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De formas diferentes, os concorrentes ao Oscar 2026 falam sobre um mesmo tema: paternidade


Danilo Santana Por Danilo Santana em 20/02/2026 - 12:09

Valor Sentimental, novo filme de Joachim Trier, fala sobre as consequências da ausência paternal (Imagem: Sentimental Value, 2025)

Dentre os diversos títulos que se destacam na disputa por uma estatueta do Oscar 2026, uma característica em comum chama atenção: todos parecem, de alguma forma, tatear a mesma temática – a paternidade. É uma coincidência que parece planejada para que todas essas obras estivessem juntas neste ano, na mesma disputa pelo grande palco do cinema mundial.  É impossível desassociar a paternidade do DNA de filmes como Marty Supreme, Hamnet, O Agente Secreto, Sonhos de Trem, Uma Batalha Após a Outra e, claro, Valor Sentimental.

Logo de cara é possível enxergar dois extremos. Marty Supreme e Valor Sentimental. Em uma ponta, um jovem obcecado por seus objetivos, inconsequente de certa maneira, desagua em lágrimas quando tem que encarar o inevitável e talvez seu maior desafio até então – o nascimento de seu filho. Por outro lado, em Valor Sentimental, vemos um pai já estabelecido, porém ainda em crise. A ausência gerada por uma vida obcecado por seu trabalho lhe rendeu filhas com diversas rachaduras emocionais, o que causa um distanciamento natural entre eles.

Marty Supreme é o primeiro grande projeto de Josh Safdie após encerramento da parceria com seu irmão, Benny Safdie (Imagem: Frame de Marty Supreme, 2025)

A obsessão de Marty Supreme e Valor Sentimental

Marty Supreme é um grito de liberdade de Josh Safdie. Aclamado pela parceria com seu irmão, Benny Safdie, que rendeu bons filmes como Uncut Gems (2019) e Good Time (2017), os irmãos decidiram seguir voo solo. Por parte de Josh, o primeiro resultado é Marty Supreme, longa de época que acompanha o destemido tenista de mesa Marty Mauser, personagem ligeiramente inspirado por Marty Reisman, que faleceu em 2012. No filme, Mauser, interpretado por Timothée Chalamet (Call Me by Your Name, 2017), tenta a todo custo alavancar sua carreira como tenista de mesa, enquanto se divide em uma rotina novaiorquina frenética.

O filme inteiro gira em torno de uma rivalidade que, de certa forma, só acontece entre Mauser e ele mesmo. Testemunhamos o confronto individual de Mauser de enxergar que, talvez, sonhar e ser muito bom não basta. Talvez ele só esteja buscando a coisa errada.

Por outro lado, o belíssimo Valor Sentimental de Joachim Trier (A Pior Pessoa do Mundo, 2023) nos mostra o resultado do que facilmente poderia ser o destino da obsessão de Marty Mauser. Aqui, Stellan Skarsgård encarna um diretor de cinema que, após anos de trabalho e um falecimento na família, decide abordar as diversas fissuras entre ele e suas duas filhas.

Em entrevista ao Variety, o filho de Stellan, Alexander Skarsgård chega a brincar que o pai “interpreta a si mesmo”. Stellan não desenvolve o assunto, mas é inevitável fazer essa comparação. Inclusive por conta do momento em que o filme foi concebido. Stellan, ator sueco veterano e mundialmente conhecido por seu currículo extenso e irreverência, sofreu um derrame em 2022, o que prejudiciou sua fala e memória. Ao receber o projeto de Trier, o ator não sabia se daria conta do papel. Entretanto, o desafio, agora superado, pode lhe render um Oscar.

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Sonhos de Trem recebe a melhor performance da carreira de John Edgerton (Imagem: Train Dreams, 2025)

O luto insuperável de Hamnet, Sonhos de Trem e O Agente Secreto

No entanto, por outro prisma, O Agente Secreto, Hamnet e Sonhos de Trem acrescentam o luto nesta discussão. No filme de Kléber Mendonça Filho, Wagner Moura interpreta ambos papeis – pai e filho. O resultado da história toda de sua luta e perseguição culmina, anos depois em um filho oco de memória e ausência paternal.

Hamnet é o resultado de um projeto incrível comandado por Chloé Zhao (Nomadland, 2020). A proposta é imaginar os dias de William Shakespeare desde a concepção de seus filhos, passando pela primeira infância deles até o padecimento de uma das crianças. A história, até famosa entre os fãs do escritor inglês, só recebeu a devida atenção agora pelos olhos de Zhao. Aqui vemos um Shakespeare como marido e um pai enlutado.

Luto esse que desenha o segundo e terceiro ato de Sonhos de Trem, talvez o filme mais tímido em divulgação dentre os presentes na competição por melhor filme da temporada. O longa é o primeiro grande projeto do jovem diretor estadunidense Clint Bentley e narra a vida e morte de um pai dedicado, também, ao trabalho. Joel Edgerton (O Presente, 2015) é o protagonista e entrega aqui a melhor performance de sua carreira. Acostumado a incorporar pais, Edgerton nos apresenta Robert Grainier, um lenhador que vê o mesmo trabalho que lhe deu terra, casa e estrutura familiar, tirar isso tudo dele.

One Battle After Another (2025) – Ending Scene
Cena de Uma Batalha Após a Outra (2025)

Leonardo DiCaprio interpreta um pai solo

Entre outras coisas mais protuberantes, Uma Batalha Após a Outra, curiosamente, chega a abordar um assunto pouco falado: a paternidade socioafetiva e a paternidade solo.

Leonardo DiCaprio, ao contrário dos outros pais, é aficionado por sua cria. Em crise com a própria filha, aqui o protagonista chega a irritar o espectador por sua falta de propósito na vida. Se outros protagonistas são obcecados por seus objetivos, ausentando-se do papel paterno, o personagem de Leonardo DiCaprio vai na contramão e abandonada sua antiga vida para cuidar sozinho de uma criança. Com o desenrolar da trama, entendemos por que e como isso aconteceu.

Similaridade temática é inédita nas disputas recentes do Oscar

O exercício de imaginar se isso se aplicaria a outras disputas foi feito, é claro. No entanto, observando o histórico recente dos últimos cinco anos, em nenhum momento foi possível enxergar tamanha similaridade temática entre os principais candidatos as estatuetas do cinema.

Entre tudo isso, por mais piegas que possa soar, o extrato que fica dos principais filmes desta temporada parece se resumir em um único conselho: Nada, independente do seu objetivo pessoal e da sua obsessão, será maior que seus filhos. Na condição humana, este parece ser o maior desafio da nossa espécie – nos desafiar a encontrar nosso caminho, enquanto tentamos perpetuar nossa existência através de descendentes que ora dependem da gente, ora farão seu próprio caminho.

Leia mais: O Agente Secreto dialoga sobre gentrificação do cinema, da identidade e da memória de um país inteiro

Danilo Santana

Jornalista e produtor audiovisual baseado em São Paulo. Escreve sobre cultura e esporte.

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