A menos de três semanas da eleição, a disputa pelo governo de Goiás ainda tem uma parcela expressiva do eleitorado distante do processo. Em entrevista à Tribuna do Planalto, o diretor da Grupom Consultoria Empresarial, Mário Rodrigues Neto, analisa o comportamento do eleitor, os limites das pesquisas e os fatores que podem alterar a fotografia eleitoral na reta final. Para ele, o aumento da recusa em participar das pesquisas abre uma questão ainda sem resposta: quem são e como vão votar esses eleitores que permanecem silenciosos?
Como o senhor analisa as campanhas dos candidatos ao governo de Goiás?
De maneira geral, a percepção é que as campanhas começaram muito tarde, exceto pelo movimento do próprio Daniel Vilela, todos os outros candidatos deixaram para ir a campo muito tarde. E isso gera um problema para eles mesmos, porque existe um problema de narrativa, fazer com que o eleitor se convença de que voto ele tem que dar, em um espaço de tempo muito curto. Hoje, especificamente hoje, nós estamos a 18 dias da eleição. E quando você olha para os resultados das pesquisas que foram divulgadas, em alguns estudos, nós temos pelo menos 50% dos eleitores no voto espontâneo para governador que não sabem quem são os nomes, não conseguem indicar um nome. Isso é um indicador importante do distanciamento da população em relação ao processo eleitoral, e que eles vão ter que tomar uma decisão de última hora.
Esse quadro beneficia quem?
Isso beneficia quem já está com cargo. Quem tem mandato já tem um nível de exposição maior, tem um processo de comunicação maior com a população, e, no limite, se a pessoa não tiver cometido nenhum tipo de deslize no meio do processo, vai ser o mais lembrado. A população vai tender a seguir com quem já tem cargo.
Exceto Luis Cesar Bueno, que teve a candidatura definida mais tardiamente, os outros candidatos, Marconi Perillo, Wilder Morais, já estavam definidos. Por que eles atrasaram tanto o início da campanha?
Eu tenho uma hipótese, que muito do trabalho foi deixado para ser começado a partir do momento que tivessem acesso ao fundo eleitoral. Mas isso é só uma especulação da minha parte. Porque, do ponto de vista prático e de construção de processo de campanha, eles precisariam ter começado antes.
Em tese, Wilder Morais, do PL, teria muito recurso para campanha. O PL foi o partido que mais recebeu recursos do fundo eleitoral. Pode não ter chegado a Goiás?
Aparentemente, esses recursos podem estar chegando, mas a aplicação destes não se torna evidente nas ruas. Como empresa de pesquisa, eu observo muito mais o comportamento e a percepção do eleitor. O que acontece? Esse movimento de campanha, esse resultado de um maior investimento em mídia, em material de campanha, em bandeiras, em cabos eleitorais só começou a aparecer depois do dia 9, 10 de setembro. Isso foi muito tardio. Se esse volume de recursos que o PL tem chegou na mão dos candidatos aqui de Goiás, ele ainda não está se fazendo notar pela população, apesar de a gente já perceber um aumento de material na rua e no meio digital.
A mudança no modelo de campanha, que proibiu diversos formatos de comunicação, pode ter alguma implicação nessa baixa percepção ou definição dos eleitores?
Eu acredito que sim, porque temos algumas questões importantes. Primeiro, a campanha em si está se tornando, a cada eleição, mais curta. A gente saiu de campanhas de três meses para campanhas de 45 dias. O tempo de exposição que isso está na mídia, que a discussão política vem à tona do ponto de vista de eleição, tem sido reduzido no tempo.
O formato da eleição, o processo de comunicação, aquilo que é permitido acontecer, também impacta no comportamento do eleitor, porque é mais difícil ao eleitor perceber que ele está no momento eleitoral. O pessoal que é da área de política, que está envolvido, eu chamo de a bolha da eleição, são pessoas que estão imbuídas de todo o movimento e acham que a coisa está muito quente. Mas quando você conversa diretamente com o eleitor, com as nossas pesquisas, nós descobrimos que eles estão completamente alheios. Existem eleitores que mal sabem dizer quem é o governador de Goiás hoje, quanto mais que ele está indo à reeleição. Na minha percepção, essa mudança do processo de comunicação na eleição, essa restrição dos canais, dos meios de fazer parecer que existe uma campanha acontecendo, tem contribuído, sim, com o distanciamento e uma certa apatia do eleitor.
O senhor afirma que a eleição pode estar mais indefinida do que as pesquisas sugerem. O que exatamente os números podem estar deixando de enxergar?
