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Eleições 2026: A guerra dos aliados

Atritos na base governista e no PL mostram que algumas das disputas mais duras da campanha começaram entre quem estava do mesmo lado


Domingos Ketelbey Por Domingos Ketelbey em 30/08/2026 - 08:38

Eleições 2026: A guerra dos aliados
(Foto: Reprodução)

“Cada vez que eu chego na carreata tem um meme, tem uma notícia contra mim. Ele me afronta todo dia.” A ex-primeira-dama Gracinha Caiado deixou de lado o protocolo na última quinta-feira (27) e apontou para dentro da própria base. O alvo não era Gustavo Gayer, do PL, nem qualquer outro adversário externo. Era Gustavo Mendanha, ex-prefeito de Aparecida de Goiânia e candidato ao Senado pelo mesmo grupo que sustenta a reeleição do governador Daniel Vilela.

Horas depois, Mendanha respondeu. Disse ter sido pego de surpresa, negou trabalhar contra Gracinha e avaliou que a aliada havia “caído numa casca de banana”. Fez questão de reafirmar apoio à candidatura dela, a Daniel e ao projeto liderado por Ronaldo Caiado.

A tentativa de baixar a temperatura não mudou o significado do episódio. Gracinha e Mendanha chegaram às eleições do mesmo lado, mas disputam uma das duas vagas disponíveis ao Senado. A condição de aliados para o governo não elimina o fato de que, para sobreviverem na majoritária, também precisam derrotar um ao outro. E eles não foram os únicos.

No mesmo dia, o senador Wilder Morais chamou de “traidor” o prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa, ambos do PL, depois que o prefeito declarou apoio a Daniel. A direção estadual da legenda abriu processo disciplinar contra Márcio, que reagiu acusando Wilder de estar “batendo com a mão de terceiros”.

Poucos dias antes, o deputado federal Zacharias Calil e seu então primeiro suplente ao Senado, Thalles Jayme, haviam transformado uma divergência interna numa sequência pública de versões e acusações. “Zacharias não vai me tratar como moleque”, disparou Thalles antes de formalizar a saída da chapa. Em poucos dias, “afronta”, “traição” e “moleque” entraram no vocabulário de uma campanha que mal começou.

Os conflitos têm origens diferentes. Gracinha e Mendanha disputam votos dentro da mesma coalizão. Wilder e Márcio brigam sobre fidelidade partidária. Zacharias e Thalles romperam em meio às negociações da primeira suplência. As primeiras guerras da campanha começaram dentro de casa.

Quatro aliados para duas vagas

O conflito entre Gracinha e Mendanha era, em alguma medida, um risco anunciado. A base de Daniel chegou à eleição com quatro candidatos ao Senado: Gracinha, Mendanha, Vanderlan Cardoso e Zacharias. São quatro projetos para duas cadeiras e, em muitos municípios, todos disputam os mesmos prefeitos, vereadores e lideranças.

A pesquisa Quaest divulgada na quinta-feira ajuda a dimensionar o problema. Na combinação das duas escolhas, Gracinha aparece com 21%. Gustavo Gayer tem 12%, seguido por Vanderlan e Zacharias, ambos com 9%. Mendanha marca 6%.

A fotografia não define a eleição, mas mostra uma assimetria: Gracinha conseguiu se descolar dos outros candidatos governistas. Os demais ainda precisam disputar espaço entre si e com nomes de fora da base. A matemática do Senado torna inevitável alguma competição interna.

Um prefeito pode pedir votos para Gracinha e Vanderlan. Outro, para Gracinha e Mendanha. Um terceiro pode escolher Zacharias como segunda opção. Há ainda quem entregue um dos votos a candidatos da oposição. 

A mesma base que soma quatro nomes para ampliar capilaridade precisa administrar o fato de que cada dobradinha deixa dois aliados de fora. É nesse ambiente que a acusação feita por Gracinha ganha outra dimensão.

Quando diz que Mendanha é afrontoso, a ex-primeira-dama reage não apenas a um desconforto pessoal. Reage dentro de uma disputa em que ambos dependem do mesmo universo de apoios. 

Mendanha também conhece o risco. Com 6% na Quaest, não tem interesse em transformar a líder da corrida numa adversária frontal. Precisa crescer dentro da base sem ser politicamente expulso dela. A linha é estreita.

