A segurança pública sempre esteve no centro da política goiana nos últimos anos. Não é novidade. Desde o início da gestão, o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) transformou o tema em marca de governo com a frase que repetiu à exaustão: “Bandido em Goiás ou muda de profissão ou muda de Estado”. Demagogia ou não, funcionou como síntese política. O que muda agora é a disputa pela autoria dessa bandeira.
Fora do Palácio das Esmeraldas, Caiado tenta levar o discurso para o plano nacional. No governo, Daniel Vilela (MDB) busca dar ao tema uma assinatura própria, com tecnologia, inteligência artificial e serviços digitais. Na disputa ao Senado, Gustavo Mendanha (PRD) tenta se aproximar das corporações ao escolher um coronel da Polícia Militar para a primeira suplência. Cada um tenta capturar um pedaço da mesma agenda.
Daniel herdou de Caiado a imagem de governo duro contra o crime. Agora tenta atualizar essa marca. O IA Contra o Crime virou a principal aposta dessa transição. A mensagem é simples: o Estado deixa de falar apenas em enfrentamento e passa a vender inteligência artificial, cruzamento de dados e resposta rápida.
A aposta, porém, sofreu um contratempo. A Justiça suspendeu contrato de R$ 304,8 milhões para expansão do programa, após pedido do Ministério Público de Goiás. A decisão não paralisou o sistema já em funcionamento, mas colocou ruído sobre o principal projeto tecnológico do governo na segurança pública.
A reação do governo foi pelo resultado. A gestão afirma que, com a tecnologia da Pax, o programa já ajudou a resolver mais de 1,4 mil casos em Goiás, entre homicídios, roubos, estupros e feminicídios. A defesa sustenta ainda que isso ocorreu com 340 câmeras e que a expansão para 5 mil equipamentos poderia permitir a elucidação de mais de 10 mil crimes até o fim do ano. É uma resposta ambiciosa.
Politicamente, mostra que Daniel não pretende recuar do discurso de inovação. Ao contrário. Quer transformar a controvérsia em prova de eficiência. Mas, se tecnologia será marca de governo, terá de resistir ao escrutínio jurídico, técnico e político.
Mendanha escolheu outro caminho. Ao anunciar o coronel Cardoso como primeiro suplente em sua pré-candidatura ao Senado, o ex-prefeito de Aparecida tenta entrar na conversa pela porta das corporações. Cardoso tem quase 27 anos de Polícia Militar, preside a Associação dos Oficiais da PM e do Corpo de Bombeiros e passou por comandos em cidades estratégicas.

Movimento coordenado
O presidente da Acieg, Rubens Fileti, confirmou à coluna que houve, dentro do Fórum Empresarial, um movimento coordenado em apoio ao nome de José Mário Schreiner para a vice de Daniel Vilela. Fileti não participou presencialmente da reunião porque estava em Portugal, mas acompanhou as conversas à distância.
Ponto final
Segundo Fileti, o assunto tratado foi o apoio a Zé Mário para a vice. E só. “Existiu um movimento coordenado para o apoio ao Zé Mário como um candidato a vice do Daniel Vilela. Então esse foi o tema discutido dentro da reunião do Fórum. Ponto final”, afirmou.
Sem cheque em branco
Fileti pondera que a discussão sobre Zé Mário não significa fechamento automático do Fórum em torno de Daniel. Segundo ele, cada entidade mantém autonomia para definir sua posição no processo eleitoral. A costura pela vice não deve ser confundida, portanto, com adesão única do setor empresarial ao projeto do governador.
Cada um no seu quadrado
“Cada entidade tem a sua preferência. Se apoia, se não apoia o governador, se apoia outro pré-candidato. Cada um tem a sua preferência e a gente respeita o seu espaço”, disse o presidente da Acieg. A fala ajuda a reduzir o ruído criado após a reunião do Fórum.
Cocoricó
Não foi apenas a ala evangélica do mundo político que se incomodou com a participação da Adial no apoio do Fórum de Entidades Empresariais a Zé Mário. Nos bastidores, houve pressão da ala marconista da entidade, ainda forte e influente, pela divulgação da nota de reparação.
Empresariado dividido
Fileti também reconhece que há empresários simpáticos a outros projetos políticos. Para ele, isso é natural diante da composição das entidades. “Nesse universo, quase todos os empresários estão em todas as entidades. A maioria dos empresários que está na Acieg está na Adial. A maioria que está na Adial está na Acieg e por aí vai”, afirmou.
Sem crise interna
Apesar da repercussão, Fileti nega que tenha havido crise dentro do Fórum. “Foi super tranquilo. Não teve uma confusão, não teve um ruído para dentro do Fórum”, disse. Segundo ele, eventuais interpretações nasceram fora da reunião, a partir de declarações isoladas e leituras feitas por terceiros.
Obra e palanque
O edital do novo anel viário da Grande Goiânia deu a Sandro Mabel uma agenda que mistura gestão, Brasília e 2026. A obra de R$ 1,1 bilhão é federal, mas tem impacto direto na capital e na Região Metropolitana. Mabel sabe disso. Por isso tratou o anúncio como vitória pessoal.
Desde 1995
O prefeito lembrou que trabalha pelo contorno desde 1995, quando era deputado federal. A frase não é casual. Mabel tenta vender a obra como resultado de persistência própria, não apenas como entrega do governo Lula ou do Dnit. Em política, autoria importa quase tanto quanto inauguração.
Vanderlan na foto
A presença de Vanderlan Cardoso no anúncio também não passa despercebida. Pré-candidato à reeleição ao Senado, ele ganha um ativo de infraestrutura para apresentar em Goiânia e no entorno metropolitano. Em uma disputa congestionada, obra grande ajuda a organizar discurso.
Bancada no jogo
O novo anel viário também oferece palanque para a bancada federal de Goiás. Flávia Morais, José Nelto e Rubens Otoni aparecem na costura da obra. Cada um tentará contar essa história do seu jeito. O eleitor talvez veja concreto. Os políticos veem narrativa.
PL na Pecuária
Do outro lado do tabuleiro, o PL prepara para 27 de junho, no Parque de Exposições de Goiânia, o lançamento do “time de Bolsonaro” em Goiás. A expectativa é pela presença de Flávio Bolsonaro. O ato deve lançar Wilder Morais ao governo e nomes ao Senado, como Gustavo Gayer, Humberto Teófilo e Oséias Varão.
Teste de barulho
O evento do PL será menos sobre novidade e mais sobre tentativa de demonstrar força. Wilder precisa provar que a marca Bolsonaro ainda tem potência para organizar uma campanha estadual. Flávio, se vier, nacionaliza a agenda e coloca Lula no centro do discurso. Esta coluna já mostrou que bolsonaristas têm a expectativa de que o ato coloque de vez Wilder na rua.
PSB no compasso
Na frente progressista, Aava Santiago avisou que o PSB ainda não fechou apoio a Luis César Bueno. A presidente estadual da legenda cobra mais robustez do projeto petista. É mais um recado de que a frente ampla não será construída apenas com boa vontade. Vai exigir espaço, programa e alguma capacidade de convencimento. Ao mesmo tempo, já se adianta em lançar a ex-deputada estadual Isaura Lemos ao Senado.
Petistas na dúvida
Até mesmo petistas com mandato têm dúvidas se Luis Cesar Bueno seguirá até o fim da disputa. Alguns continuam apostando em intervenção do diretório nacional. Adriana Accorsi, presidente do PT em Goiás, na edição da semana passada deste veículo, afiança e diz que Bueno “vai até o fim”.













