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Reeleição de Lula coloca educação diante do desafio de transformar programas em aprendizagem

Continuidade de políticas públicas é vista como oportunidade, mas financiamento, formação de professores e redução das desigualdades estão entre as prioridades para o próximo mandato, segundo especialistas.


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 08/11/2026 - 13:15

Reeleição de Lula mantém programas educacionais, mas financiamento, aprendizagem e educação integral até 2030 desafiam o próximo governo (Foto: Ricardo Stuckert)

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abre caminho para a continuidade de políticas educacionais, mas também aumenta a cobrança por resultados concretos na educação brasileira. Para o mandato de 2027 a 2030, o desafio será transformar programas já existentes em avanços efetivos na aprendizagem, reduzir desigualdades e garantir recursos para sustentar as ações anunciadas durante a campanha.

Na avaliação de Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco, o resultado eleitoral representa uma oportunidade de fortalecer políticas públicas e ampliar as perspectivas de futuro da população. Para ele, a democracia precisa produzir mudanças concretas na vida das pessoas, e a educação ocupa lugar central nesse processo.

Henriques defende que a redução das desigualdades e a garantia de direitos estejam no centro das decisões do próximo governo. O especialista também chama atenção para a necessidade de conciliar responsabilidade fiscal e social, melhorar a qualidade do gasto público e preservar políticas voltadas à população mais vulnerável.

“Uma imprensa livre e uma sociedade civil atuante são essenciais para fiscalizar o poder, cobrar resultados e garantir que diferentes vozes participem das decisões”, afirma. Na avaliação do executivo, a democracia se fortalece quando os direitos chegam à vida cotidiana, inclusive por meio de uma escola capaz de oferecer oportunidades independentemente da renda familiar, da origem ou da cor da pele.

Na educação, a continuidade de programas como o Pé-de-Meia e o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada aparece entre os caminhos para manter políticas de alcance nacional. Entretanto, a permanência dessas iniciativas não elimina a necessidade de aperfeiçoamento e de mudanças estruturais.

AGENDA PARA 2027 A 2030

Um levantamento do Todos Pela Educação, apresentado no documento Dois Movimentos, Uma Só Agenda, aponta quatro prioridades para o próximo ciclo: formação inicial de professores, recomposição das aprendizagens, reestruturação das avaliações nacionais e expansão da educação integral em tempo integral.

A análise dos planos de governo de seis candidatos à Presidência identificou que a proposta de Lula contempla duas dessas prioridades: recomposição das aprendizagens e educação integral. A formação inicial docente aparece parcialmente, enquanto a reestruturação das avaliações nacionais não foi contemplada.

O documento também destaca que o próximo governo precisará combinar a continuidade de políticas que apresentam potencial com mudanças nas áreas em que os resultados ainda são insuficientes. Entre os pontos de atenção estão a qualidade dos cursos de licenciatura e a necessidade de ampliar o apoio técnico e financeiro às redes estaduais e municipais.

ORÇAMENTO E APRENDIZAGEM

O financiamento será outro obstáculo. A expansão das bolsas estudantis prometida por Lula exigirá pelo menos R$ 7,2 bilhões adicionais no orçamento do Ministério da Educação (MEC), segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo. A pressão sobre os recursos aumenta a preocupação com a manutenção de investimentos em infraestrutura, formação docente e políticas de aprendizagem.

Para o Todos Pela Educação, o fortalecimento do Pé-de-Meia precisa vir acompanhado de discussão sobre sua sustentabilidade orçamentária e sua focalização nos jovens com maior risco de abandonar os estudos. A organização alerta que a concentração de recursos em benefícios financeiros pode reduzir o espaço destinado a outras políticas estruturantes.

A articulação entre União, estados e municípios também será decisiva. Embora o governo federal tenha papel de coordenação e financiamento, a execução de grande parte das políticas depende das redes estaduais e municipais.

O novo Plano Nacional de Educação (PNE), com metas até 2036, será uma referência para esse trabalho. A próxima gestão terá papel estratégico na primeira metade de sua vigência.

Para o próximo mandato, a cobrança irá além da ampliação de programas e do anúncio de investimentos: será preciso garantir que os estudantes aprendam, permaneçam na escola e tenham oportunidades reais de desenvolvimento. Como aponta a análise do Todos Pela Educação, o avanço dependerá de políticas com qualidade, continuidade, financiamento e capacidade de execução.

Goiás mostra caminhos, mas desafios permanecem

Em Goiás, a continuidade das políticas nacionais também terá impacto direto sobre a educação pública. O estado alcançou 80% de crianças alfabetizadas na idade adequada, índice estabelecido como meta nacional para 2030, cinco anos antes do prazo. O resultado é associado ao trabalho de colaboração entre o governo estadual e os 246 municípios, por meio do programa AlfaMais Goiás.

Na educação em tempo integral, a rede estadual também ampliou a oferta. Mais de 80% das escolas estaduais já possuem estudantes atendidos nessa modalidade, segundo os dados apresentados pela Secretaria de Estado da Educação. O desafio agora é assegurar que a ampliação da jornada venha acompanhada de infraestrutura, profissionais e propostas pedagógicas capazes de melhorar a aprendizagem.

Os exemplos mostram que políticas nacionais precisam considerar as características e a capacidade de execução de cada rede. O financiamento federal, a assistência técnica e a cooperação entre os entes federativos serão fundamentais para reduzir as diferenças entre estados e municípios.

A avaliação do Todos Pela Educação aponta que a próxima gestão não precisa apenas preservar iniciativas existentes, mas aperfeiçoar sua execução e enfrentar problemas que receberam atenção insuficiente. No caso do plano de Lula, duas das quatro prioridades da organização aparecem contempladas: recomposição das aprendizagens e educação integral. A formação inicial docente é abordada parcialmente, enquanto a reestruturação das avaliações nacionais não aparece.

O resultado das eleições, portanto, encerra a disputa pelo comando do Executivo, mas abre uma nova etapa de cobrança sobre a política educacional. Para os próximos quatro anos, o principal indicador de sucesso não será apenas a quantidade de programas mantidos ou de recursos anunciados, mas a capacidade de fazer com que crianças e jovens aprendam mais, permaneçam na escola e tenham oportunidades menos desiguais de construir o próprio futuro.

Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

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