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93 metas, quatro anos e o desafio de transformar a educação de Goiânia 

Plano estabelece metas para ampliar vagas, elevar a aprendizagem e modernizar a rede municipal; cumprimento dos objetivos será o principal teste da política educacional 


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 08/08/2026 - 15:58

Educação Goiânia
Plano da Prefeitura de Goiânia define objetivos para a educação até 2028. (Foto: SME Goiânia0

A educação costuma ser um dos temas mais presentes nos discursos de campanha, mas nem sempre as promessas se transformam em compromissos mensuráveis. Ao lançar o Educa+ Goiânia, a Prefeitura de Goiânia deu um passo diferente na educação: reuniu em um único documento 93 metas que deverão orientar a política educacional do município até 2028, estabelecendo indicadores, prazos, responsáveis e mecanismos de monitoramento.

Mais do que um plano administrativo, o documento representa uma tentativa de institucionalizar uma política pública baseada em evidências. A proposta envolve desde a expansão das vagas em creches até a universalização da conectividade nas escolas, passando pela alfabetização na idade certa, ampliação da educação integral, valorização dos profissionais, fortalecimento da inclusão e gestão orientada por dados.

A elaboração de um plano com metas mensuráveis busca enfrentar um problema recorrente da administração pública brasileira: a distância entre o planejamento formal e a execução das políticas públicas. Na educação, é comum que programas sejam anunciados sem indicadores claros, prazos definidos ou mecanismos que permitam avaliar seu cumprimento.

O Educa+ Goiânia procura reduzir essa lacuna ao estabelecer metas, indicadores e instrumentos de monitoramento para a política educacional até 2028. O documento prevê acompanhamento periódico, definição de responsabilidades e prestação de contas à sociedade.

A existência desses mecanismos, contudo, não garante, por si só, a efetividade da política pública. O resultado dependerá da capacidade da gestão de executar as ações previstas, assegurar recursos financeiros, manter o monitoramento ao longo dos quatro anos e tornar públicos os avanços e eventuais dificuldades. É justamente nesse processo que será possível avaliar se o plano permanecerá como um instrumento de planejamento ou se produzirá impactos concretos na aprendizagem, na redução das desigualdades e na qualidade da educação municipal.

Do diagnóstico às metas

O ponto de partida do plano é um diagnóstico otimista da rede municipal.

O lançamento do Educa+ Goiânia foi acompanhado pelo discurso de que a gestão pretende substituir promessas por compromissos mensuráveis. Ao apresentar o plano, o prefeito Sandro Mabel afirmou que as metas representam uma mudança na forma de administrar a educação municipal. “Metas são o que buscamos todos os dias, e o vento nunca sopra a favor de quem não sabe aonde quer ir. (…) São metas que buscam uma excelência na Educação. Sem objetivos claros, você não melhora”, declarou. 

Com a divulgação do Ideb 2025, a rede municipal voltou a elevar a nota nos anos iniciais, reforçando a trajetória de crescimento da aprendizagem. A Prefeitura atribui o desempenho aos investimentos em infraestrutura e gestão pedagógica, com destaque para os repasses do Programa de Autonomia Financeira das Instituições Educacionais (Pafie), que destinou R$ 222 milhões em 2025 e outros R$ 107,4 milhões no primeiro quadrimestre de 2026 diretamente às escolas para reformas, ampliações e melhorias. Segundo a administração municipal, a autonomia na aplicação desses recursos permite que cada unidade priorize suas necessidades e fortaleça as condições de ensino e aprendizagem. 

Outro indicador utilizado para justificar o novo plano são os resultados do SAEGO Alfa, que mostram crescimento da aprendizagem entre 2023 e 2025, especialmente no 2º ano do Ensino Fundamental, etapa considerada decisiva para a alfabetização.

A partir desse cenário, a Prefeitura decidiu estabelecer um planejamento que não apenas preserve os avanços obtidos, mas também enfrente desafios históricos da rede, principalmente relacionados às desigualdades educacionais.

A construção do plano contou com apoio do Centro Lemann de Liderança, organização que atua no desenvolvimento de políticas educacionais em municípios brasileiros. Para a diretora-executiva da instituição, Anna Penido, a definição de metas públicas representa um compromisso que ultrapassa a atual gestão. 

“Quero chamar a atenção para a importância desse ato que, com muita honestidade e com ambição, estabeleceu metas para o final desta gestão. A notícia que eu quero poder dar para o país é de que Goiânia, a partir de um compromisso assumido coletivamente, transformou a educação, transformou a vida das crianças que mais precisavam e se tornou realmente um grande exemplo”, afirmou.

Planejamento não garante resultados

Embora a existência de metas seja considerada um avanço administrativo, especialistas em gestão pública costumam lembrar que um plano, por si só, não melhora indicadores.

A secretária municipal de Educação, Giselle Faria, afirmou que a proposta busca estabelecer uma gestão baseada em acompanhamento permanente. “Com metas claras, monitoramento periódico, transparência, prestação de contas, os resultados poderão orientar decisões pedagógicas, administrativas e orçamentárias. Não estamos anunciando aquilo que pretendemos fazer, estamos tornando público aquilo pelo qual queremos ser reconhecidos e responsabilizados”, disse.

A eficácia depende de fatores como financiamento, continuidade administrativa, capacidade técnica da rede e monitoramento permanente.

