A presença dos Colégios Estaduais da Polícia Militar de Goiás (CEPMGs) na rede pública tornou-se um dos pontos de divergência entre os candidatos ao Governo de Goiás nas eleições de 2026. O Estado mantém uma estrutura própria de escolas militares, que não depende do programa federal encerrado pelo governo Lula em 2023, e reúne atualmente 82 unidades em mais de 60 municípios, com mais de 75 mil alunos. O ingresso ocorre por sorteio público, conforme edital anual.
A dimensão da rede faz com que a discussão eleitoral vá além da decisão tomada em âmbito federal. O debate envolve a continuidade de uma política educacional consolidada em Goiás, a possibilidade de novas unidades e o papel da gestão militar em escolas públicas.
O fim do programa federal não encerrou a militarização em Goiás
A experiência goiana antecede o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim), implantado pelo governo Jair Bolsonaro em 2019. O programa federal foi encerrado em 2023 por meio do Decreto nº 11.611, que revogou a norma que o instituiu e determinou a elaboração de um plano de transição para as escolas vinculadas ao programa.
Na época, o Todos Pela Educação defendeu a decisão do Ministério da Educação. Em nota publicada em julho de 2023, a entidade classificou o modelo do Pecim como equivocado e excludente e afirmou que a militarização deveria ficar restrita às escolas das Forças Armadas. A organização também sustentou que a política desviava o foco e recursos de desafios estruturantes da educação, como ampliação do ensino integral, combate à evasão e redução das desigualdades.
A posição da entidade, contudo, fazia referência ao programa federal. Em Goiás, a estrutura dos CEPMGs possui trajetória própria. O primeiro colégio militar estadual começou a funcionar em 1998 e, desde então, o modelo foi ampliado até chegar às atuais 82 unidades administradas pela Polícia Militar em parceria com a Secretaria de Estado da Educação.
É justamente essa diferença que mantém a questão aberta no Estado. O encerramento do Pecim não significou o fim dos colégios militares goianos. A rede estadual continuou funcionando sob legislação e estrutura próprias, com ingresso por sorteio público e acompanhamento do processo pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO).
O debate também permanece marcado por posições distintas sobre a militarização. Críticos questionam a compatibilidade do modelo com princípios da educação pública e apontam riscos de exclusão e restrição à autonomia escolar. Defensores destacam disciplina, organização e resultados acadêmicos. Para o Todos Pela Educação, a prioridade deveria estar em políticas capazes de alcançar de maneira equânime toda a rede pública.
Marconi quer ampliar e Luis Cesar propõe frear a expansão
Entre os candidatos que responderam à reportagem, a principal diferença está na dimensão que cada um atribui ao modelo.
Marconi Perillo defende a continuidade e a ampliação dos colégios militares. O candidato afirma que a expansão deve ocorrer de maneira planejada, conforme a demanda das famílias e as necessidades da rede estadual. A proposta também aparece em seu plano de governo.
“O Estado também ampliará a oferta de escolas militares, de forma planejada e de acordo com a demanda e as necessidades da rede, assegurando às famílias diferentes alternativas dentro da educação pública estadual”, destaca Perillo.
Marconi também associa o modelo à disciplina e à qualidade do ensino e cita o desempenho de Goiás no Ideb como parte do histórico de seus governos. A proposta apresentada não prevê substituir o ensino convencional. A intenção, segundo o candidato, é manter diferentes modelos dentro da rede estadual.
A posição de Luis Cesar Bueno é outra. O candidato afirma que pretende manter as escolas militares que contam com apoio da comunidade, mas não ampliar a quantidade de unidades. Para ele, a gestão escolar deve seguir as diretrizes da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e as funções de policiais e professores devem permanecer distintas.
“Vamos manter as atuais escolas, mas não pensamos em aumentar o número delas no Estado. Policial tem que cuidar da segurança, e professor, das escolas”, afirmou.
O candidato também questiona o modelo sob a perspectiva do acesso e da finalidade da política. Ao ser perguntado sobre a crítica de que as escolas militares atenderiam predominantemente estudantes de famílias de maior renda, respondeu que o modelo é questionável e afirmou que não pretende incentivar sua expansão.
Para as unidades que permanecerem, Luis Cesar propõe concentrar a atenção em transparência, custos e qualidade. “Transparência e auditoria de custos e qualidade será o foco inicial nestas escolas”, afirmou, citando também despesas com roupas e formaturas.
O candidato pretende deslocar parte do investimento educacional para outro eixo. Sua proposta é criar 300 escolas de tempo integral nos dois primeiros anos de governo, além de ampliar a valorização dos professores.
As duas respostas revelam projetos distintos para uma rede que já ocupa espaço expressivo na educação estadual. Marconi trata os colégios militares como uma alternativa que deve continuar crescendo conforme a demanda. Luis Cesar admite a permanência das unidades existentes, mas rejeita novas ampliações e propõe concentrar a política educacional na expansão do ensino integral e na valorização dos profissionais.
A reportagem consultou as seis candidaturas ao Palácio das Esmeraldas sobre a política para os CEPMGs. Apenas Marconi Perillo (PSDB), e Luis Cesar Bueno (PT), responderam aos questionamentos. Daniel Vilela (MDB) e Wilder Morais (PL), não responderam à solicitação até o fechamento. Também não foi possível estabelecer contato com Danilo Pinheiro (PCO), e Luciana Amorim (UP).
Com quatro candidaturas sem posição apresentada à reportagem, permanece aberta uma parte importante da discussão eleitoral sobre o futuro dos CEPMGs. Em um Estado onde o modelo possui trajetória própria e uma rede consolidada, a eleição de 2026 coloca em debate não apenas sua existência, mas o tamanho que essa rede deverá ter e qual função deverá cumprir dentro da educação pública de Goiás.











