Tribuna do Planalto

Desde 1986 Fundador e Diretor-Presidente Sebastião Barbosa da Silva tribunadoplanalto.com.br
Ano 26 - Nº1.327 Goiânia, 13 a 19 de maio de 2012
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cultura

Cultura

Brasilidade vista de cima

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O novo grande talento para novelas das 21 horas na TV Globo  é João Emanoel Carneiro, sem dúvida alguma. Ele já tinha emplacado dois sucessos no horário das 19 horas, Da cor do pecado (2004) e Cobras & Lagartos (2006), e depois migrara para o horário nobre com A favorita, sua criação mais genial.
Carneiro sabe descrever a classe média muito bem, mas quando chega à C, tem de pesquisar, buscar nas descrições sociológicas os caminhos daquilo que vai dizer e como vai dizer. Só isso para explicar as fraquezas na hora de distribuir diálogos e situações para os representantes do povão.
Oriundo da classe média carioca, Carneiro começou co­mo estagiário do Ziraldo, ainda garoto, e depois migrou para o cinema. Foi co-roteirista de Cen­tral do Brasil, filme de Wal­ter Salles Jr., indicado ao Os­car em 1999. Sua passagem pelo cinema é bem sucedida, es­teve ao lado de gente considerada genial, como Sérgio Bianchi (Cronicamente inviável.
Se avaliarmos por esse lado, com experiência em criação de filmes que fazem uma espécie de crônica social, entendemos apenas sua sensibilidade para tratar do assunto, mas o mergulho parece ainda raso. O li­xão, por exemplo, foge do clichê, mas cai na armadilha do fantástico, do conto maravilhoso.
Carneiro pode até ter en­con­trado um grupo de pessoas felizes à beça morando num lixão, mas aquela repetição de cenas de gente feliz num lugar horroroso, para quem conhece essa realidade, mais parece uma afronta estética, uma crítica sem conteúdo ao documentário de Jorge Fur­tado, Ilha das Flores.
A novela de Carneiro é um sucesso, responsável pela retomada da ascensão do Ibope do horário que andava meio deprimido em função da baixa popularidade das novelas anteriores. Neste sentido, pode-se ver aí uma imposição da Globo em fazer os autores criarem uma teledramaturgia mais ao gosto do povão, que é o novo alvo da publicidade.
A novela das 19 horas, Cheias de charme, por exemplo, é visivelmente um trabalho destinado às mulheres da classe C, tendo como protagonistas três empregadas domésticas. Mas ali, parece que os autores Filipe Miguez e Izabel de Oli­vei­ra acertaram mais a mão.

Duplo
Não que Avenida Brasil seja ruim, pelo contrário, garante a audiência com bastante louvor. A única mancha é essa balbúrdia em torno do povo. O futebol, um dos fios condutores da trama, chave do sucesso e da grana de Tufão (Murilo Bení­cio), não convence nem aqui, nem no Rio de Janeiro.
A cabeleireira Monalisa, vivida por Heloísa Périssé, ganhou milhões de reais, mas não existe nela nenhum traço de que já não é mais aquela moça pobre dos anos anteriores. Mas é nessa pegada de observar os atores que se pode explicar porque a novela é boa. O texto nem de longe se assemelha à qualidade daquele que se ouviu em A favorita. O que resta é a bela atuação do elenco incrível.
O gosto pelo duplo, com per­sonagens como o de De­bo­rah Falabella (Rita/Nina) e Ale­xandre Borges (bígamo) é marca registrada de João Ema­noel Carneiro. Mas ele não tem aqui uma Patrícia Pillar, que fez a Flora, em A favorita.
Por outro lado, Carneiro vem tentando emplacar uma ideia anti-clichê, que é a de compor personagens que permeiam o bem e o mal, em vez do maniqueísmo do velho arquétipo de heróis e bandidos.
É assim que se vê uma Rita/Nina sedenta de vingança, fazendo coisas fora do convencional para uma mocinha, e uma Carminha (Adriana Es­teves), menos fria, que é capaz de demonstrar afeto por al­guém, embora em boa parte esteja mentindo, e vê-se claramente a abjeção que faz à filha pequena que tanto a idolatra.
Em Avenida Brasil, título que busca uma síntese de sociedade brasileira, todo mundo tem uma culpa no cartório. Tufão, por exemplo, é responsável pela morte do pai de Ni­na, mas ela o vê apenas como vítima de Carminha, porque não sabe disso. Silas (Ailton Graça) é um malandro agulha que faz de tudo para pôr a mão na grana da cabeleireira, e neste sentido também é dúbio.
Um das premissas da novela de Carneiro é que o fingimento é uma espécie de seiva que percorre a veia da sociedade. É o comportamento presente em vários poros da novela. Mas o lixão é o fake total, uma ficção que foge do clichê e mergulha na irrealidade cotidiana. É como se Carneiro estivesse dando uma de Vik Muniz.
Mas quando se tem no elenco atores que barbarizam, que vivem até a última gota a verdade de seus personagens, quase tudo parece real. José de Abreu (Nilo) é um exemplo. Claudia Missura (Janaína) que já havia trabalhado em A favorita, a doce Bianca Comparato (Betânia), Vera Holtz (Lu­cin­da), Marcos Caruso (Leleco) e Eliane Giardini (Muricy) são outras razões do sucesso.
Como se não bastasse, Mel Maia, que fez a Rita criança, em par com Bernardo Simões, o Batata, que cresceu e virou Jorginho (Cauã Reymond), deixou na novela a luz de uma criança que sabe brilhar.

