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Renovação ou continuidade? O dilema de Daniel Vilela para herdar o capital Político de Caiado em 2026

O peso dos 84% de aprovação é a fidelidade a uma base política estabelecida pelo governo anterior em detrimento de uma marca própria


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 12/04/2026 - 09:28

Caiado e Daniel Vilela
Daniel Vilela está brifado do projeto ao menos desde 2024, quando Caiado revelou publicamente sua intenção de disputar a Presidência

Ítalo Wolff

Em 2022, quando Ronaldo Caiado atraiu Daniel Vilela para sua chapa, o então governador de Goiás cumpriu dois objetivos: um no campo eleitoral, mais imediato; e outro no campo da concepção de governo, do discurso. A meta eleitoral era fragmentar as oposições, isolando Gustavo Mendanha (seu principal adversário na época) e impedindo que a parte do establishment representada pelo filho de Maguito se aliasse à onda bolsonarista capitaneada por Vitor Hugo naquele pleito.

O segundo objetivo, de formulação política, rende frutos agora, em 2026. Ao abrir portas para o político jovem, não apenas nos bastidores mas em posições de evidência do governo, a chapa viabilizou o discurso de renovação para uma candidatura que é de continuidade. Parece contraditório, mas as pesquisas mostram que a “renovação do governismo” não é paradoxal: Daniel Vilela é associado com mudança, sem representar, de fato, a alternância. (Ele não é o único, é claro. Wilder Morais, do PL, pode reivindicar para si o posto de verdadeira novidade política. Marconi Perillo, por outro lado, não pode.)

O atual governador está brifado do projeto ao menos desde 2024, quando Caiado revelou publicamente sua intenção de disputar a Presidência, e agora materializa o discurso de “renovação governista”.  Em cerimônia de posse, na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego), Daniel Vilela afirmou que seguirá o caminho da antiga gestão. Discursou: “Se o presente é esse Goiás que dá certo, o futuro é nossa responsabilidade de fazermos juntos. Podem ter certeza, é o que faremos. Seguiremos no mesmo ritmo. A transformação de Goiás não vai parar, continuará e vai avançar. O trabalho que mudou a história goiana terá um guardião fiel e obstinado”.

A escolha de palavras significa que o novo governador quer tranquilizar o eleitorado consolidado de Caiado com a promessa de que não haverá rupturas bruscas. O movimento revela cautela em um ano de eleições difíceis. São difíceis todas as eleições que têm um personagem novo como favorito — como o público perceberá Daniel Vilela em debates? Como se sairá sob pressão? Diferentemente do comportamento de Wilder e Marconi, isso ainda não se sabe.

Embora o atual e o ex-governador tenham associado suas imagens ao fazer uma transição antecipada de governo, e embora essa associação ainda vá se aprofundar quando um subir no palanque do outro, o fato inescapável é que Daniel Vilela não é Ronaldo Caiado. Enquanto a atuação de Ronaldo Caiado está ligada ao movimento ruralista no período da redemocratização, Daniel Vilela tem berço palaciano. Enquanto a atuação política da família Caiado em Goiás remonta a 1892, Daniel Vilela tem a modernidade como plataforma de governo. Não à toa, falou na ocasião de sua posse sobre a nova estatal Goiás Tecnologia, modernização da máquina pública e serviços informatizados.

Neste sentido, é impossível que as diferenças se expressem, e é inevitável que marcas individuais sejam deixadas na gestão, mesmo que o governador negue a intenção de fazê-lo. É apenas mais provável que Daniel Vilela execute um plano mais personalista em seu eventual segundo mandato. Distanciar-se agora de um governo que tem 84,7% de aprovação (segundo Paraná Pesquisas do último dia 7) seria um tiro no pé eleitoral.