Existe uma dificuldade, não é só de agora, mas existe uma ampliação dessa dificuldade nesta eleição. Toda e qualquer pesquisa de opinião, o entrevistado não é obrigado a responder a pesquisa. Quando o entrevistado, independente do meio, se a pesquisa está sendo feita pela internet, por telefone ou presencialmente, quando esse entrevistado, a pessoa que vai responder a pesquisa, é contatada, ela pode escolher responder à pesquisa ou não. O que a gente tem percebido é que a quantidade de pessoas que se negam a participar de uma pesquisa de opinião, neste ano, está muito maior do que a gente observou em anos anteriores. A questão da indefinição do quadro eleitoral parte da seguinte hipótese: será que nós temos uma quantidade significativa de eleitores que pertencem a estratos específicos, que nós não conseguimos ouvir a opinião deles? Se isso é verdade, eu posso ter um movimento que as pesquisas não conseguem captar. Qual é o tamanho disso? Não sei, porque a gente não tem informação de quem não responde. A gente só tem informação de quem se predispõe a responder à pesquisa.
Isso é uma coisa excepcional ou é uma tendência que está se consolidando?
Essa situação de recusa em relação à participação da pesquisa, em relação à participação do processo eleitoral, começou de forma mais forte na eleição de 2022 e tem se consolidado como uma regra. Existem públicos que têm demonstrado o comportamento de evitar dar a sua opinião em pesquisa. Por exemplo, nós temos uma dificuldade muito grande de espontaneamente trazer as mulheres para uma discussão política. Eu tenho que fazer um esforço muito grande para que as mulheres respondam às pesquisas. A amostragem está correta, só que, como tem muitas negativas de mulheres para participar da pesquisa, eu posso não estar entendendo tudo que as mulheres estão pensando. Não é um raciocínio muito fácil, e ele não gera uma dúvida em relação às pesquisas em si, mas ele pode abrir uma janela para explicar o que pode acontecer em termos de surpresa na eleição.
Como pretendem votar os eleitores cuja opinião nunca foi captada? Há alguma maneira científica de estimar esse comportamento? Como que eles podem vir a votar, sendo que na pesquisa eles não aparecem?
De forma científica e a priori, nós não temos uma forma de fazer isso. O que vai acontecer é observar a diferença entre o resultado das pesquisas ou da tendência mostrada pelas pesquisas de opinião e o resultado da eleição. Se essa diferença for significativa, havia alguma coisa que as pesquisas não conseguiram captar. Se ela não for significativa, quer dizer que aquelas pessoas que não foram capturadas, não conseguiram se expressar através da pesquisa de opinião, no momento final, ou seja, na véspera da eleição, decidiram acompanhar a maioria.
Mas se a diferença for significativa, a interpretação que se faz é que a pesquisa errou, e não que ela não conseguiu captar em razão de uma recusa de participação.
Essa é uma pergunta que traz um viés que é o seguinte: o que seria uma pesquisa que acerta? Se a gente imaginar que a pesquisa que acerta, isso é muito de comunicação e marketing de empresa de pesquisa, que a pesquisa que acerta, aquele instituto, aquela empresa que é boa, é aquela que acerta o resultado da eleição, você tem uma maneira de fazer a interpretação. Só que, no caso, quando você tem uma população que é reticente em participar do processo da pesquisa de opinião, a pesquisa que acerta é aquela que melhor reflete a realidade daquele grupo. Não faz muito sentido a gente discutir sobre pesquisas que acertam ou que erram. Até faria sentido se a gente observar numa outra condição que tem muito mais a ver com a característica das pesquisas que são registradas do que, de fato, com o resultado da eleição. Se a gente chegar no dia da eleição e o resultado das urnas não for exatamente aquele previsto pelas pesquisas, a gente tem que olhar isso como ciência. Se as pesquisas foram, de fato, bem feitas, bem elaboradas e elas não conseguiram captar isso, quer dizer que alguma coisa no método não foi suficiente para capturar a totalidade da complexidade da população.
Essa recusa de participar da eleição pode significar também a recusa de participar do processo eleitoral?
Normalmente, está ligado. E a gente não sabe, a priori, se esse resultado vai impactar. Nós vamos descobrir isso pela evolução das abstenções na eleição. Se percebermos que a abstenção aumentou ou segue uma tendência de crescimento, a gente vai ter, de fato, um indicador de que a negação em relação à participação nas pesquisas de opinião, também tem relação com a participação no pleito. O professor Felipe Nunes fala que no Brasil a gente não tem voto obrigatório porque o custo de não votar é muito baixo. Mas a gente só consegue verificar isso, de fato, se, e somente se, a gente perceber um aumento significativo na abstenção no processo eleitoral.
A que a gente pode atribuir essa recusa? À desconfiança com pesquisa, à desconfiança com as instituições, partidos ou com o próprio processo eleitoral?
