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Neymar, a extrema direita e o espelho do “Menino Ney”

A Seleção Brasileira de Futebol ainda é um dos poucos símbolos capazes de reunir emocionalmente um país tão fragmentado


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 22/05/2026 - 11:58

Neymar seleção
O “Menino Ney” vira mais um instrumento de polarização nacional

Poucos jogadores brasileiros deste século tiveram o talento e o impacto de Neymar dentro de campo. Revelado pelo Santos Futebol Clube, campeão por onde passou, protagonista da inédita medalha de ouro olímpica do futebol brasileiro nos Jogos Olímpicos Rio 2016, destaque no FC Barcelona e no Paris Saint-Germain F.C., Neymar foi um jogador capaz de decidir partidas como poucos de sua geração. Durante anos, esteve entre os atletas mais habilidosos e midiáticos do planeta. Foi eleito o melhor jogador da Europa em premiações importantes, empilhou títulos e construiu uma carreira que qualquer profissional do futebol sonharia em ter.

Mas também é verdade que Neymar nunca alcançou o posto simbólico de “melhor do mundo”, aquele espaço reservado aos gigantes absolutos da história do futebol. Isso não diminui sua trajetória, tampouco apaga seu brilho. Apenas o coloca em um patamar diferente daquele ocupado por nomes quase mitológicos do futebol brasileiro, como Pelé, Garrincha, Rivelino, Zico, Romário, Ronaldo Nazário e Ronaldinho Gaúcho. Jogadores que transcenderam o espetáculo e se tornaram unanimidades nacionais e internacionais.

O problema de Neymar, entretanto, nunca foi apenas futebolístico. Sua trajetória extracampo sempre caminhou junto de controvérsias: relacionamentos expostos como entretenimento permanente, ostentação extravagante em um país marcado pela desigualdade brutal, comportamento agressivo em momentos de tensão, simulações excessivas dentro de campo e uma relação frequentemente conflituosa com críticas. Ao longo dos anos, o personagem “Menino Ney” passou a ser tão ou mais relevante do que o atleta Neymar.

Essa transformação atingiu seu auge político durante a campanha eleitoral de 2022. Em plena Copa do Mundo FIFA 2022, Neymar gravou vídeos de apoio ao então presidente Jair Bolsonaro, participou de peças promocionais com música, coreografia e slogans típicos da campanha bolsonarista, chegando até a prometer um gol “para o mito”. Ao atrelar sua imagem de forma tão explícita ao bolsonarismo, Neymar deixou de ser apenas um atleta admirado ou criticado por desempenho esportivo: tornou-se também um personagem político-cultural. Para amplos setores da esquerda brasileira, passou a ser visto como uma figura não grata, símbolo de um projeto político que aprofundou divisões sociais e radicalizou o debate público no país.

Mas é importante reconhecer que a relação entre futebol e política no Brasil não começou com Neymar — e provavelmente jamais terminará nele. Historicamente, governos brasileiros sempre compreenderam o poder simbólico da Seleção Brasileira de Futebol como instrumento de construção de identidade nacional e capital político. Durante a ditadura militar, os títulos mundiais da era Pelé foram amplamente utilizados pelo regime como ferramenta de propaganda patriótica e legitimação política. Décadas depois, o então presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu os campeões do tetracampeonato no Palácio do Planalto em uma celebração carregada de simbolismo institucional e popular.

Nos últimos anos, porém, surgiu um fenômeno diferente e particularmente delicado: a própria camisa da Seleção Brasileira acabou sendo simbolicamente subtraída por um movimento antidemocrático que defendia o rompimento com a Constituição Federal de 1988 — conhecida como “Constituição Cidadã”. Grupos associados ao bolsonarismo passaram a utilizar de forma massiva a camisa da Confederação Brasileira de Futebol em manifestações que pediam a permanência de Jair Bolsonaro no poder sem o crivo popular do voto direto. Não foi um movimento espontâneo ou isolado, mas uma mobilização política organizada, sustentada por símbolos nacionais e por uma estética patriótica muito calculada, que acabaria culminando na Ataques de 8 de janeiro de 2023. Nesse contexto, futebol, política e identidade nacional passaram a se misturar de maneira ainda mais intensa e conflituosa.

E talvez seja exatamente aí que reside a conexão mais profunda entre Neymar e a extrema direita brasileira.

Não necessariamente porque esse campo político admire o futebol de Neymar. Muitas vezes, a admiração parece ser menos pelo jogador e mais pela figura pública que ele representa: alguém rico, midiático, individualista, emocionalmente impulsivo, constantemente vitimizado perante críticas e transformado em símbolo de identificação afetiva. Da mesma forma que parte da extrema direita brasileira se enxergou na figura controversa de Jair Bolsonaro, também parece se enxergar no eterno “Menino Ney”.

Por isso, a discussão já não é apenas técnica. Criticar a convocação de um atleta que hoje atua fora do principal eixo competitivo do futebol mundial, que convive há anos com problemas físicos e que teve participação reduzida na temporada deixa de ser somente uma análise esportiva. Para muitos setores radicalizados, qualquer crítica a Neymar passa a ser recebida como uma agressão pessoal. Porque eles não estão defendendo apenas o jogador: estão defendendo a imagem na qual projetam a si próprios.

É um mecanismo político sofisticado. E não há ingenuidade nisso.

Os formuladores da extrema direita contemporânea compreenderam há muito tempo como funcionam as dinâmicas emocionais das redes sociais. Estudam comportamento digital, lógica algorítmica, estímulos rápidos, repetição de narrativas e mecanismos de identificação coletiva. Sabem que, no ambiente das plataformas, a política deixa de ser organizada prioritariamente por programas de governo e passa a ser movida por símbolos emocionais, conflitos permanentes e personagens capazes de gerar engajamento instantâneo.

Talvez por isso haja tão pouco aprofundamento em projetos estruturais de nação, propostas econômicas consistentes ou debates programáticos complexos. O objetivo central muitas vezes não é elaborar soluções detalhadas para o país, mas produzir identificação emocional contínua. Na lógica das redes, vence quem ocupa o imaginário coletivo de forma simples, rápida, repetitiva e polarizadora.

Nesse contexto, Neymar se torna útil como símbolo político-cultural, ainda que talvez nem perceba completamente isso. O “Menino Ney” vira mais um instrumento de polarização nacional. E o atleta Neymar Júnior, em si, talvez tenha pouco a ver com a dimensão política que projetaram sobre sua imagem. Pode até ter entrado nisso por impulso, conveniência momentânea ou simples falta de compreensão sobre o tamanho da disputa simbólica em torno do seu nome.

No fim, o futebol brasileiro continua maior do que qualquer polarização.

A Seleção Brasileira de Futebol ainda é um dos poucos símbolos capazes de reunir emocionalmente um país tão fragmentado. Isso não significa ignorar as críticas à Confederação Brasileira de Futebol, aos problemas de gestão, aos interesses econômicos que cercam o esporte ou às contradições do futebol moderno. Mas significa reconhecer que, quando a camisa amarela entra em campo, ela ainda carrega um pedaço importante da identidade nacional.

E, diante disso, resta torcer para que Neymar faça o seu melhor. Que consiga contribuir tecnicamente, reencontrar parte do futebol que o tornou gigante e ajudar a seleção brasileira a chegar o mais longe possível. Porque, acima de qualquer disputa política, o futebol ainda deveria ser um espaço onde o Brasil consegue, ao menos por noventa minutos, lembrar que é maior do que suas próprias divisões.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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