Italo Wolff
Após fazer um primeiro mandato de contenção e reformas, marcado pela austeridade do Regime de Recuperação Fiscal, Ronaldo Caiado (PSD) compreendeu que deveria aproveitar o segundo turno no poder para deixar marcas de gestão. A expansão de gastos, os novos programas e obras — tudo isso se provou irresistível para enorme parte do Legislativo, que embarcou no apoio do Executivo. Afinal, os parlamentares não queriam ficar fora da foto enquanto o governo fazia entregas em suas bases, no interior.
Entretanto, nenhuma base política pode acomodar a todos. Na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego), do total de 41 deputados, 28 pertencem aos seis partidos da base (UB, PP, PSD, MDB, SD e PRD). Há ainda outros tantos apoiadores em outros partidos independentes. Como prometer cargos, prestígio e chance de participação no governo para todos?
O “problema” estoura agora, nas mãos de Daniel Vilela, do MDB (o termo “problema” está entre aspas porque, entre todas as dificuldades que um governante pode ter, o excesso de apoio é o mais agradável). Antigos apoiadores se viram sem espaço nas chapas do poder de turno; alguns compreenderam que nunca fizeram parte de um projeto político e entraram apenas como escada na negociação maior entre partidos. Nesse cenário, a oposição aproveitou a oportunidade para filiar os descontentes e os sobressalentes.
Ao fim da janela partidária, dois dos partidos mais beneficiados deste momento são os da federação Cidadania-PSDB. O Partido da Social Democracia Brasileira nos últimos anos passou por momentos de rebaixamento e abandono, mas ganha um novo gás com a filiação de Gugu Nader, Clécio Alves, Professor Alcides, Jeferson Rodrigues, Henrique Arantes, Ernesto Roller, Walter Vosgrau, Vilmar Mariano.
A federação fala agora em emplacar seis ou sete deputados estaduais. É uma meta atingível, considerando a possível reeleição de Gustavo Sebba e José Machado, que colocaria PSDB e Cidadania como detentores de uma das maiores bancadas da Alego. A plataforma será fundamental para Marconi Perillo convencer o eleitor de que haverá governabilidade em seu possível mandato.
É questionável se a falta de reciprocidade pelo apoio ao governo é cola suficientemente forte para manter unidas por muito tempo essas personalidades, que não compartilham ideologia ou projeto para além destas eleições. Gugu Nader, por exemplo, foi eleito pelo Agir, passou pelo Avante, pelo Mobiliza, e agora está no PSDB. O partido foi escolhido porque seu principal adversário, Dione Araújo, é do UB, e porque faltou espaço no governo. Gugu, entretanto, é reforço de peso e esteve em vias de ser recrutado pelo governismo.
De Lula da Silva se diz: “embaixo dele, não cresce nem grama”; da mesma forma, Marconi já foi acusado de “fazer sombra”, de não dividir espaço e dar oportunidades a jovens colaboradores.
Processo semelhante ocorreu com o presidente da Câmara Municipal de Goiânia, Romário Policarpo. Seu plano era ir para o Avante, presidido por Thialu Guiotti, onde seria apoiado por Daniel Vilela para deputado estadual; mas não há apoio suficiente para distribuir entre tantos candidatos. Policarpo acabou indo para o Cidadania, partido federado com o PSDB do adversário de Daniel Vilela; e Thialu agora põe seu apoio ao governador em dúvida.
Vale a pena analisar este caso, pois Policarpo traz para si, e indiretamente para Marconi, o apoio de sete a nove vereadores da capital, dos mais diversos partidos, incluindo membros da base governista estadual. Geverson Abel (Republicanos), Henrique Alves (MDB), Léo José (SD), Markim Goyá (PRD), Thialu Guiotti (Avante), Tião Peixoto (PSDB) e Ronilson Reis (SD) devem apoiá-lo; e talvez também Anselmo Pereira (MDB) e Denício Trindade (UB). Neste momento em que Marconi Perillo busca aumentar sua plataforma e conquistar apoios, a filiação de Romário Policarpo ao Cidadania foi um golaço.
O presidente da Câmara Municipal quatro vezes reeleito por unanimidade conquistou essa fidelidade ao usar o poder institucional, “valorizando” largamente os vereadores (leia-se: em seu período, implementou a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar, ou “Cotão”; aumentou expressivamente as emendas parlamentares; ampliou cargos e verbas de gabinete, entre outros). Por isso, diversos vereadores podem ser mais fieis ao projeto de Policarpo do que o de Vilela.