Essa seria uma pergunta que depende de diversas frentes de resposta. Primeiro, houve um movimento em 2022 de desqualificação das pesquisas, pessoas que diziam que as pesquisas são falsas, que as pesquisas são manipuladas, e isso aumentou a desconfiança que as pessoas têm em relação às pesquisas propriamente ditas. O movimento geral da política nacional, da maneira como as coisas são construídas, tem levado a população a sempre se perguntar: “Mas qual é o valor do meu voto, se, independente de quem eu estou votando, está todo mundo enrolado com algum processo de corrupção ou alguma coisa dessa forma?” Aumenta a apatia, ou seja, esse volume de escândalos que acontecem na política nacional afasta o eleitor, o interesse da população em participar do processo eleitoral. E esse afastamento do processo eleitoral também implica no afastamento em responder às pesquisas de opinião. E, por fim, a própria característica do conjunto de eleições presidenciais, a partir de 22 e agora em 26, quando temos uma campanha curta e dois grandes candidatos que se revezam entre primeiro e segundo lugar, dependendo do estudo, mas que, de fato, não conseguem encantar a população como um todo. Eles sempre estão conversando com os seus eleitores. Aquele que está indeciso, que está procurando escolher o candidato, ele tem uma dificuldade de refletir de forma mais racional sobre em quem ele vai votar. Como aumenta a confusão, tem aumentado a apatia e diminui a participação popular.
Há mais eleitores silenciosos ou mais eleitores indecisos?
Essa é uma pergunta que a gente não tem dados de pesquisa para responder. Infelizmente, eu adoraria ter esse número na mão, mas isso não é algo simples de se ter. Estima-se que a quantidade de eleitores silenciosos seja uma parcela significativa da população, mas a dimensão disso é imponderável. A gente não consegue determinar, eu não consigo estimar isso, a gente não tem uma estimativa relacionada a isso que seja minimamente confiável.
Já houve experiências anteriores em que a taxa de recusa tenha produzido distorções relevantes no resultado da pesquisa relacionada ao resultado da eleição?
Essa é uma situação que, para o Brasil, é algo novo. A gente está vivendo uma condição que é nova do ponto de vista de evento e mudança do comportamento do eleitor. Nós não temos ainda história que nos conte como é que isso funcionou em outros momentos. Quando a gente olha para o passado, estamos falando de um processo eleitoral maior, com um modelo de comunicação diferente e principalmente com uma certa homogeneização do processo informacional do eleitor. Hoje, isso está muito mais fluido. E é exatamente por isso que a gente não consegue saber, não consegue dimensionar o que é que está acontecendo em relação àqueles que decidem não participar do processo.
Em relação à disputa ao governo de Goiás. O eleitor já está com a sua decisão consolidada aqui ou ainda existe um espaço significativo para a mudança?
Se a gente observa o resultado das pesquisas que foram divulgadas, espontaneamente, nós temos que só a metade da população já tem uma definição. Quando a gente olha para o resultado dos dados estimulados, isso implica que esse eleitor tomou uma decisão no momento da pesquisa com a informação que ele tinha na cabeça e os números que ele tinha no disco para poder escolher. Todos esses eleitores que não estavam definidos a priori em relação ao seu voto, têm uma possibilidade, sim, de mudança. É uma possibilidade que ela é maior ou menor, dependendo da situação, mas não é um voto certo, não é um voto fixo, não é o camarada que vai votar com certeza em quem ele indicou naquele momento.
E quais seriam as variáveis que poderiam alterar essa fotografia eleitoral feita pelas pesquisas?
Nós temos duas coisas que são importantes. Campanha, ou seja, se tem uma campanha que consegue fazer uma conexão com os eleitores melhor do que os concorrentes, isso pode mudar a fotografia eleitoral,o que seria um exercício de construção dessa comunicação com o eleitor agora nessa fase final, o que eu particularmente acho complexo, dado o curto tempo que a gente tem para o pleito. E uma outra situação que pode mudar o quadro seria o famoso fato novo, o imponderável. Aquela coisa que ninguém está esperando e acontece, como aconteceu, por exemplo, a história da facada, a história da Zambelli.
No momento, correm as campanhas regionais e a campanha nacional. Até que ponto as campanhas nacionais podem ter algum reflexo aqui na campanha estadual?
