A sessão ordinária da Câmara Municipal de Aparecida de Goiânia desta terça-feira (9) foi marcada por um debate que saiu do campo das pautas municipais e mergulhou na polarização da política nacional. O episódio teve como protagonista o vereador Dieyme Vasconcelos (PL), que utilizou a tribuna para defender projetos de sua autoria, mas acabou ampliando seu tempo de fala para promover críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e defender o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O parlamentar iniciou seu pronunciamento tratando do Projeto de Lei nº 163/2025, que proíbe a nomeação para cargos de confiança de pessoas condenadas por crimes sexuais contra crianças e adolescentes. Ao defender a proposta, Dieyme afirmou que “a família goiana merece respeito” e que “quem atenta contra a inocência, a pureza de uma criança não merece estar em um cargo público”.
Até então, o discurso permanecia dentro do tema da matéria em discussão. No entanto, após abordar o projeto, o vereador passou a comentar a política nacional, utilizando como gancho um debate iniciado na sessão anterior sobre investimentos federais em Aparecida de Goiânia.
“Eu não sou contra investimento do Governo Federal em Aparecida. Eu não sou contra. Eu fico feliz quando investem valores na nossa cidade. Agora, não pode ter hipocrisia”, afirmou.
Na sequência, Dieyme passou a fazer críticas ao presidente Lula e ao governo federal.
“Defender bandido aqui nessa casa tá de sacanagem com a minha cara. Defender bandido aqui não. Com 23 condenações. Com 23 condenações e não foi inocentado”, declarou.
Durante a fala, o vereador também abordou temas como reforma tributária, teto de gastos, estatais federais, carga tributária e a proposta de fim da escala 6×1, assuntos sem relação direta com a pauta legislativa municipal daquele momento.
Em determinado trecho, após ser questionado por colegas, Dieyme justificou a abordagem dos temas nacionais alegando que o plenário é um espaço legítimo para esse tipo de debate.
“Aqui é um parlamento, aqui é para falar. E eu vou falar para quem elegeu o Dieyme”, disse.
O discurso se estendeu por cerca de 15 minutos após a solicitação de tempo adicional pela bancada do PL, situação que provocou questionamentos sobre o cumprimento das normas regimentais da Casa.
A primeira reação veio do vereador Tales de Castro (PSB), que iniciou sua resposta criticando justamente a condução dos trabalhos.
“Primeiramente eu acho que seria importante manter as regras dessa casa. Porque se daqui a pouco pela ordem cada um puder falar 10, 15 minutos, a gente rasga o regimento”, afirmou.
Embora tenha reconhecido o direito à livre manifestação parlamentar, Tales criticou o que considerou uma tentativa de personalizar o debate político.
“Eu não personalizo a crítica. Eu não faço uma crítica pessoal aqui nesse parlamento”, declarou.
O vereador também rebateu os ataques ao governo federal e citou investimentos realizados pela União em Aparecida.
“Quando o governo federal investe a construção de duas policlínicas aqui na cidade, o único município do Brasil que terá duas policlínicas sendo construídas ao mesmo tempo, tem político que se cala”, afirmou.
Tales ainda acusou adversários políticos de adotarem critérios diferentes ao comentar escândalos envolvendo grupos políticos distintos.
“Na hora que a família Bolsonaro cai de cabeça na crise do Banco Master, esses mesmos se calam, somem, não falam nada”, declarou.
O parlamentar também defendeu os investimentos federais em educação e saúde, afirmando que o debate deveria ocorrer em torno de projetos e propostas para o país.
“Aqui a gente precisa ter clareza de qual é o projeto que a gente tá debatendo para o país”, disse.
A discussão ganhou um novo capítulo quando o líder do PT na Câmara, vereador Mazinho do Madre Germana, ocupou a tribuna para responder ao colega do PL.
“Vereador Dieyme tem que explicar para ele que não está na época de propaganda eleitoral ainda. O que ele fez ali está usando propaganda eleitoral”, afirmou.
Mazinho também criticou o tom adotado durante o pronunciamento.
“Se ele quer gritar aqui no plenário, ele tem que gritar na casa dele. Aqui é plenário”, declarou.
O petista ainda acusou o vereador de utilizar a imagem do ex-presidente Bolsonaro como estratégia política.
“Ele quer ganhar às custas do Bolsonaro. Está trabalhando usando os votos do partido dele para ser eleito”, disse.
Ao defender o governo federal, Mazinho destacou os recursos destinados ao município.
“Nunca houve um presidente que mandou tantas emendas para Aparecida de Goiânia que nem o Lula”, afirmou.
O episódio chamou atenção não apenas pelo embate ideológico entre vereadores de direita e esquerda, mas também pelo contraste com a própria pauta legislativa recente da Câmara. Ainda ontem, os vereadores aprovaram um projeto que proíbe homenagens públicas a pessoas condenadas por corrupção, improbidade administrativa, violações de direitos humanos e outros crimes graves. A matéria foi utilizada por Dieyme como referência para suas críticas ao presidente da República, embora não estivesse em discussão durante a sessão desta terça-feira.
Ao final, a sessão teve a maior parte do tempo dominada pela disucssão entre defensores de Lula, Bolsonaro, de ambos ou de nenhum, enquanto temas diretamente ligados à administração municipal ficaram em segundo plano. Mais do que as divergências partidárias, o episódio reacendeu entre parlamentares o debate sobre o respeito ao regimento interno e sobre os limites entre a atuação legislativa municipal e a antecipação da disputa eleitoral nacional que se aproxima de 2026.














