Entre sacis, mulas e curupiras, nossa política prova que a imaginação nunca supera a realidade!
No dia 22 de agosto, celebramos o Dia Internacional do Folclore, data oficializada no Brasil desde 1965, mas cujo termo nasceu lá em 1846, quando o inglês William John Thoms decidiu batizar de “folklore” o saber popular de um povo. No nosso caso, esse saber é tão vasto que vai do frevo ao forró, da catira às festas juninas, do Saci ao Boitatá, da Iara ao Curupira, sem esquecer, é claro, a famosa mula sem cabeça.
Convenhamos, não é preciso buscar apenas nas florestas, rios ou terreiros os personagens lendários do nosso imaginário. Basta sintonizar a televisão em Brasília para perceber que o folclore político brasileiro é tão rico quanto o cultural — talvez até mais criativo, se considerarmos as “proezas” que assistimos diariamente.
Se o Brasil é o país do folclore, não há como negar que Brasília é o seu parque temático particular. Entre discursos inflamados, projetos engavetados e debates que mais parecem rodas de samba sem harmonia, nossos políticos parecem personagens saídos diretamente das lendas populares. Só que, em vez de viverem nas matas ou nas encruzilhadas, habitam gabinetes refrigerados e corredores de mármore. E, como nas histórias contadas ao pé do fogo, cada um deles guarda suas próprias travessuras, maldições e truques para confundir o povo, exemplos não faltam.
O Saci-Pererê, travesso, arteiro e sempre atrapalhando o caminho de quem passa, lembra muito aqueles parlamentares que, em vez de legislar, preferem criar redemoinhos em plenário, sumindo com papéis, projetos e até com a lógica.
O Curupira, com seus pés virados para trás, poderia muito bem simbolizar os políticos que vivem prometendo avanço, mas só sabem andar para trás. E, claro, tal qual o guardião das matas, são implacáveis quando se trata de proteger suas próprias “árvores sagradas” — leia-se: privilégios.
Já a Mula sem Cabeça, que cospe labaredas de fogo, é a perfeita encarnação daqueles que, sem raciocínio ou moderação, disparam impróprios em entrevistas e redes sociais, transformando cada debate em um festival de faíscas e fumaça. O detalhe é que, como na lenda, o castigo quase nunca recai sobre os padres da política, apenas sobre os que ousam desafiar as regras não escritas do poder.
E não esqueçamos o Boto cor-de-rosa, sedutor nato. Quantos não aparecem em época de eleição, encantando o eleitorado com discursos doces e promessas irresistíveis, para depois desaparecer misteriosamente quando o galo canta (ou quando a urna fecha)?
É claro que, se Ariano Suassuna e Câmara Cascudo beberam do folclore brasileiro para compor obras eternas, nossos políticos parecem beber dele para escrever diariamente o roteiro tragicômico da República. E nós, o povo, seguimos assistindo entre gargalhadas e suspiros, como quem ouve uma boa lenda: divertidos, mas cientes de que por trás da fantasia há sempre uma moral da história.
Então, neste Dia do Folclore, celebremos não apenas o Saci, a Iara, o Curupira e a Mula sem Cabeça, mas também nosso folclore político, onde personagens reais se misturam a figuras fictícias como o inesquecível Odorico Paraguassu — que, no imaginário de Dias Gomes, travestiu o político em uma roupagem alegre, caricata e assustadoramente fiel à realidade. Se não é motivo de orgulho, ao menos garante boas comparações e um tantinho de riso em meio ao caos. Afinal, no Brasil, a política é tão lendária quanto nossas histórias passadas de geração em geração.















