Fora de Goiás, a confirmação pelo PSD da candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência da República repercutiu mais do que todas na última semana. Embora outros pré-candidatos surjam como terceira via com maior intenção de votos a depender do instituto — Renan Santos (Missão) está em terceiro segundo Paraná Pesquisas, ou Romeu Zema segundo BTG/Nexus — Caiado foi aquele a que se destinou mais tempo de cobertura e análises na imprensa nacional. Em Goiás, vale a pena questionar por quê.
No estado, a aprovação ao governo de Ronaldo Caiado o tornou quase unanimidade: quatro entre cinco pessoas apoiam sua gestão, o que o coloca como o líder no ranking de aprovação dos gestores estaduais, segundo os dados da pesquisa AtlasIntel de dezembro de 2025. Portanto, para os goianos, pode haver certa distorção na percepção pública de seu projeto: pode-se pensar que sua política de segurança ou saúde repercute nacionalmente. Mas Goiás é um estado pequeno, em população e em influência político-cultural no eixo onde estão as empresas de comunicação.
Na realidade, sua candidatura é insuflada por uma demanda de determinadas instituições por uma alternativa a Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Essa não é uma demanda da maioria dos eleitores (pode vir a ser, no futuro, se o Master desgastar ainda mais a imagem desses personagens do status quo, por exemplo). A maior parte do eleitorado segue muito dividida entre PT e PL, como está desde 2018, sem clamor popular pela terceira via.
Tanto é assim que o próprio Caiado não se posicionou enquanto via de centro moderado, mas como segunda alternativa da direita, que polariza ainda mais acentuadamente com Lula. No dia do anúncio da candidatura, levantamento da Nexus mostrou que boa parte das 962 mil interações nas redes sociais (X, Facebook e Instagram) com o nome de Ronaldo Caiado se referiram à sua primeira promessa de campanha: anistiar Jair Bolsonaro e condenados pela tentativa de golpe do 8 de janeiro.
A quem toca essa promessa? Aos 15% de eleitores no núcleo do bolsonarismo; é uma espécie de cartão de visita, um convite para que esse segmento escute seus argumentos. O governador goiano tentou se mostrar mais experiente que Flávio, mais condecorado, com mais realizações em seu currículo, e com reputação mais ilibada. É uma estratégia incerta: os admiradores de Bolsonaro vão se identificar mais com Caiado do que com o próprio filho de Jair?
Acontece que Flávio é um candidato de risco: rachadinhas, milícias, golpismo. Com o aquecimento da campanha, o jornalismo pode encontrar novos esqueletos em seu armário e sua candidatura pode afundar. Caiado estaria se preparando, no aquecimento, pronto para substituí-lo perante seu eleitorado.
Espaço para crescer na fragilidade de Flávio Bolsonaro
Como consequência da entrada de Caiado enquanto candidato ainda mais à direita, Flávio Bolsonaro é empurrado para o centro. A diferença já se faz notar: o filho zero um de Jair votou a favor da proposta de lei que inclui a misoginia como um crime de preconceito previsto na Lei do Racismo numa tentativa de ampliar votos para o eleitorado feminino. Além disso, o senador se posicionou contra o impeachment de Alexandre de Moraes e prometeu que vai aumentar o Bolsa Família. Posturas de esquerda?
Concomitantemente, Flávio tentou manter sua base no evento conservador americano CPAC, onde discursou pedindo monitoramento e pressão diplomática por “eleições justas no Brasil”, além de afirmar que as terras raras brasileiras serão “muito úteis” para sustentar os Estados Unidos como superpotência. Postura de extrema direita? O fato é que Flávio não sabe, e, na tentativa de se posicionar ao centro, acaba por passar uma mensagem confusa para os eleitores.
A estratégia já tem dado errado: pesquisa Polymarket apontou queda de 6 pontos percentuais nesta semana (foi para 39,5%, sendo ultrapassado por Lula com 45%). Afinal, quem acredita em bolsonarismo moderado? O discurso moderado desagrada a seu público, que está mais próximo do conservadorismo de ponta que de meio do espectro.
