Não existe um preço único para colocar um candidato ao Senado nas ruas, mas é possível visualizar o tamanho da conta. Em Goiás, cada uma das 11 candidaturas de 2026 pode gastar até R$ 4.447.201,54. Se todas alcançassem o teto, a disputa pelas duas vagas movimentaria R$ 48.919.216,94. Em outra escala, esse montante bancaria cerca de 307 moradias do programa estadual Casas a Custo Zero, cujo investimento médio é de R$ 159,5 mil por unidade.
A comparação não significa que o dinheiro tenha sido retirado da habitação; apenas traduz uma cifra que, sozinha, pouco diz. E essa conta, felizmente, não é custo automático aos cofres públicos. O teto é somente a fronteira legal. A campanha pode receber fundos públicos, doações de pessoas físicas, financiamento coletivo, recursos próprios e bens ou serviços estimáveis. A prestação reúne o titular e dois suplentes.
O retrato efetivo é menor, embora expressivo e profundamente desigual. Levantamento da Tribuna do Planalto no DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que os 11 candidatos declaravam, até 2 de setembro, R$ 9.473.093,39 em receitas. Desse total, R$ 8.117.466,94 vieram do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), abastecido pelo Tesouro. O valor público equivale ao custo médio de aproximadamente 51 casas do programa estadual.
Assim, 85,7% do dinheiro nas contas tinha origem pública. Os outros R$ 1.355.626,45 correspondiam a doações privadas, recursos próprios e arrecadação coletiva. Todos aparecem na mesma urna e obedecem ao mesmo teto, mas não largam do mesmo ponto.
Quatro candidaturas concentravam todo o FEFC declarado. Gracinha Caiado (União Brasil) liderava com receita de R$ 3.797.466,94, dos quais R$ 3.607.466,94 repassados pela direção nacional do partido. Gustavo Mendanha (PRD) registrava R$ 2,52 milhões, sendo R$ 2,5 milhões do fundo. Dr. Zacharias Calil (MDB) tinha R$ 1,87 milhão, com R$ 1,85 milhão público. Cintia Dias (PSOL) declarava R$ 165 mil, dos quais R$ 160 mil do FEFC.
No outro extremo, Gustavo Gayer (PL) reunia R$ 990.526,45 sem transferência do Fundo Eleitoral. A campanha informava R$ 761.008,15 em doações de pessoas físicas, R$ 133,91 mil em recursos próprios e R$ 95.608,30 por financiamento coletivo. Os cinco maiores doadores diretos somavam R$ 637.045,50. Entre eles estavam Rodrigo Gonçalves dos Santos, com R$ 180 mil, e Leonardo Cairo Rizzo, primeiro suplente da chapa, com R$ 130.110.
Vanderlan Cardoso (PSD) declarou R$ 100 mil próprios. Ernesto Roller (PSDB) registrou R$ 30,1 mil de recursos próprios e apoiadores. Guilherme Darques (UP), Isaura Lemos (PSB), Iure de Castro (Cidadania) e Oséias Varão (PL) apareciam sem receita. Zero não significa campanha sem custo: partidos podem fornecer pessoal, material e produção audiovisual como doações estimáveis.
Apesar disso, o dinheiro disponível não é sinônimo de dinheiro gasto. Até a consulta, Gayer havia contratado R$ 284.478,52 e Mendanha, R$ 14.235. Os demais não exibiam despesas. Há defasagem entre os relatórios financeiros e o detalhamento posterior das contas. Ainda assim, milhões depositados em candidaturas com gasto zero exigem acompanhamento permanente.
O poder decisório está nas cúpulas. O FEFC nacional soma R$ 4.961.519.777. O PL possui a maior cota, R$ 881,7 milhões; o União Brasil, cerca de R$ 526,2 milhões. Isso não garante divisão igual entre estados ou candidatos. Cada direção define critérios, respeitadas as reservas para mulheres, pessoas negras e indígenas. Em Goiás, Gracinha recebeu mais de R$ 3,6 milhões públicos, enquanto Gayer e Oséias, ambos do PL, não tinham recebido FEFC.
A concentração é legal, mas merece crítica. O modelo afasta doações empresariais e permite fiscalizar a origem dos recursos. Ao mesmo tempo, entrega às direções a escolha de quais candidaturas terão equipe profissional, presença estadual e propaganda constante. O teto cria aparência de equilíbrio; a distribuição partidária produz competidores abastecidos de maneira completamente diferente.
As chapas também não operam isoladamente. Cintia e Isaura integram o grupo Goiás Pode Mais; Ernesto e Iure, Goiás de Verdade; Gayer e Oséias, Goiás que Cresce. Eventos, equipes jurídicas, contabilidade, transporte, pesquisas e conteúdo podem ser compartilhados com candidatos ao governo e a deputado. Quando o benefício é identificável, deve entrar no limite da candidatura favorecida. Custos genéricos permanecem nas contas partidárias, dificultando calcular quanto a máquina eleitoral realmente investe em cada concorrente ao Senado.
As campanhas anteriores mostram que dinheiro ajuda, mas não produz resultado automático. Vanderlan, eleito senador em 2018, contratou R$ 3.016.193,45 e recebeu R$ 822.040 do FEFC. Em 2022, Zacharias gastou R$ 2.249.732,73 para deputado federal, com R$ 2 milhões públicos. Cintia gastou R$ 236.335,92 na disputa ao governo, dos quais R$ 213.285,92 vieram do fundo. Gayer chegou à Câmara com apenas R$ 121.916,83 em despesas e nenhum FEFC, enquanto Mendanha contratou R$ 6.806.508,82 na campanha ao governo e terminou derrotado.
O digital também alterou a escala. Gayer já destinou R$ 150 mil ao impulsionamento no Facebook, 52,7% de suas despesas contratadas. É quase o custo médio de uma casa popular do programa estadual. Mendanha declarou R$ 14 mil nessa rubrica. Em 2022, Gayer havia investido apenas R$ 7.630. A internet reduz a dependência de grandes estruturas de rua, mas exige produção, equipe, monitoramento e compra de audiência. Propaganda paga on-line só é permitida por impulsionamento identificado; disparos massivos irregulares são proibidos.
Vale lembrar que pessoas físicas podem doar até 10% da renda bruta do ano anterior, enquanto o autofinanciamento está limitado a 10% do teto da candidatura — R$ 444.720,15 no Senado goiano. Recursos públicos não utilizados devem retornar ao Tesouro. Portanto, o custo ao contribuinte não é de R$ 4,4 milhões por candidato. Hoje, ele é mensurável pelos R$ 8,1 milhões transferidos, além de estruturas que podem ser custeadas pelo Fundo Partidário e de benefícios compartilhados.
Há ainda um custo público que não aparece na conta individual: o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão gera compensação fiscal às emissoras, mas o benefício é dividido entre partidos e coligações, sem preço atribuído a cada nome. O total somente será conhecido nas contas definitivas. Até lá, a melhor pergunta talvez não seja só quanto custa um candidato, mas quem decide quanto cada candidatura pode valer e qual o reflexo disso na eleição democrática.