 

O perfeito casamento entre moda e perfume

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De perfume e de moda todo mundo entende um pouco. Mesmo os avessos a cheiros e aromas no próprio corpo, adoram dar uma cafungada no perfume da parceira ou do parceiro, como quem suga o mundo inteiro do outro. Entre figurinos e essências, o  Goiânia Shopping recebe a mostra temática Perfume & Moda, na Praça de Eventos, Piso 1, até domingo, 13.
A exposição é uma homenagem ao Mês das Mães, mas serve para pesquisadores e curiosos de modo geral. Idealizado pelo jornalista e pesquisador baiano Roberto Pires, o evento é gratuito e estará aberto ao público durante todo o horário de funcionamento do shopping. Objetos de moda e frascos de perfumes estão em disposição tal que o visitante vai meio que farejando a história recente das relações humanas.
O perfume existe há séculos, mas sua relação com a moda nasceu no início do século 20, com o lançamento do Chanel Nº 5. Segundo Pires, o visitante vai conhecer os frascos dos perfumes e terá acesso a informações sobre os estilistas, as marcas, a composição e a história aromática de cada fragrância.
A mostra traz dez marcas famosas que assinam perfumes consagrados contidos em frascos sedutores, como a própria Chanel e seu clássico Nº 5 (1921), Dior e o Miss Dior (1947) e Yves Saint Laurent com o polêmico Opium (1977).
Paris é o ambiente primeiro da moda e de sua simbiose com o perfume. Segundo Pires, ainda hoje a capital francesa é o altar dessa união, que “conquista, a cada borrifada, mulheres e homens no mundo inteiro. O grande sucesso se deve ao fato de que as pessoas encontram no perfume a maneira de ter acesso a uma grife poderosa”, acrescenta.
Se a moda é mais visível, podendo ser apreciada pelos figurinos do cinema ou por meio de editoriais impressos, pela televisão ou junto a desfiles, o perfume só tem o recurso da aproximação. Mas é aí que reside sua arma maior, porque o olfato é um dos sentidos mais sensíveis, e os fabricantes sabem disso. Quem tiver talento para manipular fórmulas, sai na frente.

