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Entre muros e pontes: o desafio de dar rosto e base ao centro democrático no Brasil

O país sempre conviveu com tensões políticas, disputas ideológicas e conflitos entre projetos distintos de sociedade


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 29/04/2026 - 13:13

Brasil Palácio do Planalto polarização
A polarização afetiva no Brasil não é exatamente uma novidade (Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil)

A polarização afetiva no Brasil não é exatamente uma novidade. O país sempre conviveu com tensões políticas, disputas ideológicas e conflitos entre projetos distintos de sociedade. O que muda, no momento atual, é a intensidade e a natureza dessa polarização. O que antes era, em grande medida, um embate pragmático entre visões de política pública, transformou-se em algo profundamente pessoal e identitário. Na lógica binária entre bolsonarismo e lulismo, o adversário deixou de ser apenas alguém com ideias diferentes para se tornar um inimigo a ser combatido — e não alguém com quem se dialoga.

É verdade que parte dessa dinâmica tem raízes mais antigas. O Partido dos Trabalhadores, ao longo de sua trajetória, apostou em uma narrativa de luta de classes que colocou em confronto setores distintos da sociedade. Há, inclusive, uma lógica histórica compreensível nisso: direitos trabalhistas e avanços sociais raramente foram concedidos espontaneamente — quase sempre resultaram de pressão, mobilização e conflito político. Ainda assim, pode-se argumentar que, em determinados momentos, essa estratégia elevou o tom além do necessário, aprofundando divisões.

Naquele período, o principal contraponto ao PT vinha do PSDB. Os chamados “tucanos”, com inspiração social-democrata, também reconheciam a desigualdade como um problema estrutural do país. Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, foram implementadas políticas sociais relevantes e iniciativas voltadas a minorias e à redução de vulnerabilidades. A diferença central estava no método: enquanto o PT enfatizava o conflito, o PSDB buscava conciliar ação social com uma relação cooperativa com o mercado, apostando na regulação e no crescimento econômico como motores complementares.

Curiosamente, quando o PT chegou ao poder, especialmente nos governos Lula, houve uma certa convergência prática com essa lógica. Apesar do discurso de enfrentamento, a condução econômica incorporou elementos típicos da social-democracia: políticas sociais robustas combinadas com diálogo com o setor produtivo. Na prática, tratou-se de um modelo híbrido, que buscava equilibrar inclusão social e estabilidade econômica.

Esse arranjo, porém, foi abalado por uma crise política e institucional profunda. O ambiente tornou-se fértil para o surgimento de discursos mais radicais. É nesse contexto que emerge Jair Bolsonaro, mobilizando uma retórica de confronto direto contra a esquerda e contra pautas associadas a minorias. Ao mesmo tempo, a esquerda atravessava um período de fragilidade, marcada por escândalos e pelos efeitos políticos da Operação Lava Jato.

O resultado foi uma reconfiguração do sistema político. O PSDB, historicamente moderado, não conseguiu sustentar protagonismo e acabou perdendo espaço. Parte disso se explica pela ausência de uma base social orgânica mais ampla — o partido sempre contou com quadros qualificados e experiência administrativa, mas menos capilaridade popular. Em contraste, o bolsonarismo estruturou uma base sólida, especialmente entre segmentos evangélicos e do agronegócio, enquanto o PT manteve sua conexão com movimentos sociais e setores populares. O embate deixou de ser apenas entre projetos e passou a ser entre bases mobilizadas.

É nesse cenário que surge a pergunta: qual é o papel do chamado centro democrático? Em teoria, trata-se de um campo político que busca equilíbrio, pragmatismo e uma visão estratégica de país, sem se prender a antagonismos ideológicos rígidos. É importante distinguir esse grupo do chamado “centrão”, que opera majoritariamente por interesses imediatos e negociações de poder, sem um compromisso claro com um projeto nacional.

O centro democrático, por sua vez, se propõe reformista, institucionalista e comprometido com a democracia. Ainda assim, enfrenta um problema estrutural: a dificuldade de construir uma base social consistente. Em um ambiente dominado por identidades políticas fortes, o discurso moderado frequentemente é visto como indefinição — o famoso “em cima do muro”. No entanto, essa posição também permite uma leitura mais ampla do cenário, identificando tanto virtudes quanto limitações de cada lado.

Sob essa ótica, é possível reconhecer que agendas associadas à direita tendem a enfatizar eficiência econômica, estabilidade e geração de oportunidades, enquanto pautas da esquerda se destacam na promoção de inclusão, proteção social e combate à desigualdade. O desafio não está necessariamente em escolher um lado, mas em integrar essas dimensões de forma coerente.

A metáfora do Brasil como uma família ajuda a ilustrar o impasse atual. Quando há conflito entre dois filhos, a solução nem sempre é tomar partido — pode ser necessário reorganizar a dinâmica, redefinir prioridades ou até introduzir uma alternativa que reequilibre o ambiente. No contexto político, isso levanta uma questão inevitável: existe hoje uma liderança capaz de representar, de forma clara e mobilizadora, esse centro democrático?

A direita tem figuras identificáveis, assim como a esquerda. Já o centro ainda busca um rosto que consiga traduzir sua proposta em linguagem política competitiva, com capilaridade social e capacidade de articulação. Sem isso, permanece como uma ideia mais conceitual do que uma força concreta.

O futuro do centro democrático no Brasil depende menos de sua coerência teórica — que já existe — e mais de sua capacidade de se enraizar na sociedade e disputar narrativas em um ambiente altamente polarizado. A pergunta, portanto, não é apenas “o que é o centro?”, mas “quem consegue transformá-lo em projeto político viável?”.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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