Entre 16 de agosto e 28 de setembro, 554 vídeos e imagens classificados como deepfakes foram identificados nas redes sociais, segundo levantamento do projeto VigIA, da Agência Lupa, que monitora o uso de inteligência artificial no período eleitoral.
Os deepfakes representaram 60% dos 920 conteúdos que tiveram uso de inteligência artificial confirmado entre as 972 publicações analisadas pelo projeto. Do total de deepfakes encontrados, 29 foram publicados por perfis de candidatos ou partidos.
Deepfakes são conteúdos produzidos ou manipulados com ferramentas de inteligência artificial para fazer uma pessoa real parecer dizer ou fazer algo que não aconteceu. Entre os casos identificados estão vídeos em que jornalistas aparecem anunciando notícias falsas e conteúdos em que celebridades supostamente manifestam apoio a candidatos.
O uso desse tipo de conteúdo é alvo de restrições da Justiça Eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu conteúdos manipulados por inteligência artificial que possam induzir o eleitor a erro, especialmente quando caracterizados como propaganda política e apresentem potencial de enganar o público. As regras podem resultar em sanções, incluindo a cassação de candidatura ou mandato, conforme as circunstâncias do caso.
Maioria dos conteúdos vem de usuários comuns
Um dos principais desafios apontados pelo levantamento é a origem das publicações. Dos 554 deepfakes identificados, 525 foram publicados por usuários comuns, muitos deles utilizando perfis anônimos.
Para Beatriz Farrugia, pesquisadora responsável pelo relatório, a predominância de contas individuais e anônimas dificulta a fiscalização e exige articulação entre a Justiça Eleitoral e as plataformas digitais para identificar os responsáveis.
Além dos deepfakes, o VigIA monitora outros tipos de conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial.
Ao todo, o projeto coletou 1.941 conteúdos político-eleitorais suspeitos durante o período analisado. Até agora, 972 imagens e vídeos passaram pela análise, com 920 casos confirmados de utilização de IA.
O trabalho é realizado em parceria com o Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os pesquisadores utilizam três ferramentas de detecção de IA e submetem os resultados a uma avaliação humana.
Maioria não informa uso de inteligência artificial
Outro problema identificado pelo levantamento é a falta de sinalização. A legislação eleitoral permite o uso de inteligência artificial em conteúdos de campanha, desde que o eleitor seja informado sobre a utilização da tecnologia.
Dos 920 conteúdos analisados, apenas 371 estavam devidamente identificados como produzidos ou modificados com IA, o equivalente a cerca de 40%.
Isso significa que 549 publicações não apresentavam a sinalização exigida. Entre elas, 75 haviam sido produzidas ou divulgadas por candidatos ou partidos.
Para Cristina Tardáguila, fundadora e gerente de Inteligência e Formação da Agência Lupa, os números mostram que a inteligência artificial deixou de aparecer apenas em casos pontuais e passou a integrar a comunicação política cotidiana.
Promoção de candidatos lidera
A promoção de candidaturas foi a finalidade mais frequente entre os 920 conteúdos analisados. Foram 414 casos, ou 45% do total.
Os ataques a candidatos ou outras pessoas aparecem em cerca de um quarto das publicações. Uma proporção semelhante corresponde a conteúdos produzidos com finalidade de humor ou sátira.
O levantamento também identificou conteúdos sintéticos, nos quais a IA é utilizada para criar ou modificar elementos de uma publicação, sem necessariamente atribuir a uma pessoa uma fala ou comportamento que não ocorreu.
Lula e Flávio Bolsonaro são os mais citados
O cenário nacional e, principalmente, a disputa presidencial concentram boa parte dos conteúdos monitorados.
O presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), aparece em 379 publicações analisadas pelo VigIA. Flávio Bolsonaro (PL) aparece em 190.
Entre os conteúdos envolvendo Lula, 39% foram classificados como humor ou sátira e 34% tinham como objetivo atacar sua candidatura. No caso de Flávio Bolsonaro, 40% buscavam favorecê-lo, enquanto 28% tinham caráter humorístico ou satírico.
Na análise geral, usuários comuns continuam sendo o grupo que mais publica os conteúdos, respondendo por 47% dos autores identificados. Perfis desconhecidos aparecem em 27% dos casos, enquanto contas oficiais de candidaturas representam 24,5%.
Os dados mostram que o desafio da inteligência artificial nas eleições não está restrito à propaganda produzida diretamente por campanhas. Uma parcela significativa dos conteúdos circula por contas individuais e perfis cuja identificação pode ser mais difícil, ampliando o desafio para plataformas digitais e órgãos de fiscalização.
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