Em entrevista à Tribuna do Planalto, o diretor regional do Senai e superintendente do Sesi em Goiás, Paulo Vargas, fala sobre os gargalos que limitam o avanço da indústria goiana, como a falta de energia estável e de mão de obra qualificada. Ele alerta que o Estado precisará formar quase meio milhão de profissionais até 2027 para acompanhar o ritmo do crescimento industrial. Vargas defende que a qualificação técnica é a chave para transformar o desenvolvimento econômico em oportunidades reais de emprego e renda, e destaca o papel do Senai na interiorização do ensino e na modernização dos cursos voltados à Indústria 4.0.
Andréia Bahia
TRIBUNA DO PLANALTO – Goiás enfrenta, no processo de atração de empresas, a falta de energia de qualidade e a falta de mão de obra qualificada. Por que o Estado chegou a esse ponto?
PAULO VARGAS – A falta de energia ou o predomínio de um sistema de distribuição muito instável em boa parte do Estado, o tempo prolongado solicitado pela distribuidora para disponibilizar o serviço, especialmente para empreendimentos de médio e grande porte, têm origem em processos estruturais e de gestões anteriores. As constantes mudanças de gestão na concessão do serviço, os modelos do negócio, que se desdobram em plenos de manutenção, investimentos, inserção tecnológica e estudos de demanda para acompanhar o crescimento das atividades produtivas do Estado, foram muito frágeis em anos passados, o que agora exige esforço redobrado para modernização da rede de distribuição e disponibilização da capacidade de fornecimento à altura das demandas.
A indústria goiana tem apresentado crescimento acima da média nacional, registrando alta acumulada de 4,1% em 2024, superior à média nacional de 3%. A oferta de mão de obra evolui na mesma proporção?
A qualificação de trabalhadores para acompanhar as demandas da indústria existe e é ofertada por entidades educacionais. No entanto, estamos passando por uma transição geracional, em que os jovens que estão ingressando no mercado de trabalho têm perfil, sonhos e propósitos de vida muito diferentes daqueles exigidos pelos postos de trabalho atualmente vazios. Exemplo disso é a construção civil, em que pesquisa recente realizada pelo Sinduscon Goiás sinaliza que os jovens e os atuais filhos dos trabalhadores do setor não tem interesse em seguir nessa profissão. Outros aspectos são os impactos da tecnologia nos modelos de negócio, em que há demanda crescente, num processo de transição do sistema produtivo que ainda se adapta às aceleradas transformações. Isso gera um limbo entre o perfil da demanda e a oferta. Há ainda o fato, em que pese a indústria remunerar melhor do que os demais setores, de que a oferta salarial, especialmente de entrada no mercado de trabalho em Goiás, não é atrativa, sobretudo para posições de linha de produção. Isso gera a dificuldade em encontrar profissionais na quantidade demandada.
A Associação Pró-Desenvolvimento Industrial de Goiás (Adial Goiás) estima que mais de 5 mil postos de trabalho estejam disponíveis entre suas 145 empresas associadas. Qual a estimativa do Sesi-Senai?
Não temos um estudo específico de um setor ou de uma associação. No Sistema Indústria, nos guiamos em nossas análises de empregabilidade em dados oficiais, a exemplo do IBGE, cuja pesquisa PNAD aponta que, em setembro, o desemprego no Brasil é inferior a 6%. Em Goiás, no mês de agosto, a taxa ficou em torno de 4,4%. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que temos gente desempregada, há vagas em aberto. Em agosto, foram criadas 3 mil novas vagas de emprego formal em Goiás.
Quais os setores industriais têm mais dificuldade em encontrar mão de obra em Goiás? Goiânia, por exemplo, vive um boom na construção civil. E qual o impacto desse déficit na produção?
O déficit de mão de obra qualificada é atualmente um dos principais desafios da indústria goiana. Setores como construção, metalmecânico, alimentos e bebidas, mineração, automotivo, eletroeletrônico e de energia renovável enfrentam maior dificuldade para preencher vagas técnicas e operacionais. Em Goiânia e na Região Metropolitana, o aquecimento da construção amplia a demanda por profissionais como pedreiros, eletricistas, encanadores, soldadores e técnicos em edificações, mas a oferta de trabalhadores qualificados não acompanha o ritmo das obras. Esse desequilíbrio impacta diretamente a competitividade das empresas. Muitas vezes, indústrias precisam importar mão de obra de outras regiões ou investir em treinamentos internos, o que encarece o processo produtivo e reduz a agilidade da expansão industrial. Por isso, é fundamental o papel do Senai, que vem atuando para mapear as demandas regionais, ofertar cursos alinhados às necessidades do mercado e promover a formação técnica acelerada em áreas de maior carência, como construção, automação e energias renováveis.
