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A estratégia de Marconi para voltar ao Palácio das Esmeraldas

Após quatro mandatos, ex-governador percorre o interior, reivindica programas, compara governos e enfrenta fissuras na tentativa de voltar ao Palácio das Esmeraldas


Domingos Ketelbey Por Domingos Ketelbey em 26/07/2026 - 11:00

O ex-governador Marconi Perillo atravessa Goiás olhando para trás. Em cada passagem pelo interior, aponta uma obra, cita um programa, recorda uma indústria ou pergunta o que mudou desde que deixou o Palácio das Esmeraldas. Em pouco mais de dois meses, percorreu 151 dos 246 municípios goianos. Não viaja apenas para apresentar o que pretende fazer, mas também para lembrar o que afirma já ter feito.

A estratégia se apoia numa palavra repetida na pré-campanha: comparação. Marconi quer que o eleitor coloque lado a lado seus quatro governos e o ciclo iniciado por Ronaldo Caiado, agora continuado por Daniel Vilela. O ataque raramente começa pelo adversário. Parte de um hospital, de uma escola, de uma unidade do Vapt Vupt, de uma estrada ou de algum programa criado durante suas administrações. 

“Na hora da comparação, o povo sabe separar promessa de resultado. Quem já fez, sabe fazer”, afirmou durante passagem por Uruaçu. A frase resume o argumento central da candidatura. Depois de quatro mandatos, Marconi não pode se apresentar como novidade. Tenta converter experiência em contraste e memória administrativa em plataforma eleitoral.

Em 1998, a operação era inversa. Aos 35 anos, Marconi derrotou Iris Rezende apresentando-se como o rosto de uma nova geração. O “Tempo Novo” organizava o personagem: o deputado jovem que enfrentava o político mais poderoso de Goiás e prometia romper com a ordem estabelecida.

A vitória abriu um ciclo de duas décadas. Marconi governou entre 1999 e 2006, retornou em 2011 e permaneceu no Palácio das Esmeraldas até abril de 2018. No intervalo, foi senador. Ao redor dele formou-se uma estrutura de prefeitos, deputados, secretários e sucessores. O marconismo passou a organizar parte da política goiana.

É esse período que o ex-governador procura recolocar no debate. Nas viagens, reivindica programas como Vapt Vupt, Bolsa Universitária, Renda Cidadã e Banco do Povo. Recorda a criação da Universidade Estadual de Goiás, hospitais, rodovias, escolas e a instalação de empresas no interior.

A mensagem não é apenas que governou. É que parte do Estado atual ainda funcionaria sobre estruturas erguidas durante suas administrações.

Quando um programa continua bem avaliado, Marconi reivindica a autoria. Quando o serviço apresenta falhas, acusa os sucessores de terem enfraquecido aquilo que receberam. A UEG, o Ipasgo e a regulação da saúde aparecem como áreas que, segundo ele, perderam qualidade.

Em vez de atacar frontalmente Caiado, concentra as críticas em setores específicos. Fala em piora na saúde, perda salarial de servidores, dificuldades na educação e redução dos investimentos. O método permite atingir o grupo caiadista sem ignorar a aprovação do ex-governador e mirar Daniel, responsável por defender a continuidade.

Há um risco nessa escolha. Quanto mais Marconi convida o eleitor a rever suas administrações, mais abre espaço para que também sejam revisitados os problemas. Quatro mandatos oferecem um arquivo amplo de obras e programas, mas também de crises, denúncias, desgaste político e decisões contestadas.

O passado recente impõe outros limites. Em 2018, Marconi deixou o governo para disputar o Senado e terminou fora das duas vagas. Em 2022, tentou novamente e foi derrotado por Wilder Morais. Entre uma eleição e outra, viu antigos aliados migrarem para Caiado, o PSDB perder prefeitos e o grupo que comandou o Estado passar à oposição. As duas derrotas seguidas e uma operação em meio à eleição de 2018 trouxeram desgastes quase que incontornáveis ao ex-governador.

As viagens cumprem uma segunda função e tentam contornar todas as crises. Além de reivindicar obras, Marconi reencontra antigos aliados, testa resistências e tenta recuperar redes dispersadas depois de 2018. Cada reunião funciona como ato de pré-campanha e inventário do que restou do marconismo em cada região. A reconstrução, porém, encontrou fissuras.

O estrategista Marcelo Vitorino deixou o projeto tucano após participar da formulação inicial da pré-campanha. Em ato contínuo, assumiu a comunicação do senador Wilder Morais, adversário que disputa com Marconi uma parcela importante do eleitorado de oposição.

Vitorino participou das discussões sobre posicionamento, discurso e vulnerabilidades da candidatura tucana. Agora, leva essa experiência para um concorrente que já derrotou Marconi nas urnas e tenta se consolidar no campo conservador.

O episódio não desmonta a candidatura, mas expõe uma dificuldade. Enquanto Marconi tenta recuperar aliados e reconstruir capilaridade, precisa reorganizar a comunicação e assistir a um adversário incorporar uma peça que conhecia o desenho de sua campanha.

A disputa com Wilder também impede que o tucano concentre todos os ataques em Daniel. Para chegar ao segundo turno, Marconi precisa enfrentar a estrutura do Palácio das Esmeraldas e impedir que o senador ocupe sozinho o espaço de oposição.

A recomposição passa ainda pelo PSDB. Em Goiás, Marconi abriu as portas para novas filiações e buscou nomes capazes de oferecer voto, estrutura ou simbolismo. A chegada de Flávia Teles, viúva de Maguito Vilela, foi escolhida para demonstrar que o projeto pretende ultrapassar as fronteiras tradicionais do tucanato.

A filiação produziu repercussão, mas não alterou a vantagem estrutural de Daniel, que reúne a máquina estadual, a maior parte dos prefeitos e uma aliança partidária.

Marconi tenta compensar a desvantagem com presença física, memória eleitoral e discurso de experiência. Ao ser questionado sobre a idade e a longa permanência na vida pública, respondeu: “Eu não envelheci, amadureci”.

O tempo, que em 1998 servia para distingui-lo de Iris Rezende, agora precisa ser apresentado como acúmulo, não como desgaste.

A pré-campanha começou a acrescentar propostas novas ao inventário. Marconi passou a falar em inteligência artificial, tratamento de resíduos, mobilidade na Região Metropolitana e manutenção dos incentivos fiscais. Até aqui, porém, essas ideias ocupam menos espaço do que o resgate das antigas gestões.

Esse desequilíbrio revela sua principal dificuldade. Marconi possui realizações suficientes para organizar um discurso, mas ainda precisa apresentar uma razão contemporânea para governar pela quinta vez. A lembrança pode reativar vínculos com parte do eleitorado, mas não substitui um projeto para um Estado diferente daquele que encontrou em 1998.

Goiás cresceu, urbanizou-se e produziu uma nova geração de eleitores. Parte deles não viveu os primeiros governos tucanos. Outros acompanharam apenas o desgaste final do grupo. Marconi precisa falar com os que sentem saudade de suas administrações sem limitar a candidatura a uma tentativa de restauração.

Em 1998, pediu aos goianos que deixassem o passado para trás. Em 2026, percorre o Estado pedindo que se lembrem dele, mesmo diante de inúmeros desgastes e fissuras. O político que chegou ao poder como futuro agora disputa o significado da própria história.

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