Skip to content

UEG se reencontra e tenta provar que ainda é necessária

Depois de anos de crise e incerteza, a Universidade Estadual de Goiás busca recuperar o prestígio e o papel de motor do desenvolvimento regional


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 19/10/2025 - 09:08

UEG - FOTO DA FACHADA, UEG
Universidade Estadual de Goiás passa por fase de reestruturação, com aumento de alunos, novos concursos e pendências no plano de carreira docente (Foto: Divulgação / UEG)

A Universidade Estadual de Goiás (UEG) tenta reencontrar seu lugar no mapa do ensino superior público. Depois de uma década marcada por cortes, ameaças de fechamento e desânimo, a instituição vive um novo tempo, menos barulhento que o da sua criação, mas mais consciente. “A universidade vive um momento próspero. Organizamos a casa e hoje temos um orçamento muito mais condizente com o que a UEG representa”, afirma o reitor, professor Antônio Cruvinel Borges Neto.

Criada em 1999, a UEG foi o grande projeto educacional do governo Marconi Perillo. Surgiu como símbolo de inclusão e orgulho regional, mas se expandiu sem planejamento. Em pouco tempo, havia campi em quase todo o estado, um feito político e social, porém com altos custos de manutenção e fragilidade estrutural. Quando Ronaldo Caiado assumiu o governo, a universidade mergulhou numa crise de gestão e orçamento. A expansão virou sinônimo de excesso. Hoje, o esforço é o inverso: reconstruir com método o que antes cresceu por impulso.

“Não queremos repetir o passado. Antes de abrir um curso, garantimos professor efetivo, laboratório e estrutura. Só então abrimos vestibular”, explica Cruvinel, ao destacar o novo modelo de gestão. Segundo ele, o momento é de “prosperidade com responsabilidade”, ainda que algumas decisões tenham sido amargas, como o fechamento de cursos e unidades inviáveis.

Para o reitor Antônio Cruvinel, a UEG atravessa um período de consolidação, após anos de instabilidade (Foto: Divulgação / UEG)

Os números ajudam a sustentar o otimismo. O orçamento da UEG dobrou nos últimos quatro anos, e a universidade realizou oito concursos públicos. Quando Cruvinel assumiu, havia 9.117 alunos matriculados; hoje, segundo ele, são cerca de 15 mil, entre graduação e pós-graduação. “Triplicamos o número de inscritos no vestibular em três anos”, celebra o reitor. “O goiano voltou a acreditar na UEG.”

A UEG é, por natureza, uma universidade de interior. Em cada canto do estado há histórias de superação que passam por suas salas. Segundo o reitor, 78% dos alunos vêm de famílias com renda de até três salários mínimos, o que reforça o caráter social da instituição. “É a universidade do filho do trabalhador”, resume.

Um exemplo é Porangatu, unidade que já teve o fechamento cogitado. “Investimos pesado lá. Contratamos 18 novos professores e equipamos laboratórios”, diz Cruvinel. “O fantasma do fechamento ficou no passado.”

A evasão de alunos ainda preocupa, herança direta da pandemia. Hoje, a UEG tem taxa de ocupação de 72%, acima da média nacional, que gira em torno de 60%. “A pandemia devastou o ensino superior público. Muitos alunos se tornaram o sustento da família. Agora, vemos o retorno de quem precisou interromper os estudos”, comenta o reitor.

Para driblar esse desafio, a universidade criou o programa “Minha Vaga”, que permite o preenchimento de vagas ociosas por ex-alunos ou diplomados que querem retomar os estudos. Além disso, mantém mais de mil bolsas de permanência, de R$ 700 mensais, voltadas a estudantes em vulnerabilidade social.

Os cursos mais disputados — Direito, Biomedicina, Enfermagem, Medicina Veterinária e Engenharia Civil — continuam entre os mais procurados e vêm apresentando desempenho crescente nas avaliações externas. “A reorganização está dando resultado”, garante o reitor.

Na pós-graduação, o salto também é visível. Nos últimos anos, a UEG abriu quatro novos programas de mestrado e doutorado, investiu R$ 50 milhões em pesquisa e manteve vivo o espírito universitário com eventos como os Jogos Universitários, únicos do tipo em Goiás. “É a universidade viva, pulsante, que forma, pesquisa e transforma”, resume Cruvinel.

O plano agora é consolidar um projeto institucional de longo prazo, com foco em pesquisa, extensão e ampliação do quadro docente. “Queremos crescer com os pés no chão e o olhar no futuro”, afirma o reitor, em tom quase professoral.

Mas o grande desafio continua sendo político: garantir que a UEG sobreviva aos governos e não dependa da boa vontade de quem está no Palácio das Esmeraldas. Uma universidade pública que chega ao interior e acolhe o filho do trabalhador não pode ser um projeto de ocasião. É um compromisso de Estado e Goiás ainda precisa entender isso.

Professores cobram aplicação integral do plano de carreira na UEG

Às vésperas do Dia dos Professores, uma audiência pública na Assembleia Legislativa, promovida pelo deputado Antônio Gomide (PT), reacendeu o debate sobre o enquadramento dos docentes da UEG. A lei que criou o novo Plano de Carreira e Remuneração foi aprovada em junho de 2024, mas ainda não está totalmente implementada.

O reitor Antônio Cruvinel explicou que o decreto que regulamenta a progressão e promoção dos professores está “na reta final” de tramitação. “O decreto passou pela Secretaria de Administração, pela de Economia e agora está na Casa Civil. Assim que for publicado, poderemos enquadrar todos os docentes que ingressaram após o novo plano”, garantiu.

Segundo o presidente da Associação dos Docentes da UEG, Marcelo Moreira, cerca de 150 professores ainda não foram devidamente enquadrados. “Temos doutores sendo pagos como especialistas. Cada mês de atraso é economia feita às custas dos docentes”, criticou. A deputada Bia de Lima (PT) reforçou a cobrança: “O plano é uma conquista, mas precisa sair do papel”.

O novo plano organiza a carreira em quatro classes e 15 níveis, com salários que podem chegar a R$ 22 mil para professores titulares. A proposta, que integra o programa estadual Repensar Carreiras, é vista como essencial para valorizar o corpo docente e assegurar a permanência de talentos na universidade.

Cruvinel destaca que a demora não significa descaso, mas cautela. Segundo ele, a universidade buscou garantir que o texto final do decreto respeitasse todos os direitos previstos na lei e evitasse futuras distorções salariais. “Não queremos fazer algo apressado e depois prejudicar ninguém. O decreto foi revisado em cada detalhe para assegurar que todo docente seja enquadrado de forma justa, com base em mérito, titulação e tempo de serviço. É um passo grande e queremos que seja sólido”, afirmou.

Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

Pesquisa