Há muita oferta de cursos profissionalizantes por parte das prefeituras, do Estado e da iniciativa privada. Há procura por esses cursos? Quais as regiões de Goiás enfrentam maior escassez de mão de obra? Qual o impacto do Bolsa Família nesse quadro?
Sim, há uma procura crescente por cursos profissionalizantes em Goiás, especialmente em áreas ligadas à indústria, à construção, à agroindústria e aos serviços. A população tem reconhecido que a formação técnica e profissional é um caminho rápido e eficaz para inserção no mercado de trabalho. No entanto, a demanda ainda é desigual entre as regiões. As microrregiões do interior, especialmente no Norte, Nordeste e parte do Oeste goiano, ainda enfrentam maior escassez de mão de obra qualificada, reflexo da distância dos grandes centros, da menor oferta educacional e da limitação de oportunidades locais. Nessas regiões, o Senai tem atuado para interiorizar a formação profissional, por meio de escolas móveis, polos de ensino híbrido e parcerias com prefeituras e indústrias. O objetivo é levar qualificação onde há demanda e preparar os trabalhadores para os novos investimentos que vêm surgindo no interior. Em relação ao Bolsa Família, entendemos que o programa tem papel social relevante, mas não substitui a formação profissional nem o emprego formal. Em alguns casos, a dependência do benefício pode reduzir o incentivo à busca por qualificação e inserção no mercado, especialmente onde faltam oportunidades. Por isso, políticas como o Bolsa Família devem vir acompanhadas de ações integradas de capacitação, empregabilidade e desenvolvimento regional, como as que o Senai e o Sistema Fieg têm implementado em todo o Estado, para transformar o benefício em um trampolim para a autonomia e o trabalho digno.
De acordo com o Mapa do Trabalho Industrial, estudo realizado pelo Observatório Nacional da Indústria, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Estado precisará formar e requalificar 487 mil profissionais entre 2025 e 2027 para atender às exigências das indústrias goianas. De qual formação estamos falando? Inclui ensino fundamental ou apenas técnico? Quais as iniciativas foram e estão sendo implementadas para qualificar esse contingente?
Esse número expressivo inclui diferentes níveis de formação profissional, desde a qualificação básica e continuada, voltada a trabalhadores com ensino fundamental e médio, até os cursos técnicos e tecnológicos, direcionados a funções mais especializadas. Ou seja, trata-se de um esforço abrangente que envolve tanto a formação inicial de novos profissionais quanto a requalificação daqueles que já atuam na indústria e precisam se atualizar diante das novas exigências tecnológicas e produtivas. Para atender a essa demanda, o Senai Goiás tem adotado uma série de iniciativas estratégicas. Entre elas, destacam-se a ampliação da rede de unidades e polos de educação a distância, o fortalecimento da formação técnica em áreas emergentes – como automação, energias renováveis, mecatrônica, tecnologia da informação e alimentos – e a oferta de cursos de curta duração voltados à requalificação rápida de profissionais em atividade.
Ao longo de sua carreira, o senhor consolidou uma política de parcerias com indústrias e prefeituras. Essa estratégia foi importante para a expansão e modernização do Senai em Goiás?
As parcerias com indústrias e prefeituras foram decisivas para ampliar o alcance e a relevância do Senai Goiás. Essa estratégia permitiu que a instituição se aproximasse das realidades locais, identificasse demandas específicas e estruturasse soluções sob medida para cada região. Assim, foi possível implantar unidades, modernizar estruturas e interiorizar o ensino técnico, levando educação profissional de qualidade a municípios que antes não tinham acesso a esse tipo de formação. No diálogo com o setor produtivo, as indústrias se tornaram parceiras estratégicas na construção dos currículos, na oferta de estágios e na instalação de laboratórios de última geração. Essa integração fortaleceu o elo entre escola e empresa, garantindo que os cursos do Senai estejam sempre alinhados às exigências do mercado e às tecnologias mais recentes. Graças a essa política de cooperação, o Senai Goiás consolidou-se como referência nacional em inovação, qualidade de ensino e empregabilidade, contribuindo diretamente para o desenvolvimento industrial do Estado.
