O novo grande talento para novelas das 21 horas na TV Globo é João Emanoel Carneiro, sem dúvida alguma. Ele já tinha emplacado dois sucessos no horário das 19 horas, Da cor do pecado (2004) e Cobras & Lagartos (2006), e depois migrara para o horário nobre com A favorita, sua criação mais genial.
Carneiro sabe descrever a classe média muito bem, mas quando chega à C, tem de pesquisar, buscar nas descrições sociológicas os caminhos daquilo que vai dizer e como vai dizer. Só isso para explicar as fraquezas na hora de distribuir diálogos e situações para os representantes do povão.
Oriundo da classe média carioca, Carneiro começou como estagiário do Ziraldo, ainda garoto, e depois migrou para o cinema. Foi co-roteirista de Central do Brasil, filme de Walter Salles Jr., indicado ao Oscar em 1999. Sua passagem pelo cinema é bem sucedida, esteve ao lado de gente considerada genial, como Sérgio Bianchi (Cronicamente inviável.
Se avaliarmos por esse lado, com experiência em criação de filmes que fazem uma espécie de crônica social, entendemos apenas sua sensibilidade para tratar do assunto, mas o mergulho parece ainda raso. O lixão, por exemplo, foge do clichê, mas cai na armadilha do fantástico, do conto maravilhoso.
Carneiro pode até ter encontrado um grupo de pessoas felizes à beça morando num lixão, mas aquela repetição de cenas de gente feliz num lugar horroroso, para quem conhece essa realidade, mais parece uma afronta estética, uma crítica sem conteúdo ao documentário de Jorge Furtado, Ilha das Flores.
A novela de Carneiro é um sucesso, responsável pela retomada da ascensão do Ibope do horário que andava meio deprimido em função da baixa popularidade das novelas anteriores. Neste sentido, pode-se ver aí uma imposição da Globo em fazer os autores criarem uma teledramaturgia mais ao gosto do povão, que é o novo alvo da publicidade.
A novela das 19 horas, Cheias de charme, por exemplo, é visivelmente um trabalho destinado às mulheres da classe C, tendo como protagonistas três empregadas domésticas. Mas ali, parece que os autores Filipe Miguez e Izabel de Oliveira acertaram mais a mão.
Duplo
Não que Avenida Brasil seja ruim, pelo contrário, garante a audiência com bastante louvor. A única mancha é essa balbúrdia em torno do povo. O futebol, um dos fios condutores da trama, chave do sucesso e da grana de Tufão (Murilo Benício), não convence nem aqui, nem no Rio de Janeiro.
A cabeleireira Monalisa, vivida por Heloísa Périssé, ganhou milhões de reais, mas não existe nela nenhum traço de que já não é mais aquela moça pobre dos anos anteriores. Mas é nessa pegada de observar os atores que se pode explicar porque a novela é boa. O texto nem de longe se assemelha à qualidade daquele que se ouviu em A favorita. O que resta é a bela atuação do elenco incrível.
O gosto pelo duplo, com personagens como o de Deborah Falabella (Rita/Nina) e Alexandre Borges (bígamo) é marca registrada de João Emanoel Carneiro. Mas ele não tem aqui uma Patrícia Pillar, que fez a Flora, em A favorita.
Por outro lado, Carneiro vem tentando emplacar uma ideia anti-clichê, que é a de compor personagens que permeiam o bem e o mal, em vez do maniqueísmo do velho arquétipo de heróis e bandidos.
É assim que se vê uma Rita/Nina sedenta de vingança, fazendo coisas fora do convencional para uma mocinha, e uma Carminha (Adriana Esteves), menos fria, que é capaz de demonstrar afeto por alguém, embora em boa parte esteja mentindo, e vê-se claramente a abjeção que faz à filha pequena que tanto a idolatra.
Em Avenida Brasil, título que busca uma síntese de sociedade brasileira, todo mundo tem uma culpa no cartório. Tufão, por exemplo, é responsável pela morte do pai de Nina, mas ela o vê apenas como vítima de Carminha, porque não sabe disso. Silas (Ailton Graça) é um malandro agulha que faz de tudo para pôr a mão na grana da cabeleireira, e neste sentido também é dúbio.
Um das premissas da novela de Carneiro é que o fingimento é uma espécie de seiva que percorre a veia da sociedade. É o comportamento presente em vários poros da novela. Mas o lixão é o fake total, uma ficção que foge do clichê e mergulha na irrealidade cotidiana. É como se Carneiro estivesse dando uma de Vik Muniz.
Mas quando se tem no elenco atores que barbarizam, que vivem até a última gota a verdade de seus personagens, quase tudo parece real. José de Abreu (Nilo) é um exemplo. Claudia Missura (Janaína) que já havia trabalhado em A favorita, a doce Bianca Comparato (Betânia), Vera Holtz (Lucinda), Marcos Caruso (Leleco) e Eliane Giardini (Muricy) são outras razões do sucesso.
Como se não bastasse, Mel Maia, que fez a Rita criança, em par com Bernardo Simões, o Batata, que cresceu e virou Jorginho (Cauã Reymond), deixou na novela a luz de uma criança que sabe brilhar.








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