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Guerra Fria na LDO e paz no palanque marcam uma semana agitada para Bruno Peixoto

O presidente da Alego manifestou em Goiás o crescimento do Legislativo sobre o orçamento; suas relações com o governismo podem ser recompensadas com uma candidatura a vice


Por Ítalo Wolff em 17/05/2026 - 14:13

Bruno Peixoto teve semana agitada (Foto: Divulgação)

O presidente da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) teve uma semana cheia. Bruno Peixoto fez 52 anos na quarta-feira (13) e celebrou com grandes shows abertos ao público, com entrada gratuita, na Arena Multiplace. Em ano eleitoral, o aniversário teve cobertura da TV Alego e atrações nacionais. Além de artistas, o ato público reuniu autoridades como o governador Daniel Vilela (MDB), o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, a ex-primeira-dama Gracinha Caiado (UB) e outros.

De certa forma, o evento é uma metonímia: podemos tomar a acomodação dos diversos conflitos que marcaram a semana da Alego diante da festa opulenta como uma recapitulação da carreira de Bruno Peixoto. A história recente do presidente da Alego também é marcada pelo personalismo, e pelo tensionamento com o grupo a que pertence e o distensionamento diante da aprovação popular. Afinal, nas redes sociais, leem-se apenas elogios à celebração, e ficaram apaziguados os atritos que marcaram a semana do Legislativo. 

Um dia antes de seu aniversário, Bruno Peixoto havia afirmado que a Alego discutiria alterações no projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) enviado pelo governo estadual. Segundo o deputado estadual, o Executivo exigia anuência para movimentações internas de recursos dos demais Poderes, o que seria uma violação do princípio da independência. Entretanto, o governador demonstrou que os dispositivos questionados pelo presidente da Casa são idênticos aos que foram aprovados no ano passado (art. 26 § 2, art. 85 e art. 60 §2). “Quem informou que houve mudanças na LDO para Bruno informou de forma equivocada”, disse Daniel Vilela em entrevista coletiva. 

Os trechos se referem à execução e despacho dos gastos pela Secretaria de Economia do Estado, e não significam ingerência sobre outros poderes. A restrição de gastos (no art. 27) diz respeito ao cumprimento das leis de Responsabilidade Fiscal, das normas do Propag (programa federal de renegociação de dívidas), entre outros. O que o Legislativo goiano tentou fazer, na realidade, foi o mesmo que os legislativos de outros estados e da União têm feito já há alguns anos: avançar sobre o orçamento.

O processo se iniciou com a gestão de Arthur Lira (PP-AL) na Câmara dos Deputados, quando as emendas foram ampliadas para 2,5% do orçamento. Em todo o Brasil, o espírito do tempo é este: o esvaziamento das atribuições de supervisão fiscal do Executivo e a tomada de liberdades por parte do Legislativo e do Judiciário, que aumentam os próprios gastos. O que Bruno Peixoto busca de fato é poder para a Alego, com a inclusão do Legislativo como responsável pela execução e controle de gastos, em paridade com a Fazenda estadual e com a Controladoria-Geral do Estado (CGE), responsável pelo acompanhamento das normas estabelecidas na LDO.

Em resposta, o governador deve enviar ainda em maio um projeto de lei específico para definir o teto de gastos global do Estado para 2026. A proposta se antecipa à Lei Orçamentária Anual de 2027 e serviria para disciplinar gastos dos outros poderes e órgãos autônomos. O equilíbrio fiscal é área sensível para o governo, em especial após levantamento do Centro de Liderança Pública (CLP) ter colocado o estado em 23º lugar na área Economia do Ranking de Competitividade dos Estados. 

Neste contexto de conflito por ampliação de poderes, orçamento e autonomia, seria possível imaginar que a relação entre os líderes do Executivo e Legislativo estivesse estremecida. Mas a realidade não poderia ser mais diferente. O governador marcou presença no aniversário do presidente da Alego. Além disso, Bruno Peixoto é pré-candidato a deputado federal e cotado como possível pré-candidato a vice de Daniel Vilela em 2026 (posto que o alça à candidatura a governador em 2030, quando Daniel tiver cumprido dois mandatos). 

Outro atrito que restou solucionado, ao menos temporariamente, diz respeito ao apoio da federação UB-PP à candidatura presidencial de Ronaldo Caiado (PSD). Enquanto as siglas UB e PP fazem parte da base governista em Goiás, esta não é a realidade em todo o país. O UB tem três ministérios no governo Lula (Turismo, Comunicações e Integração Nacional). Bruno Peixoto faz parte da base de Caiado e terá o trabalho de harmonizar a contradição do cenário estadual com o federal. 

Na mesma quarta-feira, Bruno Peixoto foi oficializado como presidente estadual do UB em convenção realizada em Goiânia. Na ocasião, em que lideranças nacionais da sigla estavam reunidas, ele afirmou: “Vai ter uma discussão, vai ter uma prévia, mas ele [Caiado] vai ser lembrado também”. O presidente nacional do UB, Antônio Rueda, reconheceu o peso político do ex-governador de Goiás, mas evitou falar sobre apoio à candidatura. 

Bruno Peixoto e Ronaldo Caiado chegaram a ter conflitos há um ano, em maio de 2025, quando se cogitou a migração do deputado estadual para assumir a liderança do Avante, levando consigo outros deputados que faziam parte da base. A migração era motivada pelo desejo de ter “liberdade de escolha futura”, e podia implicar no apoio à candidatura de Wilder Morais, do PL, para governador. Porém, o diálogo fez com que continuassem no mesmo partido e que os projetos pessoais fossem colocados de lado. 

Ainda antes, em 2024, outros conflitos: Bruno Peixoto afirmou em entrevistas ser pré-candidato a prefeito de Goiânia, mas foi desautorizado pelo então presidente estadual do UB, Ronaldo Caiado. A relação de ambos parece ter sido sempre marcada pela ambição de um sendo restrita pelo forte domínio de outro. Bruno Peixoto tem disposição para voar solo, mas o grupo de Ronaldo Caiado centraliza as articulações de forma estratégica já há oito anos. 

No fim das contas, o presidente da Alego é indispensável para o governador: justamente por seu perfil “valorizador” do Legislativo (leia-se: de expansão de poderes e verbas parlamentares), Bruno Peixoto traz os deputados estaduais para a base. E a aliança com o governo bem aprovado é a principal plataforma para ele. Essa conformação também foi materializada na festa de aniversário, na qual Gracinha Caiado esteve presente. A eleição de Gracinha para o Senado é um dos principais projetos do UB sob Bruno Peixoto. 

Outro tensionamento na Alego que promete ter acomodação em breve: os deputados Amauri Ribeiro e Major Araújo (ambos PL) se ameaçaram de morte em plenário na última semana. Um acha que o partido deve ir com a base de Daniel Vilela, outro com Wilder Morais. Bruno Peixoto interveio junto ao Conselho de Ética contra os deputados e, se Flávio Bolsonaro derreter por conta de seus telefonemas com Daniel Vorcaro, fica mais tentador para o PL no estado seguir o grupo de Bruno Peixoto, Daniel Vilela e Ronaldo Caiado. 

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