A grande expectativa, tanto de Wilder quanto de Luis Cesar Bueno, é que a polarização nacional repercuta dentro do cenário estadual. Essa é a expectativa e a grande esperança dos dois candidatos. Se isso vai acontecer ou não, é algo que, dentro da realidade de Goiás, não é exatamente verificado. O eleitor goiano consegue desassociar, sem grandes dificuldades, a figura do voto para o governador da figura do voto para o presidente. Tem dados de pesquisa de pessoas que indicam que votaram no Caiado, quando ele se candidatou no segundo mandato, e também eram eleitores do Lula. Isso não é uma questão. Quanto maior essa polarização acontecer, quanto maior for o engajamento da eleição nacional, isso sim pode impactar o dado estadual, mas isso talvez não seja suficiente para gerar uma mudança tão significativa assim.
Em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio, a influência do quadro nacional tende a ser maior em um eventual segundo turno em Goiás?
Sim, mas depende de quem forem os candidatos em Goiás que forem para o segundo turno. Vamos supor o seguinte: vai Daniel e Marconi. Como nenhum dos dois tem alinhamento com o cenário nacional, pode ser que o impacto seja menor. Daniel e Wilder, como Wilder está alinhado com o cenário nacional, ele vai ter um volume, uma discussão, um engajamento maior, dada essa situação. Um cenário com Luis Cesar Bueno e o Wilder, tem-se uma replicação do cenário nacional. A gente tem que discutir as probabilidades dos cenários. O que é mais provável de acontecer e como é que esse eleitor vai se comportar.
Em relação à disputa para o Senado, o eleitor consegue separar claramente as duas disputas, para governador e para Senado, ou isso para ele ainda é difícil de compreender?
Historicamente, o voto para o Senado é um voto de escolha tardia. Isso já dificulta o processo. Os senadores, de uma maneira geral, não estão tão presentes no cotidiano do eleitor, no cotidiano da população, a ponto de eles se tornarem conhecidos ou relevantes. Grosso modo, a pessoa não tem ideia de quem são os senadores e o que eles fazem. Quando a gente olha para essa situação, a campanha para o Senado é uma campanha muito mais difícil, porque os candidatos ao Senado precisam ter uma vinculação razoável com os candidatos ao governo, de forma a aproveitar o esforço e a energia que está acontecendo na campanha destes. Existe sim a confusão, e ainda mais quando existe um desconhecimento muito grande das pessoas em relação ao processo eleitoral como um todo. Tem gente que não sabe quem são os candidatos ao governo do Estado. O que dirá ao Senado?
Quando a eleição começa a se cristalizar efetivamente e as pessoas começam a definir o voto?
A gente sabe que a última semana é fundamental. E é interessante porque na última semana as pessoas tendem, elas começam a consolidar o seu voto e elas tendem a não querer responder aquilo que estão pensando. Isso é um dado.
Qual o maior erro que jornalistas, candidatos e eleitores cometem ao interpretar uma pesquisa eleitoral?
O maior erro é acreditarem que aqueles percentuais representam a realidade, quando, na verdade, eles carregam em si um percentual calculado de incerteza e, normalmente, essa incerteza não é levada em consideração nas análises. Por exemplo, quando se fala hoje quem está na frente, Lula ou Flávio Bolsonaro, do ponto de vista técnico da estatística, considerando os percentuais tais quais estão sendo mostrados, não se pode dizer quem está na frente, porque os dois podem, eles entraram dentro de uma área que não tem como saber exatamente quem está na frente. Essa situação, na qual as pessoas acreditam que o percentual da pesquisa é exatamente o retrato da realidade, que é muito derivado de uma falta de conhecimento, tanto de probabilidade quanto de estatística, é que leva você a fazer algumas análises e algumas interpretações equivocadas.
Há muitas pesquisas com resultados divergentes. Como que o eleitor deve interpretar essa divergência?
Pensando em leigos, a única sugestão que eu daria é que seja cético. Ele não deve analisar a pesquisa em que seu candidato aparece melhor e acreditar que essa é a verdadeira, porque o candidato dele está na frente. Tem que olhar para o conjunto dos estudos e tentar entender qual é a tendência e qual é o movimento que o conjunto dos estudos publicados estão revelando. Ele não pode se apegar a um único estudo, a uma única empresa, a um único movimento, e sim tentar entender a tendência, para onde estão indo esses números. E aí entra a importância dos jornalistas de fazer essa tradução, de fazer essa avaliação da tendência e não discutir de forma individual cada estudo como se ele fosse único e desassociado à realidade.
O que uma pesquisa consegue dizer com segurança e o que ela não consegue dizer?
Uma pesquisa quantitativa conseguem dizer com certeza qual é a tendência que um determinado candidato ou uma determinada campanha tem seguido. Tem que se observar a evolução do candidato ao longo de diversas pesquisas. O que ela não diz? O porquê de aquele candidato estar naquele lugar e nem a posição exata e inequívoca do candidato em relação à competição. Nenhuma pesquisa consegue afirmar isso com 100% de certeza.










