Skip to content

PT deixa nomes internos em banho-maria e mira produtor rural para disputar governo

Direção estadual vê em Flávio Faedo, de Rio Verde, uma tentativa de reduzir a resistência da esquerda junto ao agronegócio


Domingos Ketelbey Por Domingos Ketelbey em 24/05/2026 - 11:26

PT deixa nomes internos em banho-maria e mira produtor rural para disputar governo

A direção estadual do PT parece ter mudado o eixo da discussão sobre a disputa ao governo de Goiás em 2026. Depois de meses com as pré-candidaturas do jornalista Cláudio Curado, do advogado Valério Luiz Filho e do ex-deputado estadual Luis Cesar Bueno em banho-maria, o partido passou a mirar no produtor rural Flávio Faedo, ligado a Rio Verde, como alternativa para reduzir a rejeição da esquerda no agronegócio.

A movimentação tem a digital da deputada federal Adriana Accorsi, presidente estadual do PT, e também do mandatário nacional, Edinho. A avaliação é que o partido precisa sair do circuito tradicional da legenda e apresentar um nome capaz de dialogar com um setor historicamente resistente ao petismo em Goiás.

Faedo esteve em Brasília nesta semana para uma reunião com dirigentes nacionais do PT. A conversa, revelada em detalhes à Tribuna do Planalto, envolveu estrutura de campanha, cenário eleitoral, necessidade de ampliação política e a possibilidade de seu nome ser apresentado como alternativa ao Palácio das Esmeraldas.

A aposta é pragmática. Cláudio Curado, Valério Luiz Filho e Luis Cesar Bueno representam caminhos mais previsíveis dentro do PT goiano e parecem não ter empolgado a deputada federal Adriana Accorsi. Faedo, ao contrário, oferece uma candidatura fora do script: produtor rural, com presença no Sudoeste goiano e capacidade de abrir diálogo em uma região onde o bolsonarismo mantém força.

Faedo confirma convite e diz que interesse saiu de zero para 5

Em entrevista à Tribuna do Planalto, Flávio Faedo confirmou que foi convidado pelo PT para disputar o governo de Goiás. Ele disse que relutou no primeiro momento, mas admitiu que passou a considerar a possibilidade depois da conversa com lideranças da legenda. “Houve sim um convite. No começo eu relutei. Fui pego de surpresa”, afirmou.

De acordo com Faedo, a justificativa apresentada pelo partido foi a necessidade de aproximação com o setor produtivo rural. “Eles acham que meu nome pode aproximar o partido de uma parte do agro, que tem uma grande resistência”, disse.

O produtor rural afirmou que ainda não tomou uma decisão e que pretende avaliar o cenário com calma. Questionado sobre o nível de interesse na candidatura, em uma escala de zero a dez, respondeu: “Eu diria 5”. Em seguida, admitiu que a disposição avançou. “Já foi zero mesmo. Você está certo. Vamos ver como serão as próximas discussões. Acredito que dentro dos próximos 10 ou 15 dias eu e o partido vamos tomar a decisão.”

Na avaliação dele, a rejeição de parte do agronegócio ao PT não corresponde integralmente às ações do governo federal voltadas ao setor. Faedo citou os planos de safra como exemplo de que o partido tenta manter diálogo com produtores rurais, embora reconheça que o momento econômico do campo é delicado.

“Não faz sentido essa resistência, porque o governo PT não deixou de fazer o papel dele com os planos Safra. Investiu e cuidou muito bem do agro brasileiro”, afirmou.

Faedo pondera, porém, que produtores enfrentam um cenário de dificuldade, com problemas climáticos, endividamento e margens menores. A leitura ajuda a explicar por que o PT vê nele uma alternativa fora do roteiro tradicional. O partido busca alguém que fale do agro a partir de dentro, e não apenas como aceno eleitoral.

A relutância do produtor rural passa também pela vida pessoal e empresarial. Ele afirmou que precisa avaliar o impacto de uma campanha majoritária sobre os negócios e sobre o momento de sucessão familiar. “Tem que ser uma decisão muito bem pensada. Tem que ter uma aceitação boa da família também”, disse.

Movimento expõe impasse interno no PT

A entrada de Faedo no radar da direção estadual também expõe o impasse petista. Curado, Valério e Luis Cesar vinham se apresentando como alternativas para manter o partido na disputa estadual. Ao mirar um produtor rural de Rio Verde, o PT sinaliza que considera insuficiente lançar apenas um nome orgânico da legenda.

O cálculo é simples e arriscado. Com Faedo, o partido tenta abrir uma porta onde costuma encontrar resistência. Mas a operação pode gerar ruído interno entre os nomes que se colocaram à disposição quando o PT ainda não tinha uma alternativa considerada mais competitiva.

Nos bastidores, a articulação em torno de Faedo também foi associada a uma eventual composição com o ex-governador Marconi Perillo. O produtor rural, no entanto, tratou a hipótese como especulação e disse considerar difícil esse caminho neste momento. “Acho que estava mais no campo das especulações. Eu acredito que é muito difícil acontecer isso”, afirmou.

Para Faedo, o primeiro turno tende a ter uma lógica própria, enquanto o segundo turno pode abrir espaço para composições mais amplas. Ele também disse que aceitará qualquer decisão do partido, inclusive se a legenda optar por outro nome ou por uma aliança. “Eu vou aceitar qualquer decisão do partido”, disse. “A minha vontade mesmo é continuar na luta da classe.”

Pesquisa