Morreu na madrugada dessa segunda -feira, 29, em Goiânia, Nestor Pereira da Mota, aos 86 anos. Vítima de insuficiência respiratória após contrair uma pneumonia, o fundador do Instituto Goiano de Yoga dedicou quase 50 anos de sua vida a plantar no cerrado uma filosofia que, segundo ele, não era onda, era oceano. O velório está previsto para acontecer na terça-feira, no Cemitério Parque Memorial, com a presença de amigos e familiares. Ainda não há definição sobre o horário do sepultamento, que aguardará a presença de um dos filhos que trabalha na embaixada brasileira na França.
Licenciado em Educação Física, noviço no convento dos frades dominicanos em 1966, Nestor cursou dois anos de Filosofia pelo Instituto de Formação Teológica de São Paulo. Mas foi nos porões da ditadura que sua verdadeira jornada começou. Preso político no Presídio Tiradentes, praticou yoga também entre as grades, usando seu conhecimento da prática para levantar a moral e amenizar o cotidiano de colegas, entre eles Frei Tito Alencar, Frei Betto e outros, com quem dividiu a cela. Nestor é citado no livro Batismo de Sangue, de Frei Betto, dirigido por Helvécio Ratton, e levado às telas, em 2007.
Em 1971, fundou o Instituto Goiano de Yoga, seguindo os preceitos científicos do Instituto de Pesquisas Kavalayadham, da Índia, em diálogo com pesquisadores brasileiros. A serenidade forjada nos anos de chumbo lhe rendeu uma alcunha que jamais buscou, mas que carregou com dignidade: Gandhi do Cerrado, batizado assim por frei Tito Alencar — amigo dos tempos de seminário e um dos ícones da resistência à tortura — e trazido a público em sua biografia, escrita pelas jornalistas Dalvina Nogueira, com colaboração de Carla Lacerda em 2018.
Do alto de sua experiência, Nestor Mota via a yoga como um instrumento de autolibertação. “É não ficar sofrendo por desejos”, dizia. Enquanto o mundo redescobria a prática oriental como antídoto para os males contemporâneos, ele já alertava: o executivo moderno está sendo executado pela própria rotina. “Cuida tanto das obrigações que se negligencia nos cuidados pessoais, até parar compulsoriamente, pelo esgotamento, depressão e pânico.” Para ele, os benefícios da yoga iam muito além de músculos flexíveis e respiração melhor: tratava-se de consciência ética, harmonização do corpo e da mente e um novo olhar sobre a vida.
Ao longo de cinco décadas, Nestor levou a yoga a todos os cantos: repartições públicas como a Caixa Econômica Federal, empresas, escolas — onde ajudava vestibulandos a enfrentar o estresse pré-vestibular —, organizações comunitárias e executivos em busca de gerenciar a pressão corporativa. Foi presidente e organizador do VIII Congresso Latino-Americano de Yoga. Mais de cem estilos de yoga existem hoje, mas todos, lembrava, descendem do método clássico Hatha Yoga, que reúne os asanas, as posturas que ensinou com disciplina e generosidade por quase meio século.
Nestor Pereira da Mota nasceu em Porto Nacional, Tocantins, em 26 de fevereiro de 1940. Deixa a esposa e companheira de jornada Lyra Galvão e Silva Mota, com quem trabalhou lado a lado, os filhos Alano Mota e Nestor Filho, além de quatro netos. O Gandhi do Cerrado partiu. Mas o oceano que ele ajudou a revelar, esse continua aberto a quem quiser mergulhar.














