A ONG Instituto Conhecer Brasil, que tem um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de wi-fi gratuito na periferia, apresentou ao menos R$ 16,5 milhões em notas fiscais irregulares na prestação de contas. O levantamento foi feito pelo g1 e entregue à gestão Ricardo Nunes (MDB).
A entidade é presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama, mesma dona da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. As duas empresas funcionam no mesmo endereço, na Avenida Paulista, região central da capital.
Entre as irregularidades identificadas estão notas fiscais canceladas, recibos sem valor fiscal e documentos emitidos pela própria ONG para justificar despesas milionárias. Em um dos casos, a entidade apresentou quatro faturas sem validade fiscal para comprovar despesas de R$ 8,5 milhões com locação de equipamentos eletrônicos.
Outro episódio envolve a empresa Complexsys Soluções Integradas Ltda., que emitiu nota fiscal de R$ 2 milhões para a ONG. O documento, no entanto, aparece como cancelado no sistema da prefeitura no mesmo dia em que foi emitido, em 6 de novembro de 2025. Mesmo assim, a nota foi incluída na prestação de contas apresentada à gestão municipal em fevereiro deste ano.
O contrato também é alvo de investigação por possíveis falhas no processo de contratação. O acordo previa a instalação de 5 mil pontos de wi-fi até junho de 2025. Até o momento, porém, apenas 3.200 foram entregues.
Irregularidades na ONG
A Polícia Civil de São Paulo já abriu inquérito para investigar a ONG por supostas irregularidades. O caso é investigado pela 2ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC). O Ministério Público também instaurou procedimento para apurar o caso.
O vereador Nabil Bonduki (PT) foi um dos que denunciaram o caso ao Ministério Público. Ele questiona a ausência de concorrência no chamamento público e aponta indícios de superfaturamento de mais de R$ 27 milhões no valor do contrato.
A reportagem também apurou que o Instituto Conhecer Brasil recebeu R$ 2 milhões em emendas parlamentares do deputado federal Mário Frias (PL), que é produtor-executivo e roteirista do filme “Dark Horse”. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de uma apuração preliminar para investigar supostas irregularidades na destinação dessas emendas.
Procurada, Karina Ferreira da Gama afirmou desconhecer o cancelamento de notas por fornecedores. Ela disse que as inconsistências apontadas estão sendo corrigidas nas novas prestações de contas.
A Prefeitura de São Paulo negou a existência de irregularidades no contrato. Em nota, a gestão Ricardo Nunes afirmou que a execução do contrato é monitorada rigorosamente e que não há relação entre o convênio e a produção do filme sobre o ex-presidente.
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