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O país que mata

O episódio mostra o colapso moral e institucional de um Estado que, incapaz de promover segurança e cidadania, opta reiteradamente pelo extermínio como política pública


Luciano Cardoso Por Luciano Cardoso em 31/10/2025 - 07:42

chacina Rio
O país se habituou à morte e naturalizou o inaceitável (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

No último 28 de outubro de 2025, o Brasil assistiu, atônito, à maior chacina da história do Rio de Janeiro. A megaoperação policial realizada nos Complexos da Penha e do Alemão resultou em mais de 120 mortos, superando até o Massacre do Carandiru, ocorrido em São Paulo em 1992, quando 111 detentos foram executados pela Polícia Militar. O episódio de 2025 não representa apenas um recorde trágico, mas evidencia o colapso moral e institucional de um Estado que, incapaz de promover segurança e cidadania, opta reiteradamente pelo extermínio como política pública.

A tragédia do dia 28 de outubro não é um fato isolado. Insere-se em um padrão histórico de violência estatal que atravessa décadas e regiões. No Rio de Janeiro, a lista é extensa e vergonhosa: a Chacina da Candelária, em 1993, quando oito crianças foram assassinadas por policiais; a Chacina da Baixada Fluminense, em 2005, com trinta mortos; a Chacina do Borel, em 1997, com dezessete vítimas; e a operação do Jacarezinho, em 2021, com vinte e oito mortos, ocorrida durante a vigência da ADPF das Favelas, que restringia operações policiais em comunidades durante a pandemia. Cada episódio seguiu o mesmo roteiro de horror: ações letais, investigações morosas, impunidade garantida e o esquecimento gradual pela sociedade, já anestesiada pela rotina da barbárie.

O Massacre do Carandiru, em outubro de 1992, permanece como o símbolo maior dessa lógica perversa. Cento e onze presos foram mortos e, mais de três décadas depois, as condenações de policiais foram anuladas, sem qualquer responsabilização efetiva. No Rio, as investigações sobre a chacina de 2025 já nascem sob o mesmo estigma da descrença institucional e da falta de punição. O Estado, que deveria zelar pela vida, continua legitimando a morte como instrumento de controle social.

Estudos sociológicos apontam que a aparente passividade do brasileiro diante dessas chacinas é produto da banalização da violência e da desigualdade estrutural. No país, uma média de 106 pessoas são assassinadas por dia, o que transforma tragédias coletivas em parte da rotina urbana. A repetição de cenas de horror gera uma fadiga da compaixão, e a indiferença passa a ser mecanismo de autopreservação. Essa banalização da morte está sustentada em fatores de ordem social, racial e simbólica representadas pela segregação espacial que concentra a violência nas periferias, a estigmatização das vítimas como criminosos, a cultura punitivista que legitima o uso letal da força e a espetacularização midiática da tragédia. O resultado é uma sociedade que já não se indigna, acostumada a ver corpos tombando sem se comover.

Embora o Rio de Janeiro seja o retrato mais emblemático do colapso da segurança pública, a violência urbana não é exclusividade fluminense. Cenas semelhantes se repetem em outras capitais, como Fortaleza, Recife e Manaus, onde o avanço das facções criminosas e a falência das políticas de combate ao crime organizado reproduzem o mesmo ciclo de terror.

Em Fortaleza, a guerra entre facções como Comando Vermelho, PCC e GDE transformou bairros inteiros em campos de batalha. Em Pernambuco, a disputa por pontos de drogas e controle territorial elevou os índices de homicídio. Em Manaus, o massacre no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em 2017, com 56 mortos, revelou o domínio das facções sobre o sistema prisional e a impotência do Estado. O padrão é o mesmo, territórios abandonados, comunidades sitiadas e o poder público respondendo com operações bélicas que apenas alimentam o ciclo da violência.

O caso do Rio de Janeiro é emblemático também pela exposição da falência do modelo de segurança pública e pelo uso político da morte. A chamada “Operação Contenção” mobilizou 2,5 mil policiais, 32 blindados, drones e helicópteros, mas não conseguiu prender o principal alvo, o traficante Edgar Alves de Andrade, líder do Comando Vermelho. O saldo foi devastador: 128 mortos, escolas fechadas, crianças em pânico e corpos empilhados na Praça São Lucas. Em vez de indignação, o governador comemorou o resultado da ação, como se a matança fosse uma vitória militar. Especialistas apontam que esse discurso de guerra, além de ineficaz, serve como instrumento político-eleitoral, convertendo sangue em capital simbólico.

A ironia atinge níveis grotescos quando se observa que a operação foi justificada como cumprimento das determinações do Supremo Tribunal Federal na ADPF das Favelas, decisão que, originalmente, buscava restringir o uso abusivo da força policial em comunidades. A medida que pretendia proteger vidas acabou sendo invocada para legitimar uma nova chacina.

A inversão de valores é a prova mais contundente da degeneração institucional que transforma o Estado em agente do próprio caos que deveria combater. Do Carandiru ao Alemão, passando pela Candelária, Jacarezinho e Baixada Fluminense, de Fortaleza a Manaus, o Brasil construiu uma memória de sangue e esquecimento. Cada massacre é seguido por manchetes efêmeras, promessas de investigação e discursos vazios.

Como em outras tragédias nacionais, o massacre de outubro de 2025 no Rio de Janeiro certamente reacenderá o clamor por novas leis, propostas sob o impacto da comoção e embaladas pelo discurso da “tolerância zero”. Entretanto, essa reação legislativa imediatista tem se mostrado historicamente ineficaz, pois criar normas em meio à emoção coletiva é prática recorrente de um sistema político que busca capitalizar a dor alheia e transformar luto em palco para ganhos eleitorais. As chamadas “leis de ocasião” nascem para atender à opinião pública momentânea, mas não enfrentam as causas estruturais da violência — como a desigualdade social, o racismo institucional, a ausência de políticas de inclusão e a falência do sistema de segurança pública. O resultado é um arcabouço legal cada vez mais punitivista, simbólico e inócuo, que pune as consequências sem jamais atacar as origens do problema.

Depois, resta o silêncio. O país se habituou à morte e naturalizou o inaceitável. A vida nas periferias vale menos, e a impunidade se tornou regra. O Estado, ao perder o monopólio legítimo da força, exerce apenas a violência sem legitimidade, transformando a segurança pública em campo de guerra e os cidadãos pobres em vítimas colaterais de uma política falida.

A chacina de outubro de 2025 no Rio de Janeiro não é um acidente, tampouco um ponto fora da curva. É o reflexo de um país em colapso moral, em que a desigualdade social, o racismo estrutural e a omissão institucional se combinam para perpetuar a barbárie. Enquanto a sociedade continuar a naturalizar a morte e o Estado insistir em políticas de extermínio, travestidas de combate ao crime, o Brasil seguirá contabilizando corpos — e perdendo, dia após dia, a sua própria humanidade.

 

Luciano Cardoso

É advogado inscrito na OAB/GO. Membro do Instituto Goiano do Direito do Trabalho. Membro e Conselheiro Fiscal da Associação Goiana da Advocacia Trabalhista - AGATRA. Membro da Comissão de Direito Empresarial da OAB/GO. Chefe do Departamento Jurídico da Companhia de Urbanização de Goiânia - COMURG.
E-mail: [email protected].

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