Domínio e sedução
Um exemplo de como o perfume pode ser mais poderoso que qualquer corte e costura foi argumentado no romance O perfume, do alemão Patrick Süskind. O livro conta a história de Grenouille, um jovem que fora desprezado pela mãe, em plena Paris do século XVIII, ao ser dado à luz.
Grenouille, que quer dizer 'sapo',  nasceu com incapacidade de produzir qualquer tipo de odor, nada de cheiro saía de seu corpo, mas tinha, por outro lado, um poder sem igual em sentir cheiros. Conseguia captar qualquer fragrância de qualquer natureza e reconhecer todos os tipos por meio do odor, por menor que fosse. Comunicava-se mal por meio das palavras, mas aprendeu a raciocinar e analisar o mundo por meio dos cheiros.
Em uma das passagens do livro, é possível verificar a lógica da criação de  Süskind. “Há sempre um poder de convicção no perfume que é mais forte do que palavras, do que olhar, sentimento e vontade. O poder de convicção do aroma não pode ser descartado, entra dentro de nós como o ar em nossos pulmões, nos ocupa completamente, não há antídoto contra ele.”
É possível de igual modo perceber o despertar da consciência de Grenouille, que começou a pensar, não com palavras, mas com reações instintivas: “Quem dominasse os odores, dominaria o coração das pessoas.” A mostra  Perfume & Moda traz um componente de análise nesse sentido, mas puxando para o lado da união das forças entre os dois produtos.
Na avaliação de Pires, o casamento entre moda e perfume é perfeito, e ele começou em 1910, pelas mãos do costureiro francês Paul Poiret (1879-1944). “Poiret se tornou célebre por ter libertado as mulheres do sufocante espartilho. Fã da modernidade, ele inovou ao associar modelitos de estilo Art Nouveau às fragrâncias da Société des Parfums Rosine, criada por ele”, lembra o curador.
Se moda e perfume têm um casamento perfeito, o poder que ambos emanam não chega a seduzir as pessoas a ponta de dominar seus corações por completo. Há sempre uma maneira de fugir. Mas a dominação do mercado, para quem sabe celebrar esse casamento, sem dúvida, é avassaladora.

A presença do cheiro


As dez marcas famosas em Perfume & Moda

* Chanel e seu clássico Nº 5 (1921)
* Dior e o Miss Dior (1947)
* Yves Saint Laurent e o polêmico Opium (1977)
* Calvin Klein e o Eternity (1988)
* Jean Paul Gaultier e os irreverentes Classique (feminino, 1993)
* Le Male (masculino, 1995) e Tommy Hilfiger e seu Tommy (1995)
* Tufi Duek e o Forum
Tufi Duek (2000), que reproduz o espírito da mulher
brasileira e, ao mesmo tempo, internacional
* Ocimar Versolato e o Glamour (2002) para O Boticário
* Puma e o Red & White (masculino e feminino, 2006)
* Lacoste e o Love of Pink (2009).

 

A aventura da diáspora

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A discussão sobre a herança africana na literatura brasileira chega tarde a nossa casa, mas finalmente deu um passo importante com a publicação de Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica (UFMG, 2011, 4 volumes), que já está com edição esgotada.
Organizada pelos professores e pesquisadores Eduardo de Assis Duarte e Maria Nazareth Soares Fonseca, a coleção procura recuperar os autores negros, contextualizá-los ao longo da história de nossa literatura e colocá-los na sua devida importância. No quarto volume, há o esboço de uma ensaística crítica em que alguns intelectuais e pesquisadores negros procuram teorizar essa produção.
Ainda no quarto volume, outra preocupação é a de mostrar como os afrodescendentes brasileiros são retratados na literatura, de que modo são retratados e o quanto o são, além de revelar o baixo número de escritores negros no país, principalmente romancistas.
O primeiro volume, subintitulado Precursores, traz 31 autores que atuaram entre os séculos XVIII e XX, começando com Domingos Caldas Barbosa, reconhecido artista, poeta e músico, que sabia latim e viveu em Lisboa gozando de relativa fama e prestígio, e finalizando com Carlos de Assumpção, nascido em 1927, considerado um mestre da poesia de protesto no Brasil.
Exemplo de como Assumpção pensava o conflito racial e expressava isso poeticamente são os versos de seu poema “Alma branca”.

Isso é discriminação
Deixe disso meu irmão
Mesmo quando me elogia
Você mostra é prevenção
Pare com isso por favor
Quem já viu a alma algum dia
Pra saber se ela tem cor?

Entre esses dois nomes, o primeiro volume vem repleto de autores importantes de nossa literatura, como Cruz e Sousa, Gonçalves Dias, Luiz Gama, Machado de Assis, João do Rio, José do Patrocínio, Lima Barreto, Solando Trindade, Abdias Nascimento e Carolina Maria de Jesus.
Esta última (que nasceu em 1914, em Sacramento, Minas Gerais, e faleceu em 1977, em Parelheiros, Grande São Paulo), com apenas dois anos de estudos formais, trabalhando como empregada doméstica e catadora de papel, mantinha um diário que depois virou o livro Quarto de despejo, cuja qualidade literária a colocou na roda dos grandes escritores do começo da segunda metade do século passado.