Marconi Perillo busca ainda se consolidar como principal representante da oposição, à frente de Wilder Morais (PL). Levantamento da Gerp divulgado na última terça-feira (14) mostra que o governador de Goiás, Daniel Vilela (MDB), é o favorito — em segundo lugar, vem Marconi Perillo, com 18% das intenções de voto, e Wilder Morais, com 15%. Marconi e Wilder estão tecnicamente empatados na margem de erro de 2,88 pontos percentuais.
Para minar o PL, um dos movimentos que o PSDB tentou realizar foi justamente a filiação de quadros dissidentes do Partido Liberal. Pode-se citar o deputado federal Professor Alcides. O vice-prefeito de Anápolis, Walter Vosgrau, não era do PL, mas vice de Márcio Corrêa, este sim do PL, e muito próximo de Daniel Vilela. Outros nomes do executivo filiados ao PSDB são Evandro Magal (ex-prefeito de Caldas Novas); Valmir Pedro (ex-prefeito de Uruaçu); Sônia Chaves (ex-prefeita de Novo Gama); e Vilmar Mariano (ex-prefeito de Aparecida de Goiânia).
É interessante notar como nos cenários sem Adriana Accorsi (PT) e/ou Luis Cesar Bueno (PT), Marconi ganha 5 pontos percentuais, enquanto Daniel e Wilder apenas 1, ambos. Apesar de ter sido oposição ao governo Lula (PT) quando liderava o PSDB nacionalmente, o tucano ainda circula melhor entre a esquerda do que seus concorrentes. Por muito tempo, se cogitou a possibilidade de uma aliança PT-PSDB em Goiás. A união não foi adiante, em parte porque a associação entre os mais rejeitados parecia uma falta de opção das duas siglas.
As filiações dos quatro ex-prefeitos que estão sem mandato, de Alcides Rodrigues (que responde a graves denúncias) e de figuras com importância histórica mas que chegaram a ser presas, como Ernesto Roller — o eleitor pode entender que tudo isso confirma a impressão de decadência. Desfazer essa noção e renovar o PSDB sempre foi o principal desafio de Marconi Perillo (ele mesmo um político histórico que acumula desgastes). A filiação de dissidentes do governo pode ser um primeiro passo, mas não será a salvação da lavoura.
Na realidade, a modernização que colocará o PSDB de volta no jogo de vez exige o cumprimento de duas tarefas. A primeira é o cultivo de novos líderes. De Lula da Silva se diz: “embaixo dele, não cresce nem grama”; da mesma forma, Marconi já foi acusado de “fazer sombra”, de não dividir espaço e dar oportunidades a jovens colaboradores. Nos últimos anos, a presença de Aava Santiago no partido foi promessa de renovação, mas Aava foi para o PSB e restou novamente a impressão de que o PSDB está mais associado ao passado do que ao futuro. Análise do discurso de Marconi Perillo reforça essa ideia — e é inescapável que o ex-governador use seus louros como plataforma, aludindo ao período de desenvolvimento que imprimiu em Goiás no início dos seus 16 anos no poder.
A outra tarefa necessária para a renovação do partido é a apresentação de um programa ideológico claro, de posicionamento político facilmente identificável pelo eleitor. No Brasil, todos os partidos são pragmáticos no exercício do poder, mas, ao menos durante as eleições, é preciso coerência. O PSDB foi acusado de extrema-direita durante o governo Dilma (PT); foi acusado de esquerda no governo Bolsonaro (PL); se aproximou do liberalismo e se assemelhou ao partido Novo; agora, apresenta o trabalhista antiliberal Ciro Gomes como possível pré-candidato à Presidência da República.
Em Goiás, enquanto Marconi Perillo se concentra na oposição ao governo, o trabalho de interpretar acontecimentos políticos é do Cidadania, presidido pelo pré-candidato a senador Iure de Castro Silva. Nas redes sociais, é Iure de Castro quem celebra a filiação de Ciro Gomes, critica Gustavo Gayer (PL), comenta as notícias envolvendo ministros do STF. Sendo o escândalo Master o principal acontecimento político do Brasil hoje e o principal balizador das eleições, é preciso que o presidente de um partido o comente, ou parecerá estar vivendo em 2002.
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