Produção do programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, concorre na categoria Vídeo da 48ª edição do prêmio. Resultado será divulgado em 30 de setembro.
O episódio “O eterno abril de Carajás: 30 anos de um massacre”, do programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, é finalista da 48ª edição do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. A produção concorre na categoria Vídeo e revisita os 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás, quando 21 trabalhadores Sem Terra foram assassinados pela Polícia Militar do Pará, em 17 de abril de 1996.
A relação dos finalistas foi divulgada em 21 de setembro pelo Instituto Prêmio Vladimir Herzog. Neste ano, a premiação recebeu 346 produções inscritas em sete categorias: arte, fotografia, texto, vídeo, áudio, multimídia e livro-reportagem. Vinte e um trabalhos chegaram à final. O episódio da TV Brasil foi exibido em 13 de abril de 2026 e está disponível na plataforma da EBC.
Memória e resistência no campo
A reportagem mergulha na memória da violência no campo e na luta pelo direito à terra. O programa mostra o que mudou e o que permanece três décadas após o massacre. A produção ouviu relatos de sobreviventes, como Maria Zelzuíta e Luzenira Paula da Silva, que participaram da marcha organizada pelo MST para reivindicar a desapropriação da Fazenda Macaxeira, um latifúndio improdutivo da região.
O episódio também aborda a criação do Assentamento 17 de Abril, que hoje abriga cerca de 700 famílias em uma área de 18 mil hectares na zona rural de Eldorado do Carajás. O local é o maior fornecedor de leite da região e produz, sem agrotóxicos, alimentos como cacau, açaí e macaxeira.
Para o jornalista Thiago Padovan, produtor da reportagem, o episódio só foi possível pela confiança das famílias assentadas. “As trabalhadoras e os trabalhadores rurais sem-terra do Pará são guardiãs e guardiões dessa memória coletiva”, afirmou. Segundo ele, mesmo diante das perdas de 1996 e das ameaças que ainda persistem no campo, “a organização popular transforma, ainda hoje, a tragédia em resistência”.
Impunidade e violência que persistem
O Massacre de Eldorado do Carajás ocorreu durante uma operação da Polícia Militar do Pará para desobstruir a rodovia PA-150, que havia sido ocupada por manifestantes. Dezenove pessoas morreram no local e outras duas faleceram posteriormente em decorrência dos ferimentos. O julgamento do caso terminou em 2004 com apenas duas condenações: a do coronel da PM Marcos Colares Pantoja e a do major José Maria Pereira de Oliveira.
Passados 30 anos, o Pará segue no topo do ranking nacional de assassinatos, massacres e chacinas no campo. A reportagem denuncia como as raízes fundiárias da ditadura militar e a violência no campo persistem nas terras paraenses. “Revisitar os 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás não é apenas olhar para o passado, mas denunciar como as raízes fundiárias da Ditadura Militar e a violência no campo persistem”, afirma Padovan.
O resultado final da 48ª edição será conhecido em 30 de setembro, com transmissão ao vivo pelo canal do prêmio no YouTube. A premiação é uma homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado pela ditadura militar em 25 de outubro de 1975.
Lembrar para não repetir
A finalização do episódio no Prêmio Vladimir Herzog ocorre no mesmo ano em que o Massacre de Eldorado do Carajás completa 30 anos. A data foi lembrada com atos em memória das vítimas, como a marcha que refez o trajeto de Curionópolis até a Curva do S, local do crime, e o lançamento da campanha para construção do Memorial do Massacre de Eldorado do Carajás.
A produção da TV Brasil reforça a missão da comunicação pública de resgatar a memória histórica da luta pela terra e defender os direitos humanos. O programa busca “dar nome e dignidade às vítimas e aos sobreviventes”, mostrando que a luta pela Reforma Agrária é “também uma luta pela democracia e pelo direito fundamental de existir”.
Caso Fabrício Rosa
Em abril deste ano, o vereador Fabrício Rosa (PT), em Goiânia, foi preso em Santa Helena de Goiás durante uma ação da Polícia Militar contra manifestantes do MST. Segundo a PM, ele foi detido sob acusação de desobediência e desacato. O vereador afirmou que a ação foi arbitrária e que sofreu violência policial, com lesão nas costas. Após prestar depoimento, Fabrício Rosa foi liberado e seguiu para Rio Verde, onde passou por exame de corpo de delito.
A prisão do vereador ocorreu no mesmo dia em que o Massacre de Eldorado do Carajás completava 30 anos. O caso reacendeu o debate sobre a violência no campo e a criminalização de lideranças que acompanham manifestações do MST em Goiás. O episódio do Caminhos da Reportagem, agora finalista do Prêmio Vladimir Herzog, reforça a importância de se manter viva a memória da luta pela terra e de se denunciar as violências que ainda persistem no campo brasileiro.
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