Corrobora essa interpretação o fato de que Daniel Vilela anunciou 18 mudanças em órgãos do primeiro escalão (quase metade do total de 39 agências e secretarias), e 16 desses nomes já pertenciam ao governo Caiado. A maioria das trocas se deve à desincompatibilização de secretários que deixam os cargos para disputar as eleições deste ano. Ou seja, não houve sustos para a coalizão de apoio montada em 2022. É esse grupo que Caiado pretende transferir a Vilela, mas essa transferência só ocorre quando há garantia de que o mesmo prestígio lhes será dispensado — caso contrário, podem dar ouvidos às ofertas dos concorrentes.

Além do poder da máquina, é exatamente a escassez de boas ofertas que justifica o favoritismo de Vilela. Segundo levantamento da Paraná Pesquisas publicado na última terça-feira, o atual governador surge à frente na pesquisa estimulada com 43,4% das intenções de votos. Wilder Morais foi de quarto para terceiro colocado em relação à pesquisa anterior, e agora tem 11,5%. Marconi Perillo segue com 24,4% — a boa notícia para ele é que sua rejeição caiu dois pontos percentuais. O levantamento anterior é de dezembro de 2025.

Em eleições majoritárias, lideranças locais significam palanques para receber o candidato ao palácio. A falta de uma oposição bem articulada para disputar essas lideranças pode ser verificada pelo número de prefeitos e parlamentares em partidos da base. São 125 prefeitos do UB (ex-partido de Caiado) e MDB; o segundo grupo com mais representantes é o PL, com 13. Como Wilder Morais circulará pelo interior? O PL é o segundo também na Alego, onde tem três representantes, contra seis do MDB.

Não estou em busca de marca, estou em busca de continuar o trabalho que Ronaldo Caiado implantou em nosso estado. Vou promover os avanços que são necessários e que o governador não teve tempo, em razão de ter recebido o estado como recebeu.

Aliás, sob Daniel Vilela, uma mudança de postura em relação ao PL pode estar em curso. Uma das únicas mudanças no secretariado envolvendo um nome que não fazia parte do governo anteriormente é aquela na Companhia de Desenvolvimento Econômico de Goiás (Codego). O presidente da Companhia, Luiz Antônio Oliveira Rosa, foi indicado pelo prefeito Márcio Corrêa (PL), de Anápolis.

Enquanto Ronaldo Caiado apoiou Eerizania Freitas (UB) em 2024 para a Prefeitura de Anápolis, Daniel Vilela é próximo de Márcio Corrêa, que foi do MDB. Em evento de anúncio de um Hemocentro na última quinta-feira, Corrêa afirmou que em 2026 apoiará o emedebista em detrimento de Wilder Morais, do seu partido.

Não que Ronaldo Caiado tenha dispensado o PL, ou escolhido antagonizá-lo. Pelo contrário. Durante boa parte de 2025, o ex-governador tentou trazer para perto Wilder e Gayer (PL) para se tornar o candidato apoiado por Jair Bolsonaro. O que Márcio Corrêa oferece de novo é a possibilidade de operar no PL aquilo que Gustavo Mendanha operou no PSD, modificando as relações com o partido por dentro.

Preocupação imediata

Talvez pela relativa juventude, talvez pela forma de falar mais branda do que a de seu antecessor, parece haver por parte da equipe de comunicação de Daniel Vilela um receio de que a firmeza na segurança pública não seja tão bem transmitida para o eleitor. É importante que se destaque: a política de repressão ao crime é a principal razão da aprovação de Caiado.

Além de ter afirmado em discurso de posse que “a melhor força de segurança do Brasil vai continuar tendo o mesmo apoio”, Daniel Vilela manteve os comandantes das forças de segurança, e garantiu que “Renato Brum (SSP) fica”. Dez dias após a posse, uma das primeiras ações de governo foi lançar uma operação policial preventiva e ostensiva (Operação Tiradentes) e entregar R$ 28,5 milhões em equipamentos às forças de segurança. 

Veja também: “Bruno é nome número um para vice, porque vice precisa ter voto, não segmento”

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