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Entrevista | “Erramos e ainda estamos cometendo os mesmos erros”

Por Redação - 17/01/2022

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil ||Infectologista Moara Alves: "Qualquer pessoa infectada pode transmitir".|Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Mesmo a variante Ômicron não tendo o
acometimento de gravidade que as
outras variantes de Covid-19 apresentam, a infectologista Moara Alves acredita que um
número expressivo de casos em curto período de
tempo pode vir a impactar o sistema de saúde, que
já não está adequado para enfrentar uma crise de
aumento de hospitalizações em curto espaço de
tempo. Em entrevista ao TRIBUNA do PLANALTO,
esclarece pontos relacionados à nova cepa, à origem do vírus e também à expectativa em relação
aos novos medicamentos que podem vir a reduzir
sintomas e a carga viral, evitando hospitalização.
Para a infectologista, a Covid-19 pode ter a dinâmica da influenza, no futuro, e a periodicidade da
vacinação ainda será definida com estudos. Sobre
a gestão da pandemia, ela afirma que o Brasil
errou e ainda comete os mesmos erros.

TRIBUNA DO PLANALTO – O que já se pode garantir em relação à variante Ômicron? 

MOARA ALVES – Os estudos ainda são poucos, mas o que temos até o momento é que é uma variante muito mais transmissível do que as anteriores, principalmente comparada à variante Delta, que já era bastante transmissível, ela tem uma capacidade ainda um pouco a mais. Em relação à Delta falava-se que ela tinha uma capacidade de transmissão semelhante à da catapora, que já é bastante transmissível. Essa, ela é próxima ao que o sarampo representa. Provavelmente, veremos casos subindo muito rapidamente nos próximos dias, como aconteceu na Europa e nos Estados Unidos. Em geral, uma pessoa vai transmitir o vírus para outras três ou quatro em um período de tempo muito curto. Essas são as principais características em relação à transmissão. Em relação à gravidade, o que se sabe é que ela tem uma predileção para infectar mais a garganta e, por conta disso, sua atuação no pulmão – para que ocorra uma pneumonia muito grave, por exemplo – é menor do que as anteriores. A Delta era considerada uma variante um pouco mais grave e essa acaba sendo menos grave do que a Delta. Em relação ao número de hospitalizações, temos menor ocorrência, mas existe o fato de que a grande maioria da população onde ocorreram os casos e que foram feitos estudos tinha uma população vacinada ou parcialmente vacinada. Em pessoas não vacinadas ela ainda pode ter gravidade. 

As medidas de precaução são as mesmas ou a Ômicron exige alguma outra medida para evitar o contágio, considerando a alta transmissibilidade da variante?  

Nós consideramos as mesmas, mas elas devem ser de forma efetiva. Não adianta, por exemplo, recomendar distanciamento sendo que estão acontecendo eventos com número grande de pessoas. Isso não vai ser factível. Em relação ao uso de máscaras, hoje se sabe que, idealmente, pela capacidade de transmissão, a máscara que tem a melhor efetividade de filtração e proteção é a PFF 2 ou N95, que são as que os profissionais de saúde usam em ambientes de UTI, ou naqueles pacientes graves ou para tuberculose. A recomendação atual é que, para essa variante, seja utilizado preferencialmente essa máscara, especialmente dentro de ambientes de saúde. Na comunidade, ela pode ser recomendada, mas por ser uma máscara de difícil tolerabilidade – ela é mais bem adaptada, tem uma camada que é um pouco mais grossa – algumas pessoas não toleram. Mas caso vá a lugares de ambiente fechado, não ventilado, aglomerado ou que tenha muitas pessoas com sintomas respiratórios, como um local de testagem ou um hospital, seria fortemente recomendado que se utilizasse preferencialmente essa. A máscara de pano auxilia, principalmente, no caso daquela pessoa que está doente e, usada adequadamente, pode minimizar a dispersão das gotículas. Mas para a pessoa que está se protegendo contra a infecção, já se sabe que a máscara de pano pode não ser tão efetiva se as outras pessoas não estiverem utilizando máscara também. Como as pessoas, nos últimos tempos, voltaram praticamente à vida normal – algumas já nem usam a máscara – se essa pessoa que abandonou o uso de máscara estiver com infecção assintomática, uma pessoa com a máscara de pano tem um risco maior de ser contaminada. Talvez utilizar as máscaras hospitalares (cirúrgicas) ou a PFF2 fosse o mais recomendado. 

Infectologista Moara Alves: “Qualquer pessoa infectada pode transmitir”.

Já está comprovado que a pessoa assintomática transmite o vírus?  

Sim. Qualquer pessoa infectada pode transmitir, principalmente dois a três dias antes de ficar sintomática. 