Negação
O perfil de cada autor apresentado nos três primeiros volumes foi escrito por estudiosos profundamente engajados neste campo de pesquisa, como Marisa Lajolo, que escreveu sobre Gonçalves Dias, Marli Fantini (Machado de Assis), Vera Casa Nova, que falou sobre Domício Proença Filho, no segundo volume, e Elisângela Aparecida Lopes, sobre Júlio Emílio Braz, no terceiro volume.
Se no primeiro volume, é possível reconhecermos algumas figuras que já se cristalizaram na história de nossa produção literária, a partir do segundo, subintitulado Consolidação, junto com o terceiro, Contemporaneidade, muitos nomes de autores ainda vivos (dos 69 analisados nesses dois livros) permanecem anônimos para nós mesmos, nós afrodescendentes.
Ainda que se mantenha algum interesse sobre essa produção que diz respeito à identidade negra, o silêncio em torno desses autores é uma prova cabal do quanto os meios de comunicação negligenciam, ignoram esse lado, que é parte legítima e constitutiva da própria cultura brasileira.
A exceção de Oswaldo de Camargo – poeta, jornalista, autor de um livro importante do gênero histórico, chamado O negro escrito –, Joel Rufino dos Santos, Martinho da Vila, Muniz Sodré, Nei Lopes, Cuti, Paulo Lins, Cidinha da Silva e outros poucos nomes, os outros só são ouvidos num grupo cada vez mais restrito, porque o espaço na imprensa tradicional lhes é fechado.
Os romancistas que se identificam como afrodescendentes, criadores de personagens que trazem a marca do negro e da sua relação com a sociedade brasileira, sempre conflituosa e muitas vezes negadora do espaço e da identidade negra, esses ainda são poucos mesmo.
Mas, apesar da negação do espaço, Literatura e Afrodescendência no Brasil nos mostra um grande avanço dos autores negros, no campo da poesia e de outras artes. Abdias Nascimento, que está na coletânea de autores, aparece no quarto volume, como intelectual e líder da consciência negra, para falar dessa realidade.

Produto intelectual
Falecido em 24 de maio de 2011, aos 97 anos de idade, Nascimento havia concedido a entrevista para os organizadores do livro em 2005. Nonagenário, mas sempre consciente, combatente e lúcido, ele disse nessa entrevista que os negros no Brasil, os afrodescendentes de modo geral, estamos produzindo mais e procurando ganhar esse chão negado.
“A juventude afro-brasileira está levando muito a sério a questão estética, a criatividade; ela produz ensaio, faz teatro etc. Então a gente vê que não está paralisada essa criatividade, está deslanchada e cada vez mais consciente. O mapa da criatividade da literatura afro-brasileira já está conquistando o seu espaço”, diz Nascimento.
Essa luta pelo espaço, no campo da arte e da cidadania, é legítima. Segundo Nascimento não há receita fácil, nem caminho sem pedras. O que se tem de fazer é mostrar aos outros que estamos acordados.
Perguntado sobre a importância da publicação de Literatura e Afrodescendência no Brasil, Abdias Nascimento foi claro e sucinto: “só lamento que esse projeto esteja chegando tão tarde.” Segundo ele, é o tipo de ação que ajuda na conquista desse espaço que falta aos afrodescendentes, e não perde a oportunidade de dizer que não só a imprensa, mas também a universidade ignora a identidade negra como tal.
“Essa ideia é a oportunidade de mostrarmos o negro sujeito de sua própria criação literária, publicando urgentemente a produção intelectual desse segmento da sociedade. (...) Tenho feito acusações públicas terríveis à universidade brasileira exatamente pela posição que ocupa. Ela tem uma tradição eurocêntrica que vai se consolidando e funciona como o grande instrumento do racismo”, diz Nascimento, absolutamente consciente do que está dizendo.
Sua fala, nessa entrevista, no entanto, é para ressaltar a importância desse trabalho de esforço acadêmico, junto à Universidade Federal de Minas Gerais, uma das instituições públicas que mais tem investido em pesquisas sobre a identidade afro-brasileira. E arremata: “A África compõe e constrói a identidade brasileira desde a sua essência.”