O próprio Educa+ Goiânia reconhece essa necessidade ao afirmar que a política educacional será sustentada por acompanhamento contínuo, uso de indicadores, transparência e prestação de contas.

Outro aspecto relevante é que boa parte das metas envolve mudanças estruturais.

Expandir vagas na educação infantil exige novas unidades, contratação de profissionais e financiamento contínuo. A ampliação da educação integral demanda reorganização das escolas, aumento do quadro docente e investimentos permanentes. Já a universalização da conectividade pressupõe manutenção tecnológica, formação de professores e atualização constante dos equipamentos.

São objetivos que extrapolam a simples definição de indicadores.

O desafio da continuidade

Historicamente, um dos principais problemas das políticas educacionais brasileiras é a descontinuidade entre gestões. Mudanças administrativas frequentemente interrompem programas, alteram prioridades e dificultam o cumprimento de planejamentos de médio prazo.

Nesse contexto, um documento público com metas detalhadas pode funcionar como instrumento de cobrança da sociedade, permitindo acompanhar quais compromissos foram efetivamente cumpridos até 2028.

O plano também prevê monitoramento sistemático, indicadores de desempenho, cronogramas e mecanismos de governança para acompanhar a execução das ações. Essa estrutura aproxima o documento das práticas de planejamento estratégico utilizadas em redes de ensino que apresentam melhores resultados no país.

Equidade como prioridade

Um dos conceitos mais recorrentes ao longo do documento é a equidade. Em vez de tratar todas as escolas da mesma maneira, o Educa+ Goiânia propõe identificar estudantes e territórios com maiores dificuldades para direcionar ações específicas.

Essa lógica aparece no Projeto Farol da Equidade, iniciativa que utiliza dados educacionais para monitorar estudantes que necessitam de maior apoio pedagógico e orientar intervenções individualizadas.

O plano também estabelece como prioridades a expansão da educação infantil, a recomposição das aprendizagens, o fortalecimento da educação especial inclusiva e a ampliação da educação integral, especialmente em áreas socialmente mais vulneráveis.

Tecnologia como ferramenta, não como solução

Outro eixo importante do documento é a modernização tecnológica. A Prefeitura prevê ampliação do uso de tablets, chromebooks, notebooks, lousas digitais e conectividade nas unidades escolares.

A experiência de diversas redes brasileiras mostra, contudo, que equipamentos isoladamente não transformam a aprendizagem. Seu impacto depende da formação docente, do uso pedagógico e da integração da tecnologia ao currículo.

O próprio plano procura combinar inovação tecnológica com acompanhamento pedagógico e gestão baseada em evidências, evitando tratar a digitalização como solução única.

Prestação de contas será principal teste

Talvez o maior mérito do Educa+ Goiânia esteja menos nas metas anunciadas e mais na decisão de torná-las públicas. Ao divulgar objetivos, indicadores e mecanismos de avaliação, a Prefeitura cria parâmetros objetivos para que a população acompanhe o desempenho da gestão.

Nos próximos anos, o debate deixará de ser apenas sobre intenções e passará a considerar resultados concretos: quantas vagas foram criadas, quantas crianças foram alfabetizadas no tempo esperado, quanto avançou a educação integral e quais indicadores efetivamente melhoraram.

O sucesso do plano dependerá justamente dessa capacidade de transformar um documento técnico em mudanças perceptíveis dentro das salas de aula.

BOX | As principais metas do Educa+ Goiânia

  • Expandir o atendimento em creches e pré-escolas.
  • Universalizar o acesso à pré-escola.
  • Garantir alfabetização de todas as crianças até o 2º ano.
  • Fortalecer a recomposição das aprendizagens.
  • Ampliar a educação integral em tempo integral.
  • Expandir a educação especial inclusiva.
  • Valorizar e qualificar os profissionais da educação.
  • Modernizar as escolas com internet, tablets, chromebooks e lousas digitais.
  • Melhorar infraestrutura, alimentação e segurança escolar.
  • Implantar monitoramento permanente das metas, com indicadores públicos e prestação de contas.

Anápolis amplia vagas em creches e acelera expansão da rede municipal

Enquanto Goiânia apresenta um plano estratégico com metas até 2028, Anápolis iniciou o segundo semestre letivo colocando em prática uma das prioridades comuns às duas maiores redes municipais de Goiás: ampliar o acesso à educação infantil.

A prefeitura abriu 915 novas vagas em Centros Municipais de Educação Infantil (Cmeis). Desse total, 539 são novas vagas criadas neste semestre, distribuídas em diferentes unidades da cidade, enquanto outras 376 permanecem disponíveis, principalmente para crianças do Infantil V.

A expansão ocorreu com reorganização da rede, instalação de salas modulares e contratação de professores, auxiliares de educação e cuidadores.

Além das vagas, o município mantém um conjunto de investimentos estruturantes. Estão em andamento a construção da Escola Municipal de Tempo Integral Flor do Cerrado, a reconstrução da Escola Rodolf Mikel Ghannam, uma nova escola de tempo integral no Setor Industrial Munir Calixto e um novo CMEI no Jardim Primavera.

Outro destaque é a Casa do Futuro, centro voltado ao ensino de robótica, inteligência artificial, programação, impressão 3D e realidade virtual.

As iniciativas evidenciam que, tanto em Goiânia quanto em Anápolis, a expansão da educação infantil e o fortalecimento da infraestrutura escolar aparecem entre as principais estratégias para elevar a qualidade do ensino nos próximos anos.

Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

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