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Desconfiança na política e força da desinformação desafiam eleitorado às vésperas das eleições

Pesquisa com 2 mil brasileiros aponta descrédito em partidos e Congresso e mostra que conteúdo falso com apelo emocional foi aceito por 78% dos entrevistados


Andréia Bahia Por Andréia Bahia em 02/10/2026 - 16:37

Desconfiança na política e força da desinformação desafiam eleitorado às vésperas das eleições - Reprodução
Desconfiança na política e força da desinformação desafiam eleitorado às vésperas das eleições - Reprodução

A combinação entre desconfiança nas instituições políticas e dificuldade para identificar conteúdos falsos aparece como um dos principais desafios para o ambiente eleitoral brasileiro em 2026. É o que aponta a pesquisa “Termômetro do Brasil”, realizada pelo Instituto Oyá em parceria com a Ipsos, que ouviu 2 mil brasileiros conectados, com 18 anos ou mais, entre 30 de julho e 19 de agosto.

O levantamento mostra que 65% dos entrevistados afirmam não confiar em políticos em geral. A desconfiança também alcança outras instituições: chega a 64% quando considerados os partidos políticos, a 54% em relação ao Congresso Nacional, a 45% para o Poder Executivo nas três esferas de governo e a 41% quando o assunto é o Supremo Tribunal Federal.

O processo eleitoral também não escapa do cenário de desconfiança. Segundo a pesquisa, 41% afirmam confiar nas eleições, enquanto 37% se posicionam de forma neutra e 17% dizem não confiar no processo.

Outro dado chama atenção para o ambiente informacional em que os eleitores chegam às eleições. Embora 51% considerem a disseminação de fake news um problema muito grave, o levantamento aponta uma diferença entre a percepção do risco e a capacidade de identificar informações falsas.

Conteúdo emocional teve maior adesão

Para medir a vulnerabilidade dos entrevistados à desinformação, os pesquisadores apresentaram conteúdos reais e simulados em um teste de credibilidade.

Uma notícia falsa, construída com dados fictícios e relacionando as enchentes do Rio Grande do Sul ao furacão Katrina, foi considerada verdadeira por 78% dos participantes. O conteúdo tinha forte apelo emocional e sensacionalista.

Em comparação, uma notícia verdadeira, baseada em informações técnicas e históricas do Cemaden e do INPE sobre eventos extremos relacionados à água no país, teve 69% de adesão.

O resultado sugere, segundo os responsáveis pelo estudo, que o impacto emocional de uma narrativa pode pesar mais na percepção do público do que a presença de dados técnicos e científicos.

A pesquisa também mostra que o conhecimento sobre as possibilidades da inteligência artificial já é disseminado. 81% dos entrevistados afirmam saber que a tecnologia pode produzir deepfakes, conteúdos que simulam voz, imagem ou vídeo de pessoas reais.

Descrédito não significa abandono da democracia

Apesar da desconfiança em relação às instituições, a pesquisa aponta que a democracia continua entre as preocupações dos brasileiros. A ameaça de retrocesso democrático aparece com 32%, mesmo percentual atribuído ao medo do desemprego. As mudanças climáticas lideram essa lista, com 41%, seguidas pela deterioração da saúde, com 31%, e pela escassez de alimentos, com 30%.

Ao mesmo tempo, o levantamento identifica mudanças na forma de participação política. 45% descartam a possibilidade de se candidatar a cargos eletivos, enquanto 39% não demonstram interesse em participar de atividades partidárias e 33% dizem não ter disposição para participar de protestos de rua.

A participação, porém, não desaparece. Ela migra para formatos considerados menos formais e mais digitais. Entre as formas citadas estão a assinatura de petições virtuais e mobilizações em redes sociais, apontadas por 21%; o boicote a marcas e empresas, por 16%; e o apoio financeiro ou institucional a organizações não governamentais e movimentos sociais, por 14%.

Para Kamila Camilo, diretora-executiva do Instituto Oyá, os dados indicam uma transformação na maneira como os brasileiros se relacionam com a política.

“Os dados provam que o brasileiro não está apático, mas sobrecarregado por modelos de representação que não resolvem as urgências da sua rotina”, afirma.

Segundo ela, diante da desconfiança nas instituições e da circulação de conteúdos manipulados nas redes, parte da sociedade busca formas mais diretas de participação.

Tecnologia ganha confiança

Na comparação entre diferentes setores e instituições, a área de tecnologia aparece com o maior índice de confiança, com 67%, enquanto as organizações não governamentais registram 45%.

O cenário desenhado pela pesquisa combina, portanto, três movimentos: redução da confiança nas estruturas tradicionais de representação, ampliação do uso de canais digitais para participação e exposição crescente a conteúdos produzidos ou potencializados por ferramentas tecnológicas.

Para as eleições de 2026, o levantamento coloca a qualidade da informação e a capacidade de identificar conteúdos enganosos no centro do debate sobre participação política.

Pesquisa: “Termômetro do Brasil”
Amostra: 2 mil brasileiros conectados, com 18 anos ou mais
Período: 30 de julho a 19 de agosto de 2026
Abrangência: todas as regiões do país

Pesquisa