Quantas variantes estão em circulação no mundo hoje?  

Existe uma denominação específica para vários tipos de variantes. As variantes de preocupação ou de atenção, dependendo de como se traduz do inglês, são a Alfa, Beta, Gama, Delta e, agora, a Ômicron. 

Quando surge uma nova variante que passa a prevalecer, as outras deixam de existir ou elas coexistem?  

O que leva uma a prevalecer sobre a outra é a maior capacidade de infecção. Se a variante não tem a mesma capacidade de infectar uma pessoa ela não vai se propagar de uma pessoa para outra. Por isso predomina a que for mais infectiva naquele contexto. A Alfa, a Beta e a Gama ainda vão existir, mas em menor número porque elas vão conseguir infectar um menor número de pessoas dentro daquele contexto. Nos Estados Unidos, por exemplo, apesar da proporção de Ômicron já ser predominante, mais de 90%, ainda existem casos da Delta e alguns especialistas acham que parte das hospitalizações poderiam ser por uma proporção que ainda pode ser significativa da Delta no país. É muito difícil ter essa proporção real porque não analisamos todas as amostras. Em geral, pegamos uma amostragem de 30 casos em uma cidade como Goiânia, por exemplo. Mas não se sabe individualmente. Nesse momento, identificar a variante não vai ser tão importante para que se demande custos para essa identificação individual. 

Temos um caso de um idosos em Aparecida de Goiânia com Covid-19, gripe e dengue ao mesmo tempo. Uma pessoa com Ômicron fica suscetível a outros tipos de doença?  

Não é bem isso que acontece. Em relação à Ômicron, as alterações genéticas já são todas documentadas e publicadas, as mutações em cada proteína já estão bem definidas. A coinfecção pode acontecer com qualquer doença, viral ou não. E a questão é que, na maioria das vezes, não se faz diagnóstico para saber quais são os vírus. Mas como a Covid-19, a influenza e a dengue têm exames específicos, elas podem ser identificadas simultaneamente. Por ter sintomas muito semelhantes, clinicamente às vezes vai haver uma dificuldade. A infecção pela Ômicron não é o que predispõe às demais. A exposição a pessoas infectadas ou ao mosquito é que leva a mais de uma infecção ao mesmo tempo. 

No futuro, a Covid-19 terá uma dinâmica parecida com a Influenza?  

Provavelmente, a infecção pela Covid-19 vai se tornar uma doença endêmica, com o passar do tempo, porque a maior parte das pessoas já vai ter ou se infectado ou estar vacinada. Durante uma temporada, na qual predomina uma cepa em que as pessoas talvez não tenham a mesma resposta vacinal/imunológica, aquela pode ser a doença daquela vez, daquela época do ano, etc. Nós ainda não temos como saber se a necessidade de vacina em relação à Covid-19 vai ser anual ou não. Como vimos nos últimos tempos, as pessoas vacinadas podem ainda se infectar, mas com uma probabilidade menor de ter doenças graves. E é exatamente isso que acontece com a influenza. As pessoas que se vacinam nem sempre estão com a vacina que vai pegar muito bem a cepa de influenza que está circulando naquele ano. Mas o objetivo é que, pelo menos, elas tenham doenças leves. Por isso que hoje a opção da influenza é vacinar os grupos de risco. Porque as pessoas que vão se infectar, na sua grande maioria, não terão casos com tanta gravidade. Provavelmente, isso também ocorrerá com Covid-19. Se a vacina vai ser anual ou não, qual periodicidade, ainda necessitam mais estudos. 

A vacinação vai chegar à faixa etária de menos de 5 anos?  

Já existem estudos com a CoronaVac para crianças de três a cinco anos. Para crianças menores, lactentes, provavelmente ainda vai demorar um período de tempo maior porque o recrutamento dessa população é mais lento. Nós não conseguimos ter estudos tão grandes em curto espaço de tempo, como ocorreu com adultos na pandemia. Estudos que antes demoravam três, quatro anos para conseguir o número de pessoas necessárias para o estudo, conseguimos em dois, três meses. Por isso que as vacinas tiveram essa liberação mais rápida. Eu acredito que teremos vacinas para essas faixas etárias, mas precisará de mais estudos. Em relação à faixa etária de três a cinco anos, a Anvisa já está inclusive avaliando os papéis relativos aos estudos da CoronaVac. 

Qual a avaliação que a senhora faz do combate à Covid-19 realizado no Brasil?  