Na sua gestão, a formação técnica de nível médio ganhou grande impulso, passando de poucas habilitações nos anos 90 para mais de 20 cursos técnicos atualmente. Qual a importância da formação técnica para a indústria goiana e como o Senai tem se adaptado às novas demandas do mercado?
A formação técnica tem papel fundamental no desenvolvimento da indústria goiana, ao garantir a presença de profissionais qualificados, produtivos e preparados para os desafios tecnológicos do setor. O crescimento industrial que o Estado vem experimentando só é sustentável quando acompanhado de uma base sólida de trabalhadores técnicos, capazes de transformar conhecimento em inovação e eficiência dentro das empresas. Nos últimos anos, o Senai Goiás ampliou e diversificou significativamente sua oferta de cursos, respondendo às novas demandas do mercado e às transformações da Indústria 4.0. Hoje, a instituição forma profissionais em áreas estratégicas como automação, mecatrônica, energias renováveis, tecnologia da informação, alimentos, química e logística, entre outras. Cada curso é pensado a partir das necessidades reais da indústria, garantindo formação prática, atual e alinhada à realidade produtiva. Além disso, o Senai investe fortemente na modernização dos laboratórios, na atualização das metodologias de ensino e na qualificação dos instrutores, incorporando tecnologias digitais e metodologias ativas de aprendizagem.
O Senai tem investido em inovação, com a transformação de Centros de Formação Profissional em Institutos de Tecnologia e a oferta de cursos a distância. Como o senhor vê o futuro da educação profissional com as novas tecnologias?
O futuro da educação profissional será cada vez mais conectado à inovação, à tecnologia e à personalização da aprendizagem. As transformações da Indústria 4.0 exigem profissionais capazes de lidar com automação, inteligência artificial, análise de dados e sustentabilidade – e o Senai tem se preparado para isso, modernizando seus espaços, seus currículos e suas metodologias de ensino. A estratégia representa um salto qualitativo: as unidades deixam de ser apenas espaços de capacitação e passam a atuar como centros de pesquisa aplicada, inovação e desenvolvimento industrial, aproximando ainda mais a educação às demandas reais do setor produtivo.
O Senai chegou a Goiás em um momento em que o Estado era considerado uma “periferia” do Brasil. Qual foi o impacto da chegada da primeira escola do Senai em Anápolis para o desenvolvimento industrial da região e do Estado como um todo?
A chegada do Senai a Goiás, com a inauguração da primeira escola em Anápolis, marcou um divisor de águas no desenvolvimento econômico e social do Estado. Naquele período, Goiás ainda possuía uma economia essencialmente agrícola e carecia de mão de obra qualificada para sustentar o processo de industrialização que começava a despontar. A presença do Senai trouxe educação técnica de qualidade, formação profissional estruturada e novas perspectivas de futuro para milhares de jovens, criando as bases para o surgimento de um parque industrial mais sólido e competitivo. Em Anápolis, a escola se tornou um polo de formação e inovação, impulsionando a criação de indústrias locais e preparando trabalhadores para atender às novas demandas produtivas. O município, que já tinha vocação logística e estratégica, consolidou-se como um dos principais polos industriais do Centro-Oeste, especialmente nas áreas farmacêutica, alimentícia e automobilística. De forma mais ampla, o Senai contribuiu para mudar o perfil socioeconômico de Goiás, promovendo o crescimento sustentável e a valorização do trabalho técnico e industrial. A partir de Anápolis, iniciou-se um movimento de interiorização da educação profissional que hoje alcança todas as regiões do Estado, reafirmando o papel do Senai como agente transformador do desenvolvimento regional.
Hoje, o Senai está presente fisicamente em 12 municípios goianos e atende a cerca de 80 municípios com suas ações. Como se deu esse processo de interiorização e qual a importância de levar a qualificação profissional para todas as regiões de Goiás?
O processo de interiorização do Senai é resultado de uma estratégia planejada para aproximar a educação profissional das necessidades regionais da indústria. A instituição vem ampliando gradualmente sua presença por meio da instalação de unidades fixas, escolas móveis e polos de educação a distância, garantindo que mesmo os municípios mais distantes tenham acesso à formação técnica e tecnológica de qualidade. Essa expansão tem sido guiada por estudos de vocação econômica e demandas locais, assegurando que cada curso ofertado esteja alinhado às características produtivas de cada região.