É para esse público descontente que Ronaldo Caiado acena. Seus últimos discursos foram voltados a fustigar Flávio por meio do contraste: disse que seu desafio não é vencer a eleição, mas governar de forma que o PT não retorne — uma alusão ao fracasso de Jair na reeleição contra Lula.
Dificuldades à vista
O maior desafio de Ronaldo Caiado agora é tornar-se nacionalmente conhecido. Para isso, usará suas realizações em Goiás como exemplo do que poderia ser reproduzido no Brasil. O que pesa contra essa estratégia é o contexto de polarização entre dois atores, que propicia os ataques e o personalismo, ficando prejudicada a discussão de soluções para o Brasil. Com a grande rejeição dos dois principais candidatos, há forte punição para quem vacilar, o que premia a abstenção de debates e os pronunciamentos meticulosamente desenhados pelas equipes de marketing.
Em outras palavras, há grande chance de o eleitor chegar ao dia da votação sem ter dado ouvidos a Caiado, pois terá passado a campanha em meio a investidas contra o caráter dos concorrentes, promessas populistas e ameaças de cortes de direitos. O fenômeno já começou: na última semana, o PT divulgou nas redes sociais que, caso seja eleito, Flávio Bolsonaro vai acabar com o Pix para agradar aos americanos. Em meio a esses apelos emocionais que afetam o dia-a-dia do brasileiro, vai haver paciência e espaço para discutir o Brasil?
Outro complicador contextual é a distribuição das verbas para campanha. Enquanto se estima que o investimento necessário para fazer uma campanha presidencial competitiva seja de pelo menos R$ 100 milhões, o PSD tem outras prioridades, como Raquel Lyra em Pernambuco e Eduardo Paes no Rio de Janeiro. Há ainda a necessidade de fazer a maior bancada possível de deputados federais para garantir a distribuição do fundo partidário nos próximos pleitos. Caiado pode não receber o que espera se não chegar logo aos dois dígitos de intenção de votos.
Essa necessidade de crescer rápido, aliás, é o que justifica a pressa de Ronaldo Caiado por se distinguir do bolsonarismo e não ficar caracterizado como linha auxiliar de Flávio. Logo em seu primeiro discurso, o governador goiano destacou sua defesa da ciência — fator que levou ao seu rompimento com Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19 em 2020. Infelizmente para Caiado, a distinção seria mais efetiva se Flávio participasse dela, mas o senador bolsonarista tem todos os incentivos para jogar parado e evitar desgastes.
Por que não Leite?
Quando se diz que uma candidatura alternativa a Lula e Bolsonaro é demandada por instituições, está se falando também dos partidos políticos. O modelo Gilberto Kassab (presidente do PSD) de fazer política é chave para entender por que Caiado se comporta como se comporta, e por que organizações dedicam tempo e espaço para uma candidatura que, com 4% de intenções (Quaest), parece superestimada.
O PSD está distribuído em acordos fisiológicos com o poder em todos os estados. Gilberto Kassab preteriu Eduardo Leite porque este é um político mais à esquerda do que Caiado, e tê-lo como candidato em 2026 significaria impedir os membros do PSD de esquerda de negociarem apoio a Lula; além de embaraçar alguns de seus principais representantes, como o líder do partido na Câmara, Antônio Brito, que são de centro-direita, a apoiar uma candidatura avessa à sua postura parlamentar.
Caiado desobriga o PSD de esquerda, que fica livre para apoiar Lula. Além disso, unifica o PSD de direita sob uma candidatura mais segura que a de Flávio, e permite que o partido siga com seu modelo de apoio aos incumbentes regionais. Isso não significa que a candidatura de Caiado é mero pretexto — Caiado pode ganhar tração de fato, em especial porque encontra boa vontade da imprensa com novos atores neste contexto de desgaste generalizado. O caso Master, novamente, atinge esquerda e direita, deteriorando STF e governo, Lula e Ciro Nogueira (aliado de Bolsonaro), e não gruda em Caiado.















