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Testosterona por estética pode afetar coração, fertilidade e saúde mental

Estudo aponta que uso de anabolizantes alcança 31,6% em grupos pesquisados no Brasil; prática também pode causar dependência, trombose e danos irreversíveis


Por Carlos Nathan Sampaio em 21/08/2026 - 09:50

(Foto: Reprodução)

A procura por resultados rápidos na academia tem levado parte dos brasileiros ao uso de testosterona e outros esteroides anabolizantes sem indicação médica. Antes associada principalmente a atletas profissionais, a prática se espalhou entre pessoas que buscam aumento de massa muscular, definição corporal e melhora do desempenho físico, ampliando a preocupação com os efeitos dessas substâncias sobre a saúde.

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Clinics mostra que a prevalência do uso de anabolizantes entre brasileiros que praticam atividade física recreativa varia de 2,1% a 31,6%, dependendo da região e do perfil do grupo analisado. O maior índice, de 31,6%, foi identificado entre estudantes e professores de Educação Física de Belém. Entre frequentadores de grandes academias de São Paulo, o percentual chegou a 19%.

O médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles explica que o abuso de testosterona para fins estéticos é diferente da reposição hormonal prescrita para tratar uma condição diagnosticada.

“A reposição de testosterona pode ser indicada em pacientes com hipogonadismo comprovado, desde que haja sintomas compatíveis, confirmação por exames e acompanhamento médico. O uso de doses elevadas com finalidade estética configura uma situação completamente distinta”, afirma.

Entre os usuários sem indicação clínica, são comuns os chamados ciclos, realizados durante semanas ou meses. Há ainda quem combine diferentes tipos de anabolizantes, prática conhecida como stacking, ou associe essas substâncias ao hormônio do crescimento, clembuterol e medicamentos antiestrogênicos. Essas combinações aumentam o risco de interações e reações imprevisíveis.

“O resultado estético pode surgir rapidamente, enquanto as complicações podem evoluir de forma silenciosa. Coração, fígado, sangue e sistema reprodutivo podem sofrer alterações mesmo quando o indivíduo acredita estar tolerando bem o ciclo”, alerta o médico.

O uso abusivo e prolongado pode provocar disfunção cardíaca, acelerar a aterosclerose, alterar os níveis de colesterol e elevar o risco de eventos cardiovasculares. Também está relacionado a danos no fígado, resistência à insulina e eritrocitose, caracterizada pelo aumento da concentração de glóbulos vermelhos. A alteração torna o sangue mais viscoso e favorece a formação de trombos.

As consequências também atingem a saúde reprodutiva. A testosterona utilizada externamente reduz a produção natural do hormônio e pode causar atrofia testicular, infertilidade, ginecomastia e hipogonadismo prolongado. Dependência, agressividade, mudanças de humor e depressão durante períodos de abstinência também são relatadas.

“A interrupção abrupta pode provocar uma queda significativa nos níveis de testosterona, além de perda da libido, disfunção sexual e depressão. Por isso, quem já utiliza essas substâncias deve procurar acompanhamento médico e relatar de forma transparente o histórico de uso”, orienta o Dr. José Israel.

Nas mulheres, os possíveis efeitos incluem acne, aumento de pelos, mudanças de humor e alteração da voz. Algumas dessas consequências podem permanecer mesmo depois que a substância deixa de ser utilizada.

“A testosterona não deve ser apresentada como uma solução genérica para emagrecimento, aumento da disposição ou ganho de massa muscular. Nas mulheres, alguns efeitos androgênicos podem persistir mesmo após a suspensão do uso”, ressalta o nutrólogo.

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina proíbe a prescrição de anabolizantes com finalidade estética ou para melhorar o desempenho esportivo. A Lei nº 9.965/2000 determina que a comercialização desses medicamentos seja feita mediante apresentação e retenção da receita. Apesar das restrições, produtos falsificados ou com composição diferente da informada no rótulo continuam disponíveis no mercado clandestino, tornando o uso ainda mais perigoso.

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