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Em virada histórica, Lula conquista quarto mandato

Vitória sobre Flávio Bolsonaro amplia trajetória do petista, mas força da oposição no Congresso impõe negociação para governar


Domingos Ketelbey Por Domingos Ketelbey em 26/10/2026 - 07:15

Em virada histórica, Lula conquista quarto mandato
(Foto: Divulgação)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu uma eleição que começou o segundo turno perdendo. Neste domingo (25), superou o senador Flávio Bolsonaro (PL), conquistou seu quarto mandato e acrescentou outra recuperação a uma trajetória marcada por derrotas, chegadas ao poder e retornos. A vitória assegura mais quatro anos no Palácio do Planalto. O desafio seguinte será construir condições para governar um país cujo eleitorado também fortaleceu a oposição no Congresso.

Às 21h16, com 99,79% das seções totalizadas, o Tribunal Superior Eleitoral já classificava a disputa como matematicamente definida. Lula tinha 64.092.177 votos, equivalentes a 51,76% dos válidos. Flávio somava 59.734.450, ou 48,24%. A distância naquele momento era de 4.357.727 votos. Os números ainda não correspondiam à totalização completa, mas os votos restantes já não poderiam alterar o vencedor.

O resultado inverteu a ordem do primeiro turno. Em 4 de outubro, Flávio havia alcançado 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O presidente precisou atravessar as três semanas seguintes buscando votos que não recebera na primeira etapa, reorganizando a campanha e mobilizando apoiadores para impedir que a vantagem do adversário se transformasse em alternância de poder.

A recuperação tem peso político próprio. Lula disputava a eleição como presidente, submetido ao julgamento de seu governo e às cobranças sobre a vida cotidiana. Sua candidatura precisava defender o que havia feito e, ao mesmo tempo, oferecer razões para uma nova oportunidade. A maioria veio, mas acompanhada de uma votação expressiva do adversário e de um Legislativo no qual o partido de Flávio ampliou sua presença.

Em Goiás, a vitória mantém o governador Daniel Vilela (MDB) e o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) diante de um governo federal que trabalharam para derrotar. Os dois aderiram à candidatura de Flávio após o primeiro turno. A reeleição de Lula não altera a maioria estadual conquistada por Daniel, mas frustra a expectativa de iniciar o próximo mandato com um aliado na Presidência. 

Três semanas para mudar o resultado

A campanha petista chegou à etapa decisiva pressionada pelo desempenho de Flávio. A vantagem do senador no primeiro turno obrigou Lula a buscar uma reação em prazo curto. O presidente intensificou a mobilização digital, especialmente pelo WhatsApp, e colocou propostas sociais e econômicas no centro da disputa, ao lado de ataques ao adversário.

No domingo, antes de conhecer o resultado, Lula falou sobre as manifestações de apoio realizadas na reta final. “Nunca vi nada igual”, afirmou depois de votar em São Bernardo do Campo, acompanhado da primeira-dama Janja, do vice-presidente Geraldo Alckmin, e de aliados. A declaração traduzia a aposta da campanha na mobilização dos eleitores para superar a desvantagem inicial.

A votação confirmou a recuperação, embora o resultado, isoladamente, não permita atribuir a virada a um único fator. Campanha de rua, comunicação digital, avaliação do governo, rejeição ao adversário e comparecimento às urnas compõem uma disputa que exigirá análise dos dados para separar o peso de cada movimento.

Flávio procurou reunir o voto de mudança. Ao votar no Rio de Janeiro, explorou preocupações com segurança, endividamento e custo de vida. “Chegou a hora da mudança”, disse. Sua candidatura tentou transformar essas insatisfações em maioria contra o presidente e chegou ao segundo turno com a vantagem obtida nas urnas de outubro.

A derrota interrompe esse caminho até o Planalto, mas não apaga a base política que sustentou o senador. Os quase 60 milhões de votos registrados na parcial das 21h16 mostram a dimensão do eleitorado que preferiu seu projeto. Para Lula, governar também significará responder a problemas vividos por essa parcela do país, sem presumir que a vitória eleitoral encerra as razões de sua insatisfação.

O quarto mandato carrega, assim, duas cobranças simultâneas. A primeira vem de quem reelegeu o presidente e espera o cumprimento das promessas. A segunda, de quem votou contra e seguirá avaliando emprego, renda, serviços públicos e segurança. A força simbólica da recuperação nas urnas terá de encontrar correspondência nas decisões do governo.

O Congresso que a vitória não mudou

O principal limite político à comemoração já havia sido estabelecido no primeiro turno. O PL elegeu 19 senadores e terá 28 das 81 cadeiras a partir de 2027, considerando os mandatos que continuam. Será a maior bancada da Casa. O PT ficará com nove integrantes e o MDB, com oito. 

A composição dá ao partido de Flávio capacidade de organizar a oposição e influenciar a agenda. Não lhe oferece, porém, maioria própria. Tanto o Planalto quanto seus adversários dependerão de acordos com outras legendas. O tamanho das bancadas será o ponto de partida de uma negociação que envolve prioridades, cargos de direção e disposição para apoiar ou barrar propostas.

Para Lula, a tarefa será converter a legitimidade renovada nas urnas em apoio parlamentar. A vitória presidencial não transforma automaticamente partidos de centro em aliados permanentes, assim como a participação de dirigentes na campanha de Flávio não determina o comportamento de todos os seus parlamentares durante os próximos quatro anos.