O PL e o preço da fidelidade

No PL, a crise é de outra natureza. Márcio Corrêa foi eleito prefeito de Anápolis pela legenda e continua filiado ao partido. Para governador, entretanto, declarou apoio a Daniel, adversário de Wilder, presidente estadual do PL e candidato ao Palácio das Esmeraldas.

O desconforto saiu dos bastidores. A Executiva Estadual decidiu receber uma representação ético-disciplinar contra o prefeito e encaminhar o caso ao Conselho de Ética. A manifestação de apoio a Daniel está no centro do processo.

Márcio reagiu atribuindo a ofensiva ao próprio Wilder. Disse que o senador estaria “batendo com a mão de terceiros”. Wilder respondeu aumentando o tom. Chamou Márcio de “traidor” e afirmou que o prefeito havia rompido um compromisso não apenas com o partido, mas também com Jair Bolsonaro. A disputa expõe mais um dos inúmeros problemas e rachas que o PL viveu ao longo dos últimos meses.

Trata-se de uma disputa de quem tem o controle do PL e do bolsonarismo goiano. Wilder precisa demonstrar que controla a legenda e que a candidatura própria ao governo será respeitada pelos filiados. Aceitar sem reação que o prefeito da segunda maior cidade de Goiás caminhe com Daniel poderia produzir uma imagem de fragilidade.

Márcio, por outro lado, nunca escondeu a relação política com o governador e não parece disposto a sacrificá-la apenas pela decisão formal do partido. O PL tenta cobrar disciplina de um dos prefeitos mais importantes que possui justamente quando precisa ampliar sua presença municipal. Nesse conflito, os dois têm algo a perder.

A guerra dentro da própria chapa

Zacharias Calil descobriu que nem mesmo uma chapa ao Senado está protegida de turbulências. Thalles Jayme havia sido apresentado como primeiro suplente. A composição não resistiu ao primeiro mês de campanha.

Zacharias anunciou que o aliado deixaria a vaga e inicialmente tratou a mudança como uma decisão construída em conjunto. Thalles contestou. Disse que não havia renunciado, afirmou que soube da substituição depois de uma divergência sobre financiamento de campanha e revelou ter recebido uma carta de renúncia que não havia assinado.

A discussão ganhou tom pessoal. “Zacharias não vai me tratar como moleque”, disse Thalles durante o impasse. Depois de dias de versões conflitantes, formalizou a renúncia. O médico Leonardo Reis, ex-presidente do Cremego, assumiu a primeira suplência. Administrativamente, a crise terminou. Politicamente, deixou marcas.

A primeira suplência pode significar oito anos de mandato caso o titular se afaste, assuma outro cargo ou deixe definitivamente o Senado. Não é uma posição meramente decorativa. Envolve confiança, estrutura, partido e projeto de poder.

A campanha depois da fotografia

Os três episódios possuem gravidades diferentes e não permitem falar em desmoronamento de alianças. Gracinha e Mendanha continuam com Daniel. Márcio permanece no PL enquanto o processo tramita. Zacharias recompôs a chapa.

Mas as crises revelam uma mudança típica do momento eleitoral. Durante a pré-campanha, quase tudo pode ser acomodado sob expressões como unidade, construção coletiva e projeto de grupo. Depois das convenções, entram na equação voto, dinheiro, estrutura, espaço e sobrevivência política. É quando o aliado descobre que também pode ser concorrente.

O problema é mais evidente em grandes coalizões, mas não se limita a elas. A base de Daniel precisa administrar quatro candidatos ao Senado. O PL enfrenta uma rebelião justamente na prefeitura de Anápolis. Uma candidatura majoritária viu titular e suplente romperem publicamente poucos dias depois da largada. As alianças também não obedecem perfeitamente às estruturas partidárias.

Márcio é do PL e vota em Daniel. Gracinha e Mendanha apoiam o mesmo governador e disputam o mesmo Senado. Thalles estava dentro da chapa de Zacharias até deixar de estar. A fotografia das convenções sugeria grupos organizados.

A campanha começa a mostrar suas costuras. Na última semana, algumas das declarações mais duras não foram dirigidas aos adversários tradicionais. Vieram de pessoas que, até pouco tempo atrás, apareciam lado a lado. Gracinha falou em afronta. Wilder, em traição. Thalles avisou que não seria tratado como moleque. A eleição ainda tem adversários suficientes do lado de fora. Para alguns candidatos, porém, a primeira guerra começou dentro de casa.

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