Representação
Se a África compõe a identidade brasileira, essa identidade se esconde quando se trata da representação dela nas páginas dos livros. Uma pesquisa feita pela professora da Universidade de Brasília (UnB), Regina Dalcastagnè, publicada neste livro, mostra a realidade dessa representação.
Ela analisou quase 400 romances brasileiros, em dois períodos de nossa história recente. Foram 258 romances publicados entre 1990 e 2004 pelas editoras Companhia das Letras, Rocco e Record, e 130 romances de autores também brasileiros publicados entre 1965 e 1979 pelas Civilização Brasileira e José Olympio.
Com essas duas análises, a pesquisadora chegou a uma série de dados sobre a produção e a representação social por meio da literatura. Segundo ela, 80% dos personagens desse período são brancos, “proporção que aumenta quando se isolam protagonistas ou narradores.” E acrescenta: “Isso sugere uma outra ausência, desta vez temática, em nossa literatura: o racismo.”
No corpo de romances publicados entre 1990 e 2004, apenas 7,9% dos personagens são negros. Quando a análise passa para cor e posição dos personagens, o disparate é bem maior, com 84,5% de protagonistas brancos e 5,8%, negros. Se se trata de narradores, o índice desce mais um pouco no escopo dos negros. Somente 2,7% dos narradores são negros, contra 86,9% de brancos.
Se, de modo geral, 80% dos personagens são brancos, e apenas 7,9% são negros, quando se trata da cor dos próprios romancistas, a realidade se afunda mais no disparate. Dos 165 autores analisados do período entre 1990 e 2004, 93,9% deles são brancos, e os não brancos, “como categoria coletiva, ficaram em meros 2,4%.” Segundo a pesquisadora, 3,6% não tiveram a cor identificada.
É claro que o estudo de Regina vai além dessas tipologias e analisa também a relação entre realidade e ficção, a questão estética, social, que junto com os dados de amostragem compõem o quadro que mostra a situação do negro no Brasil como representação.
Literatura e Afrodescendência no Brasil é uma coletânea imprescindível para o país começar a se ver como unidade cultural. Se a publicação está esgotada, outra urgência é a de uma segunda edição dessa obra importante para todos nós.

 

Goiânia no sotaque gaúcho

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Com o objetivo de disseminar a cultura de diversas regiões do país, o Festival do Teatro Brasileiro (FTB) promove espetáculos, oficinas de qualificação para profissionais e ações educacionais. A cada edição, uma cultura regional é escolhida para ser apresentada para outros estados.
Em sua 12ª edição, é a vez dos goianos apreciarem espetáculos que tem como foco a “Cena Gaúcha”. O projeto, com o patrocínio da Petrobras e Caixa e incentivo do Mini­stério da Cultura, percorre de 3 a 13 de maio as cidades de Goiânia, Anápolis e Goiás Velho. As peças, abertas a toda população, são uma rica mostra do teatro feito no Rio Grande do Sul e atendem a praticamente todos os gêneros.
De acordo com o idealizador e coordenador do projeto, Sérgio Bacelar, serão quinze espetáculos diferentes, a ser apresentados em diversos ambientes espalhados pela cidade. “Na capital, teremos espetáculos de rua, além de encenações no Instituto Fe­deral de Educação de Goiás e no Teatro Goiânia Ouro”, explica, dando uma ótima notícia: a maioria das apresentações serão gratuitas, e as cobradas terão um valor entre R$ 5 e R$ 20.
Na opinião de Bacelar, são encenações que possibilitam uma maior aproximação entre as companhias teatrais existentes, além de estabelecer com o público um contato mais apropriado com o universo do espetáculo.