Esse espaço de negociação exigirá escolhas. O governo terá de definir quais propostas considera indispensáveis, onde admite ajustes e quais compromissos está disposto a assumir. A oposição também será cobrada a apresentar alternativas, especialmente nos temas que usou para questionar a administração durante a campanha.

O presidente chega ao novo mandato com experiência acumulada de negociação, mas encontrará uma correlação de forças que não pode ser tratada como repetição de seus governos anteriores. A relação com o Congresso será testada em decisões concretas. A montagem da equipe e a definição das primeiras prioridades indicarão como pretende enfrentar esse quadro.

Promessas passam a ser compromissos de governo

Na reta final, Lula defendeu medidas como a ampliação do Pé-de-Meia, o perdão de dívidas de microempreendedores individuais e o fim da escala 6×1. Foram propostas apresentadas em uma campanha na qual renda e condições de trabalho estiveram em disputa. Com a reeleição, passam a integrar a cobrança dirigida ao próximo governo.

A execução exigirá mais do que reafirmar intenções. Será necessário apresentar mecanismos, fontes de financiamento e, quando depender do Legislativo, construir votos. O presidente terá de estabelecer uma ordem de prioridades e explicar o que pode ser feito imediatamente e o que exige mudanças mais demoradas.

É nesse ponto que a emoção da vitória encontra a responsabilidade do mandato. O eleitor que participou da recuperação de Lula espera consequências na própria vida. Uma nova autorização para governar aumenta a expectativa sobre a capacidade de entregar resultados, sobretudo quando o presidente já conhece a estrutura administrativa e os obstáculos políticos que terá pela frente.

A experiência poderá ajudar na negociação, mas também reduz o espaço para atribuir dificuldades apenas à adaptação ao cargo. O próximo governo será julgado por suas escolhas e pela capacidade de executar o que apresentar como prioridade. A campanha terminou com uma virada. A administração começará com compromissos acumulados.

Goiás preserva seu governo e revê a aposta nacional

Daniel Vilela sai da eleição com uma vitória estadual expressiva. Foi reeleito no primeiro turno com 2.148.218 votos, equivalentes a 59,17% dos válidos, segundo o Tribunal Regional Eleitoral de Goiás. A chapa terá Luiz do Carmo, do PSD, como vice no próximo mandato.

Esse resultado garante ao governador uma legitimidade própria, que não desaparece com a derrota de seu candidato a presidente. A escolha nacional, entretanto, mantém uma distância política entre os comandos do Estado e da União. Daniel precisará administrar essa diferença enquanto conduz as demandas de Goiás junto ao governo federal.

O governador declarou apoio a Flávio logo após o primeiro turno e apontou a presença de uma corrente expressiva do MDB contrária à permanência de Lula. Seu posicionamento também evidenciou a diversidade de um partido cujas lideranças não mantêm uma relação uniforme com o Planalto.

A partir de agora, a relação institucional será medida pela capacidade de negociar. Divergências políticas continuarão existindo, mas obras, programas e demandas dos municípios exigem interlocução. Nem uma aproximação automática nem uma ruptura administrativa podem ser deduzidas apenas do resultado eleitoral.

Para Caiado, a eleição termina com duas derrotas no plano nacional. O ex-governador ficou fora do segundo turno e depois se empenhou pela candidatura de Flávio. O apoio foi formalizado em Goiânia, em ato com Daniel e outras lideranças. A aposta não levou seu grupo ao comando federal.

Durante a campanha, Caiado foi mencionado entre os possíveis nomes para uma pasta de Segurança Pública em um eventual governo do PL. Ele negou que negociasse cargos. A distinção permanece necessária: havia especulação sobre uma indicação, não uma nomeação acertada ou um compromisso anunciado. 

O resultado torna mais relevante a reorganização partidária discutida por Caiado e Daniel. Os dois defendem uma possível federação entre PSD e MDB e levaram a proposta às direções nacionais. “Se nós fizermos da parte minha e do Daniel, está mais do que fechado”, afirmou Caiado, na quinta-feira (22). O entendimento local ainda depende de conciliação com interesses de outros estados. 

A permanência de Lula acrescenta uma questão a essa negociação: qual será a relação das legendas com o próximo governo. A posição dos líderes goianos na eleição não representa, por si só, uma decisão nacional. O desenho partidário dependerá também de forças que atuam fora de Goiás e têm outros interesses na relação com a Presidência.

Uma noite prolongada

A definição eleitoral ocorreu depois de um domingo marcado por controvérsia sobre o acesso às urnas. Após relatos de dificuldades de transporte, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, determinou a extensão da votação até as 19h. O alcance foi posteriormente esclarecido: a prorrogação valeria nas seções ainda abertas, sem reabertura das urnas já encerradas. 

A divulgação da apuração foi interrompida e retomada após as 19h. As campanhas haviam apresentado pedidos de ampliação do horário por motivos diferentes, envolvendo transporte e condições climáticas. As ocorrências terão de ser examinadas por seus próprios elementos, sem tratar denúncias como conclusões sobre os efeitos na votação.

Lula venceu a disputa que decidiu quem governará o Brasil. O novo mandato começa em 5 de janeiro de 2027. Até lá, as escolhas de equipe, as negociações partidárias e a apresentação de prioridades vão mostrar como o presidente pretende transformar sua quarta vitória em capacidade de governo. A recuperação eleitoral está confirmada. A sustentação do próximo mandato ainda terá de ser construída.

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