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Abril Vermelho e Memória Rosa: Massacre de Eldorado dos Carajás completa 30 anos e expõe permanência da violência no campo


Por Fábio Prado, estagiário de jornalismo em 18/04/2026 - 09:24

Abril Vermelho e Memória Rosa Massacre de Eldorado dos Carajás completa 30 anos e expõe permanência da violência no campo
(Foto: Reprodução)

Trinta anos após o Massacre de Eldorado dos Carajás, o Brasil volta a olhar para um dos episódios mais brutais da violência no campo. Em 17 de abril de 1996, 21 trabalhadores rurais sem-terra foram mortos pela Polícia Militar do Pará durante a desobstrução de um trecho da rodovia PA-150, no sudeste do estado. O grupo integrava uma mobilização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que pressionava pela desapropriação de uma terra considerada improdutiva, uma demanda prevista na própria Constituição brasileira. 

A dimensão da violência marcou o episódio como um divisor na história recente do país. Perícias e investigações apontaram execuções a queima-roupa e o uso de instrumentos cortantes contra trabalhadores já rendidos, tornando o massacre um símbolo da atuação violenta em conflitos fundiários. 

Desde então, o 17 de abril passou a ser reconhecido como o Dia Internacional da Luta Camponesa, e o chamado “Abril Vermelho” reúne, todos os anos, mobilizações em defesa da reforma agrária e da justiça no campo.

Três décadas depois, a memória do massacre não se limita ao passado. Ela continua a atravessar o presente brasileiro, sobretudo no campo. A Constituição de 1988 estabelece que a propriedade deve cumprir função social e prevê a reforma agrária como instrumento de redução das desigualdades. Ainda assim, o acesso à terra segue concentrado e os conflitos permanecem como parte estrutural do território nacional. Nos últimos anos, o país tem registrado milhares de disputas no campo, envolvendo terra, água e recursos naturais, além de assassinatos recorrentes ligados a essas mesmas tensões.

Esse cenário se intensifica com a expansão de atividades econômicas sobre áreas rurais. No Cerrado, por exemplo, a combinação entre produção agropecuária em larga escala e interesse sobre recursos naturais amplia a pressão sobre territórios e populações. Em Goiás, essa dinâmica se insere em uma estrutura histórica de concentração fundiária e forte influência política de grupos ligados à terra, o que mantém o tema agrário como um dos pontos sensíveis do debate público.

É nesse contexto que a memória de Eldorado dos Carajás encontra o presente. Neste 17 de abril, atos realizados em diferentes regiões do país relembram a memória dos mortos de 1996, mas também servem de reflexão acerca do acesso à terra e das formas de repressão.. Em Goiás, a prisão do vereador Fabrício Rosa durante uma manifestação pacífica em memória das vítimas adiciona um elemento contemporâneo a esse quadro, ao recolocar em debate os limites da atuação policial e o direito à livre manifestação.

A coincidência entre memória e repressão é simbólica, e expõe permanências de uma época que é, ao mesmo tempo, paradoxalmente distante mas ainda muito perto. Trinta anos depois, o país que reconhece oficialmente a data como marco da luta pela terra ainda convive com tensões semelhantes às que levaram ao massacre. Se, em um ato público e visível, um representante eleito pode ser detido, a realidade de trabalhadores anônimos, especialmente no campo, permanece ainda mais vulnerável.

A memória de Carajás, portanto, é lembrança e funciona como medida de tempo e de continuidade. E, ao atravessar Goiás neste 17 de abril, levanta uma pergunta que segue sem resposta definitiva: o Brasil mudou a forma de lidar com a luta pela terra ou apenas parou de falar sobre onde ela continua a ser reprimida?

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