Educar para o teatro
Sérgio Bacelar revela que no início a intenção era criar um canal de contato entre companhias e também espectadores, mas o tempo mostrou que havia mais a ser feito, em especial com os jovens. “Não basta simplesmente levar o aluno para uma apresentação. É preciso educar para o teatro”. E pensando nisso, há cinco anos o FTB realiza uma ação educacional com foco no conhecimento cultural.
Mas em que consiste essa ação? Durante o Festival do Teatro Brasileiro, alunos das redes públicas de ensino são convidados a não só assistir o espetáculo, mas também refletir sobre ele. “Através de coordenadores locais, conversamos com esses alunos sobre o fazer teatral, e quem são as pessoas por trás de uma encenação. Convidamos eles a conhecer melhor esse processo”, conta.
Depois desse contato com os “bastidores”, é a hora de apreciar o espetáculo. 2,4 mil alunos goianos de escolas municipais e estaduais, assistirão à peça Miséria, Servidor de dois estanceiros. O foco são adolescentes de 9 a 16 anos. “Em um terceiro momento, esses jovens são levados a discutir e tirar dúvidas sobre a apresentação. É o momento em que se cria o pensamento crítico do que eles assistiram”, conta.
Para Bacelar, essa é a oportunidade de efetivamente saber o que os jovens pensam das apresentações. “A reação ao final de uma encenação teatral costuma ser a mesma. As pessoas simplesmente aplaudem, tenham entendido ou não o conteúdo da peça. E a gente quer mudar isso”, revela.
As turmas que irão participar da ação educativa foram selecionadas pela equipe de arte-educadores do estado. Serão três apresentações, que acontecerão na escola de Circo Lahetô, no Teatro do IFG e na Praça Airton Senna, no Jardim Curitiba, somente para os alunos. Ainda assim, o coordenador explica que qualquer pessoa pode reunir um grupo e acompanhar outras apresentações.
“Temos uma grande quantidade de peças infantis, sendo que duas delas, a Gringa Errante e Mundo Miúdo, serão apresentadas em escolas nas cidades do interior”, revela. Para ele, essa é a oportunidade de desenvolver o gosto por uma atividade tão pouco praticada atualmente, que é a apreciação do teatro. “Queremos que os pais, professores, todo mundo vá e leve os mais pequenos, para que essa vivência seja praticada o quanto antes”.

Programação dos três primeiros dias


* Quinta-feira, 3
20 h - Mundo Miúdo - Teatro do Instituto Federal de Educação (Entrada Franca).
21 h - Cabarecht - Teatro do Instituto Federal de Educação (Entrada Franca)

* Sexta-feira, 4
20 h - Mundo Miúdo - Teatro Goiânia Ouro (Entrada Franca)
21 h - O Fantasma Circo-Teatro de um Homem Só - Teatro Goiânia Ouro (R$ 20 inteira/ R$ 10 meia)

* Sábado, 5
16 h - Mundo Miúdo - Parque Flamboyant (Entrada Franca)
17 h - Histórias da Carrocinha - Parque Flamboyant (Entrada Franca)
18 h - Gringa Errante - Parque Flamboyant (Entrada Franca)
19 h - Banda  DeFalla - Parque Flamboyant (Entrada Franca)
20h10 - Tom Chris e Banda - Parque Flamboyant (Entrada Franca)
21h30 - Renato Borghetti Quarteto - Parque Flamboyant (Entrada Franca)
20 h - A Tecelã - Teatro do Instituto Federal de Educação (Entrada Franca)
21 horas - O Fantástico Circo-Teatro de Um Homem Só - Teatro Goiânia Ouro (R$ 20 inteira/ R$ 10 meia)

 

Fernando Segolin e a aula tangencial: Lobo Antunes, Pessoa e Fellini

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A tangência é a reta riscando a superfície do diâmetro, sem atingir seu interior, mas o suficiente para ligar um conteúdo a outro, nos ensina a matemática. A vida contingente de um círculo, por meio do qual passa uma reta, pode implicar referência em outro círculo de vida pelo qual tangencia essa mesma reta.
Com essa imagem, temos a representação daquilo que é uma aula de Fernando Segolin. Mestre na arte de ensinar literatura, Segolin é o trigo no joio da didática literária.
Especialista em Fernando Pessoa, professor do departamento de Pós-Graduação da PUC de São Paulo, ele é um raro corpo de saber que faz da literatura, de modo geral, e da poesia, em particular, sua raison d’etre.
Prefere dar aulas, mas já publicou dois livros: Perso­nagem e anti-personagem e Fernando Pessoa – poesia, transgressão e utopia, fruto de sua tese de doutorado sobre o poeta dos heterônimos. Am­bos estão esgotados.
Para Segolin, ensinar literatura é demonstrar quão viva deve ser a palavra, formando um complexo de tensão em que há toda a carga sensorial e sensual da própria vida. “Ou a literatura é esse corpo vibrante e apaixonado, ou ela não serve pra nada”, diz ele em uma de suas aulas.
Foi também em uma de suas aulas que, ao falar de António Lobo Antunes e, de quebra, Fernando Pessoa, Segolin me deu a chave para penetrar o reino imagético do cinema de Federico Fellini. Eis a tangência.

