A direção do portal Metrópoles enviava reportagens a Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, antes da publicação e atendia a pedidos de alteração feitos pelo ex-banqueiro. As informações foram divulgadas pelo UOL com base em mensagens obtidas pela Polícia Federal.
Um levantamento do UOL identificou pelo menos 14 reportagens encaminhadas antecipadamente a Vorcaro. Em 11 delas, o conteúdo foi modificado após solicitações do banqueiro. As conversas também indicam que duas reportagens foram publicadas a pedido dele.
A interlocução envolvia Lilian Tahan, presidente-executiva do Metrópoles. Em abril de 2025, ao enviar um perfil sobre Vorcaro, ela escreveu: “Se tiver alguma incorreção, me avise!! Não publicarei sem nos falarmos”.
Pedidos de mudanças eram atendidos
As mensagens mostram que Vorcaro interferia em conteúdos relacionados aos negócios do Banco Master e a autoridades envolvidas na análise de operações financeiras. Em abril de 2025, ele contestou uma informação sobre uma suposta proposta de compra de ativos do banco por R$ 1, e Tahan respondeu que o trecho seria retirado.
No mesmo mês, o ex-banqueiro recebeu antecipadamente uma reportagem que comparava os balanços do Master e do Banco de Brasília (BRB). O texto só foi publicado depois que ele conferiu as informações. Em outra ocasião, pediu a retirada de uma referência à Hapvida, solicitação também atendida.
Em agosto de 2025, Vorcaro sugeriu mudanças em reportagens sobre Renato Gomes, então diretor do Banco Central que analisava a aquisição do Master pelo BRB. Entre os pedidos estavam reduzir as referências ao diretor em uma entrevista com o ex-presidente do BC Roberto Campos Neto, retirar um trecho sobre a situação financeira do banco e incluir informações sobre supostas divergências internas na autoridade monetária.
Segundo as mensagens, as alterações solicitadas foram aceitas.
Banqueiro pediu redução da cobertura sobre adversário
A influência relatada nas conversas também alcançava a cobertura política. Em agosto de 2025, Vorcaro pediu que o portal diminuísse temporariamente as publicações sobre Ricardo Cappelli, pré-candidato da oposição ao governo do Distrito Federal e crítico da compra do Banco Master pelo BRB.
“Esse Cappelli, você não consegue dar uma freada essa semana? Depois ele volta!”, escreveu o banqueiro.
Tahan respondeu: “Deixa comigo”.
O episódio reforça a dimensão da relação entre o empresário e a direção do veículo, uma vez que as mensagens indicam não apenas pedidos de correção factual, mas também solicitações para alterar a abordagem editorial e reduzir a exposição de um adversário político.
Contrato de publicidade de R$ 20 milhões
A aproximação entre Vorcaro e a direção do Metrópoles começou em maio de 2024, quando Guilherme Barros, então consultor do banqueiro, intermediou um encontro com Lilian Tahan.
No dia seguinte, Barros comentou a reunião com Vorcaro e mencionou a possibilidade de Tahan atuar como ponte com Luiz Estevão, proprietário do portal e ex-senador condenado por desvio de recursos públicos.
Um mês após o encontro, o Banco Master pagou R$ 1 milhão ao veículo. Em julho, acertou mais R$ 900 mil para financiar projetos de educação financeira ligados à seguradora Kovr e ao banco digital Will.
Em novembro de 2024, a direção do portal apresentou uma nova proposta comercial. Segundo Ana Matos, diretora de marketing, o valor negociado chegou a R$ 20 milhões.
Em uma conversa com Vorcaro, Matos comentou que o Metrópoles estava caro. O banqueiro respondeu: “Coisa mais importante [da] nossa vida é esse Metrópoles”.
Dois dias depois, ele informou que havia aprovado a proposta. As mensagens indicam que, em 2025, o Banco Master pagou os R$ 20 milhões ao portal em parcelas de R$ 5 milhões.
Reportagens foram enviadas no dia da prisão
A interlocução continuou até 17 de novembro de 2025, data em que Vorcaro foi preso. Naquele dia, Tahan enviou ao banqueiro reportagens sobre a venda do Banco Master à Fictor antes da publicação.
Após realizar as alterações solicitadas, a presidente-executiva avisou que o conteúdo estava no ar. “Publicada hahahaha”, escreveu.
O conjunto de mensagens, conforme o levantamento do UOL, aponta para uma relação na qual o principal executivo de uma instituição financeira tinha acesso prévio a reportagens sobre seus próprios negócios e conseguia interferir no conteúdo publicado por um dos principais portais de notícias do país.













