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Entenda como as escolhas locais deixaram o PT isolado na corrida eleitoral em Goiás

Antigos protagonistas, novos coadjuvantes: PT e PSDB têm dificuldades para articular chapas majoritárias e recalcular rota no xadrez político


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 29/03/2026 - 09:21

PT
(Foto: Reprodução)

Desde as eleições municipais de 2024, se lê nos jornais goianos que PT e PSDB “iniciaram tratativas”, “intensificaram diálogos”, “sinalizam aproximação” e tantos outros jargões do colunismo político. Porém, até agora, a história é mais história que fato. Para quem interpreta o cenário, a possível aliança faz sentido porque liga os partidos em suas semelhanças: foram os principais atores nos palanques das duas últimas décadas, e agora, com o novo arranjo de forças, estão escanteados. “Jogam parados” (para usar outro jargão) — se aproximam do fim do período para montagem de chapas sem opções ou grandes alianças encaminhadas.

O acordo é inteiramente fictício? Não, os diálogos existem. Mas, em política, as conversas sempre existem, e não significam necessariamente acordos concretos. Pela parte do PT, há um ator que defendeu publicamente a aliança com os ex-governadores tucanos Marconi Perillo e José Eliton: o ex-tesoureiro nacional do PT Delúbio Soares. Outras alas descartam publicamente a aproximação. Essas alas são representadas pelos pré-candidatos do PT ao governo do Estado: Luis Cesar Bueno (ex-deputado estadual), Cláudio Curado (ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas), e Valério Luiz Filho (jurista).

Por parte do PSDB, o ex-governador e ex-presidente nacional do partido, Marconi Perillo, afirmou ao Globo: “Meu problema maior (em se juntar ao PT) não é pessoal, não é partidário, não é político. É mais ideológico e eleitoral. Eu não tenho nenhum problema com essas pessoas. Eu só tenho problema pessoal com o Caiado.” No estado, o presidente Gustavo Sebba também já negou publicamente encontros para tratar de alianças com o PT. E as negativas significam que não haverá diálogo? Novamente não — as negociações são sempre negadas até serem anunciadas.

O que há de concreto é o fato de que os demais partidos já têm o jogo bem mais adiantado. O PL definiu que irá com Wilder Morais, que aguarda o apoio de uma baqueada onda bolsonarista. O MDB definiu que, em Goiás, será direita. O PT sequer definiu seu pré-candidato.

A pesquisa Real Time Big Data apontou que o caminho mais competitivo é com Adriana Accorsi (12% de intenções de voto em um cenário), mas o Diretório Nacional pode decidir que prefere uma disputa mais segura para a reeleição da deputada federal. A Real Time Big Data mostra dois outros cenários para o Partido dos Trabalhadores: Luis Cesar Bueno (4% de intenções de votos) e Valério Luiz Filho (1%). Ou seja, se não for com Adriana Accorsi, o PT deve ter votação bem menor que os concorrentes.

Em todo caso, para o PT, o futuro é complexo. Marconi Perillo e Adriana Accorsi têm as duas maiores rejeições de Goiás (40%). A união entre os partidos seria vista como dissonante para os eleitores, pois o presidente Lula da Silva (PT) tentou uma aproximação em 2022 e foi rejeitado por Marconi. Aécio Neves (atual presidente do PSDB) foi adversário e figura central no impeachment de Dilma Rousseff (PT), e principal responsável por alinhar o partido ao bolsonarismo em alta naquela época.

Até as eleições, o desgaste de Lula tende a aumentar. O uso eleitoral da máquina também deve se intensificar, mas em um estado onde Bolsonaro fez 58,71% votos em 2022, o viés importa. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg publicada nesta quarta-feira (25) mostra que 53,5% dos brasileiros desaprovam o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A desaprovação vem crescendo desde outubro de 2025, em especial entre os mais jovens. Os eleitores de 16 a 24 anos desaprovam o governo na proporção de 72,7%, e Goiás é um estado mais jovem que a média nacional, segundo o Censo 2022 do IBGE.

O porquê do isolamento

A razão da solidão do PT neste período de apertos de mãos não é outra senão as escolhas feitas pelo próprio PT. Em Goiás, o partido foi purista na escolha de aliados. Se nacionalmente o presidente Lula não mostra hesitação moral ao aceitar alianças com o PP, Republicanos, MDB e outros representantes do Centrão, o fato não se repete no estado.

O atual governador e presidente do MDB estadual Daniel Vilela liderou um movimento no início deste mês contra a aliança nacional entre os partidos, usando como argumentos o fato de que o MDB é constantemente chamado de “golpista” pelo Partido dos Trabalhadores. Neste ano, na Sapucaí, o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula exibiu um carro alegórico em que um folião caracterizado como Michel Temer roubava a faixa presidencial de Dilma Rousseff e a colocava em si mesmo, por exemplo.

O argumento pode ser superficial, com a motivação real de Daniel Vilela se devendo ao seu alinhamento com Ronaldo Caiado (PSD). Mas o Movimento Democrático Brasileiro tem três ministros no governo petista, e Daniel Vilela não é Ronaldo Caiado (este sim, um crítico irredutível de Lula). Ou seja, se o PT estadual esboçasse aproximação com Daniel Vilela, poderia vislumbrar espaços no poder, projetar crescimento futuro, reduzir o desgaste do isolamento? Não sabemos, pois, em Goiás, o PT escolheu não cumprir para com o MDB o papel que o MDB cumpre em cenário nacional para com o PT.

Agora, o barco zarpou. Daniel Vilela defende uma posição de independência — ou seja, cada estado define com quem vai — sendo que domesticamente herda de Caiado um antipetismo palatável para o eleitorado conservador. O movimento, que culminou com entrega de carta assinada por 17 representantes de diretórios estaduais ao presidente Baleia Rossi, e que busca negar a aproximação MDB-PT promovida por Jader Filho e Renan Filho, deve prejudicar Lula neste ano.

As opções

Diversos atores no PT se colocaram como pré-candidatos, mas os dois nomes mais conhecidos pelo eleitor — o do vereador Edward Madureira e o de Adriana Accorsi — devem concorrer à Câmara dos Deputados. A escolha revela a opção pelo fortalecimento da representação no Congresso, onde a articulação dos projetos importantes para o governo e a distribuição de emendas consolidam os partidos.

A ideia de que mais vale uma corrida promissora ao parlamento do que uma incerta ao Executivo tem sido comum a todos os partidos. Com uma maior bancada, as siglas podem reivindicar cargos de destaque no futuro comando da Casa Legislativa, afinal. O novo modo de escolher candidatos foi enunciado claramente por Jair Bolsonaro (PL) em 2024, quando o ex-presidente afirmou que preferia ampliar a bancada de senadores e garantir maioria no Congresso para enfrentar suas pautas jurídicas do que eleger prefeitos. 

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