A vida capturada
Ele usa a obra de Lobo Antunes para falar do significado da literatura de modo geral, da literatura como arte. Segundo Segolin, os romances de Lobo Antunes não têm saída declarada, definida, seus personagens são labirínticos.
A história, a trama do romance, não interessa para Lobo Antunes. “O que eu quero é colocar a vida inteira entre as capas de um livro. Não quero história, não quero intrigas, eu quero a vida”, seria a afirmação categórica do romancista.
Para Segolin, esta afirmação é o resumo do objetivo do fazer literário de Lobo Antunes, cujos princípios são sustentados pela herança do heterônimo de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, segundo o qual, a única poesia possível seria aquela que brota do corpo, de forma espontânea e natural, captando o mundo só por meio dos sentidos, sem o uso das palavras (o que configura a utopia).
Dentro dessa premissa, a literatura quer a vida de imediato, ou seja, o que marca a literatura é a utopia da não mediação. A literatura sonha em acabar com todas as mediações, diz Segolin. As mediações são o que nos aliena, sejam linguagens, teorias, sonhos, experiências de todo tipo (a utopia em sua plenitude).

A linguagem do impossível
Segundo Segolin, a literatura quer superar as mediações, e é um sonho utópico marcadamente erótico. “O erotismo em todos nós aspira a ausência de todas as telas. O verdadeiro erotismo é aquele que promove a integração do eu com o seu outro, sem nenhum intervalo”, ensaia o professor.
Segolin continua: “Criar é eliminar mediações, é transformar aquilo que já se conhece em algo novo. A utopia existe porque somos seres inevitavelmente mediáticos. Operar com a palavra é buscar nela uma palavra que ainda não é, que ainda não há. Todo gesto criativo é a instauração de algum ser, é, portanto, transgressão.”
E diz mais: “A literatura é a linguagem do impossível num mundo pretendidamente de certezas.” Segundo ele, a vida nunca se deixa captar completamente, pelo menos pela linguagem. Eis a utopia, a contradição da literatura. Reto­mando Lobo Antunes e Pes­soa, Segolin arremata: “A vida nas capas do livro só é possível se ela aparecer inteira, sem nenhuma máscara.”

Como nuvens
É aí que entra o cinema de Fellini. “Não quero história, não quero intrigas, eu quero a vida”. Eis a frase lapidar, que pode se aplicar em vários filmes do gênio italiano.
Em A doce vida, é como se Fellini quisesse sempre captar o momento, e esse momento escapasse sempre, deixando apenas rastros da vida. O que a câmara de Fellini capta e projeta na tela é uma atmosfera que insufla leveza em nossa alma e nos faz flutuar.
Essa mesma sensação pode ser vista também em A cidade das mulheres, Fellini 8 ½ e Amarcord. Está menos presente em Noites de Cabíria, porque o lirismo aqui é mais unívoco, algo do tipo que se concentra na imagem do personagem de Cabíria, no sonho dela, na ingenuidade, ou na fé que tem nas pessoas. É um filme lindo, mas é mais pé no chão, como também o é A estrada da vida.
Ao conversar com um amigo cinéfilo, falamos justamente dessa tentativa felliniana de captar a vida. Fellini chegou a dizer que seus filmes não eram para ser entendidos, e sim sentidos. A gente só consegue mesmo sentir.
A tangência com a aula de Segolin me faz sentir melhor os filmes de Fellini, sem dúvida. São mesmo sensações da vida. Mas toda vez que tento explicar esse sentimento, a maior sensação que tenho é a de que Fellini via a humanidade como nuvens.

 

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