Avenida das Bandeiras, importante polo de autopeças e serviços automotivos de Goiânia, onde comerciantes denunciaram uma operação do Detran-GO que interditou completamente a via sem aviso prévio. A ação, que visa aplicar a Lei do Desmonte (Lei Federal nº 12.977/2014), tem causado impactos severos à economia local, com prejuízos diários, queda abrupta de faturamento e o temor de que novas fiscalizações levem ao fechamento definitivo de lojas da região.
“Fechou do nada. Chegaram com viaturas e já começaram as fiscalizações. Não teve conversa, ninguém explicou nada”, desabafou um comerciante que pediu para não ser identificado por medo de represálias. A rua ficou fechada por quatro dias seguidos e, segundo ele, o movimento caiu 100%, gerando um prejuízo de até R$ 5 mil por dia. “Não entra carro, ninguém passa. Parece um deserto”, completou.
Durante a apuração, na reportagem questionou um dos agentes do Detran no local sobre a necessidade de interditar toda a avenida, inclusive a passagem do transporte coletivo. O agente informou que o fechamento total se deu por segurança, já que máquinas e equipamentos pesados estavam sendo utilizados na operação, o que poderia oferecer risco de acidentes com veículos e pedestres.
Um dos comerciantes mais antigos da região, o chaveiro Antônio Campos, que atua no local desde o ano 2000, também criticou a forma como a ação foi conduzida. “Parou tudo. Ninguém entra, ninguém sai. Fecharam a rua inteira, inclusive para ônibus e carros pequenos”, relatou. Ele afirma que não houve qualquer tipo de comunicação prévia por parte do Detran. “Não recebemos nenhuma notificação. A gente entende a necessidade da fiscalização, mas não dessa forma. Fechar a rua, atrapalhar o trânsito e sufocar quem está tentando trabalhar?”
Queda no movimento e burocracia travam recuperação dos comércios
Os comerciantes relataram quedas no movimento que variam entre 60% e 100%, além de dificuldades extremas para manter as atividades funcionando. “Eu perdi tudo nesses dias. O movimento caiu 80%, tive que fechar a loja de peças usadas porque não consegui regularizar na Amma. Tive que reformar tudo e abrir uma nova empresa só para poder manter alguma renda”, contou uma comerciante que preferiu não se identificar, com receio de perseguições. Ela emprega quatro pessoas e precisou recorrer a medidas drásticas para continuar operando. “Tive que abrir um novo CNPJ só com peças novas, troquei o piso, reformei tudo”, detalhou. Segundo ela, os custos com as adaptações exigidas pelos órgãos fiscalizadores ultrapassaram R$ 15 mil.
Rodrigo Sirqueira, comerciante há mais de 20 anos na região, reforçou o desabafo: “A gente não está contra a fiscalização, mas não pode generalizar. Tem gente honesta aqui. O que falta é ajuda para se adequar. Enquanto isso, os órgãos demoram meses para liberar um alvará ou uma autorização.”
Além dos prejuízos econômicos, a interdição tem causado grandes transtornos no trânsito da região. A operação do Detran-GO ocorre de três a quatro dias por semana, com o bloqueio total da avenida, inclusive para linhas de ônibus. Motoristas e usuários do transporte coletivo precisam buscar rotas alternativas, o que tem gerado atrasos e reclamações, principalmente nos horários de pico.
Rodrigo ainda criticou duramente a forma como a categoria vem sendo retratada. “Tem gente falando que aqui só tem loja irregular. Isso não é verdade. E essas entrevistas que ficam atacando a gente só pioram. O comerciante que fecha não afeta só a loja, afeta padaria, posto, lanchonete, tudo em volta. Isso aqui é um tripé econômico.”
Detran diz que houve orientação prévia; comerciantes discordam
O Detran-GO, por meio de nota, afirmou que a operação está sendo realizada com base na Lei do Desmonte e que a fiscalização orientadora começou ainda em dezembro do ano passado. “O objetivo é combater o comércio clandestino de peças usadas e promover segurança ao consumidor. Os empresários foram avisados e tiveram tempo para se regularizar”, declarou o órgão.
Ainda segundo o Detran, a área de isolamento é restrita ao necessário para garantir a segurança das equipes e do público. A operação deve ocorrer em toda a cidade, de segunda a sexta-feira, com duração variável conforme o tempo necessário para aplicação das medidas administrativas.
Apesar disso, os comerciantes contestam. “Se houve orientação, a maioria aqui não viu. Foi tudo de surpresa. Chegaram e fecharam a rua. Não deram nem chance de a gente entender o que estava acontecendo”, afirmou um lojista que preferiu não se identificar por receio de retaliação.
Outros órgãos são cobrados e se eximem de responsabilidade
Durante a apuração, os comerciantes também relataram dificuldades em obter os documentos exigidos para regularização por parte de órgãos municipais. A equipe do Tribuna do Planalto entrou em contato com a Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), a Secretaria de Infraestrutura Urbana (Seinfra), a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec) e a Secretaria de Planejamento Urbano e Habitação (Seplan).
Em resposta, a Amma informou que “tudo que configura alvará, licenciamento ambiental etc está com a Sefic [Secretaria Municipal de Eficiência]”, indicando que a responsabilidade pela emissão da documentação necessária para legalização dos estabelecimentos estaria sob outra pasta.
Até o fechamento desta matéria, Seinfra, Sedec e Seplan ainda não haviam retornado o contato da reportagem.
Enquanto isso, comerciantes seguem sem respostas, com prejuízos acumulados, lojas fechadas e uma crescente sensação de abandono. “A gente só quer trabalhar com dignidade. O Estado tem que fiscalizar, mas também precisa estender a mão e ajudar quem está na legalidade ou tentando se legalizar”, concluiu Rodrigo, visivelmente emocionado.