Não tendo nenhuma característica política, falando apenas tecnicamente, considero que as decisões que o Brasil tomou em relação à pandemia não foram tomadas no momento correto e na celeridade que era necessária, especialmente em relação às decisões sobre as medidas restritivas, logo no início, aquisição de insumos, aquisição principalmente de testes, que são essenciais para identificação e isolamento – hoje mesmo estamos vivendo uma indisponibilidade porque, ao longo desses dois anos, o Brasil não se preparou para ter insumos suficientes. Eu acho que nós erramos e ainda estamos cometendo os mesmos erros. As políticas não foram as mais adequadas, especialmente em relação à condução e a mistura de questões técnicas com questões políticas. Muitas vezes a decisão sobre recomendar tratamentos que não tinham efetividade nenhuma já comprovada e até nesse momento, no segundo ano da pandemia, ainda existem pessoas que estão prescrevendo medicações que comprovadamente não tem eficácia. 

A senhora vê risco de o sistema de saúde voltar a ter um colapso igual ocorreu no início da pandemia?  

O maior colapso que tivemos foi no final de 2020, em Manaus, e no começo de 2021 no restante do país. Na situação atual podemos, sim, passar por momentos difíceis, especialmente porque muitos dos leitos de hospitais de campanha já foram fechados e reabri-los não é uma tarefa rápida. Precisa de contratação de pessoal, de comprar insumos suficientes para girar leito e, além disso, ainda teremos um aumento muito expressivo do número de casos em um pequeno espaço de tempo. Por mais que essa variante não tenha um acometimento de gravidade, proporcionalmente, tão grande quanto as anteriores, quando há um número expressivo de casos em curto período de tempo, e há possibilidade de pessoas apresentarem casos graves, pode, sim, impactar o sistema de saúde que não está adequado a uma crise de aumento de hospitalizações em curto espaço de tempo. É a mesma frase que usamos lá no começo: vamos achatar a curva. Por quê? Porque se eu tiver um número de casos muito grande num curto período de tempo, mesmo que pouca porcentagem fique doente, é um número considerável. Nós não teremos disponibilidade nem política e acho que nem da população para medidas restritivas neste momento. Eu acredito que não vá ser viável que tanto os governantes quanto a população se adequem a isso de uma forma rápida. A nossa melhor possibilidade é de que tenhamos consciência de que somos os responsáveis pelas transmissões ao nosso redor porque, se eu pego e continuo andando sem máscara, eu estou contaminando os demais. Vamos acabar dependendo dessa conscientização para que não vivamos uma situação ruim como já vimos anteriormente. 

Em meios às diversas teses sobre o surgimento da Covid-19 qual para a senhora é a mais provável? 

Eu gostaria de frisar que essa possibilidade de o vírus ter saído de um laboratório e ter sido liberado não tem nenhuma evidência científica que comprove isso. Temos análise genéticas que comprovam a correlação do primeiro vírus que surgiu com o vírus presente em outras espécies animais, especialmente morcegos, e isso vai acontecer continuamente porque os animais e os humanos sempre têm uma interatividade muito importante e a transmissão de microrganismos entre eles é uma realidade. Isso se deu com as bactérias multirresistentes relacionadas à agropecuária e o uso indiscriminado de antibióticos. Vivemos isso com a gripe que, inicialmente, foi chamada de gripe suína, veio de uma interação na natureza entre o vírus influenza humano e o vírus influenza suíno, que acabaram tendo uma troca de material genético com o surgimento de um novo H1N1 diferente do que já tínhamos sido expostos. Há muita teoria da conspiração em relação a essa questão, mas a coabitação das espécies no nosso mundo, nos ecossistemas, por si só já representa uma possibilidade de surgimento de algum tipo de micro-organismo com uma capacidade de infecção aos humanos um pouco maior do que as anteriores. 

Qual a expectativa do setor médico em relação aos medicamentos para Covid-19 que estão sendo aprovados?  

Eu não tenho como ter uma opinião pessoal porque eles ainda não foram aprovados para uso no Brasil. Nós temos hoje no Brasil o Remdesivir que, das drogas disponíveis, ele tem o impacto de diminuir a gravidade de casos que já estão hospitalizados. Em relação aos novos, que ainda não estão disponíveis no Brasil, Paxlovid e Molnupiravirum, há expectativa de que eles ajam também na forma prévia à hospitalização para diminuir sintomas e, progressivamente, a gravidade. Eu só os conheço por estudos, mas não tenho experiência. Se eles realmente tiverem uma diminuição de sintomas e de carga viral, sendo utilizados nas fases mais precoces da infecção – como nós já utilizamos o Oseltamivir em gripe – já seria de grande valia. Principalmente se houver quebra de patente e a possibilidade de disponibilização mais global deles. Da mesma forma, se não conseguirmos fazer o alcance da vacinação de uma forma global, vamos sempre conviver com possibilidades de novos subtipos que possam se propagar ainda mundialmente. 

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