Levar a educação profissional ao interior significa promover o desenvolvimento regional equilibrado, criando oportunidades de emprego e fortalecendo as cadeias produtivas locais. Quando o Senai se instala em um município, ele não apenas forma profissionais, mas também estimula a inovação, atrai novos investimentos e melhora a competitividade das empresas.
Além disso, essa interiorização cumpre um papel social relevante: reduz as desigualdades, evita o êxodo de jovens para os grandes centros e constrói caminhos de ascensão profissional dentro das próprias comunidades. É a educação profissional atuando como vetor de transformação econômica e social em todo o Estado.
A Fieg, o Sesi e o Senai estão investindo R$ 1 bilhão na modernização e expansão da rede de ensino até 2026. Quais são os principais projetos e como esses investimentos irão impactar a indústria e a população goiana?
Esse investimento histórico representa um marco para o Sesi e Senai em Goiás. A iniciativa contempla a modernização das unidades existentes, a construção de novas escolas e a ampliação da oferta de cursos da educação básica, de cursos técnicos, superiores e de qualificação rápida, alinhados às demandas do mercado. O foco está em fortalecer a presença do Senai e do Sesi em todas as regiões do Estado, ampliando o acesso à educação de qualidade e à formação voltada à inovação e à tecnologia.
O impacto desses investimentos será profundo. Para a indústria, significará aumentar a competitividade, reduzir a escassez de mão de obra qualificada e impulsionar a inovação. Para a população goiana, representará mais oportunidades de emprego, renda e desenvolvimento regional, consolidando Goiás como um dos Estados mais preparados para os desafios tecnológicos e produtivos do futuro.
O Senai Goiás tem se destacado nacionalmente, sempre nos primeiros lugares no ranking de desempenho do Departamento Nacional. A que o senhor atribui esses resultados e qual o segredo para se manter no topo?
O desempenho expressivo do Senai Goiás é fruto de uma gestão moderna e estratégica, pautada em indicadores de desempenho, metas bem definidas e um planejamento integrado. A instituição tem buscado otimizar recursos, elevar a produtividade e fortalecer a transparência institucional, alinhando suas ações às diretrizes da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do Sistema Fieg. Além disso, o Senai mantém diálogo constante com as indústrias goianas, ouvindo suas necessidades e ajustando cursos, laboratórios e metodologias de ensino. Essa aproximação assegura uma formação pertinente, prática e com impacto direto na empregabilidade dos egressos. Como resultado, há maior inserção dos alunos no mercado de trabalho e retorno efetivo para as empresas parceiras. Com a antecipação das transformações da Indústria 4.0, o Senai Goiás modernizou seus centros de formação e laboratórios, incorporando tecnologias de ponta como automação, robótica, manufatura aditiva, inteligência artificial e sistemas de simulação. Porém, ressaltamos que nenhum resultado institucional se sustenta sem equipes comprometidas e qualificadas. O sucesso do Senai Goiás está fortemente ligado à formação continuada dos instrutores, à valorização dos colaboradores e à consolidação de uma cultura organizacional de excelência.
Quais são os maiores desafios e oportunidades para a indústria goiana nos próximos anos e como o Senai está se preparando para formar os profissionais do futuro?
A indústria goiana vive um momento de expansão, impulsionado pelo agronegócio, pela diversificação produtiva e pela chegada de novas tecnologias. No entanto, enfrenta desafios importantes, como a falta de infraestrutura adequada, a necessidade de energia de qualidade e, principalmente, a escassez de mão de obra qualificada. A rápida transformação digital e a pressão por sustentabilidade também exigem que as empresas e os trabalhadores se reinventem continuamente. Por outro lado, as oportunidades são expressivas. Goiás está estrategicamente localizado no centro do País, tem uma base agroindustrial sólida e um ecossistema de inovação em crescimento. Com investimentos em energias renováveis, biotecnologia e automação, o Estado tem potencial para se tornar um polo nacional de indústria verde e tecnológica, desde que consiga alinhar crescimento econômico, inovação e qualificação profissional.
Nesse cenário, o Senai Goiás tem papel decisivo, ao modernizar seus laboratórios, incorporar tecnologias da Indústria 4.0 e oferecer formações que unem teoria e prática, preparar profissionais para operar em ambientes produtivos digitais e sustentáveis.














