O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, levou quase quatro décadas para voltar ao ponto de partida. Em 1989, aos 40 anos, apresentou-se ao país como o líder ruralista que pretendia ocupar a Presidência da República. Agora, aos 76, prepara-se para disputar novamente o Palácio do Planalto. O cargo é o mesmo. O Brasil, o candidato e a direita que ele pretende representar já não são.
No próximo dia 26 de julho, o PSD fará em São Paulo a convenção destinada a oficializar sua candidatura. Será o ato formal de uma ambição adiada por derrotas, mandatos e mudanças de partido. Caiado chegará ao palco acompanhado de Gilberto Kassab, presidente nacional da legenda e escolhido para compor a chapa como vice.
A primeira candidatura ocorreu na eleição que devolveu ao país o voto direto para presidente depois de 29 anos. Havia 22 nomes na cédula e um Brasil que ainda tentava compreender a democracia depois da ditadura. Lula concorria pela primeira vez. Jair Bolsonaro era um deputado em início de carreira. O agronegócio ainda não tinha a influência política e eleitoral que conquistaria nas décadas seguintes.
Caiado surgiu naquele cenário como presidente da União Democrática Ruralista, a UDR. Médico ortopedista, professor e produtor rural, havia se tornado uma das vozes mais conhecidas da reação dos proprietários de terra às propostas de reforma agrária. A política nacional conheceu primeiro o líder ruralista de voz dura. Só depois conheceria o deputado, o senador e o governador.
Na televisão, defendia a propriedade privada, a redução do Estado e os interesses dos produtores rurais. O campo estava definido, mas faltava estrutura para enfrentar os principais nomes daquela eleição.
Caiado recebeu pouco mais de 488 mil votos, 0,72% dos válidos. A primeira viagem ao Planalto terminou no primeiro turno, mas apresentou Caiado ao país e abriu uma carreira que sobreviveria ao partido e a quase todos os adversários daquela disputa.
No ano seguinte, elegeu-se deputado federal por Goiás. Seriam cinco mandatos na Câmara, intercalados por tentativas de chegar ao Governo do Estado. Depois veio o Senado, em 2014. Quatro anos mais tarde, venceu a eleição para governador ainda no primeiro turno e encerrou duas décadas de domínio do grupo liderado por Marconi Perillo. Em 2022, foi reeleito também sem segundo turno.
A sequência de cargos esconde um percurso menos linear. Caiado perdeu eleições, rompeu alianças e viu o próprio campo político trocar de donos. A direita da redemocratização foi reorganizada pelo antipetismo e absorvida pelo bolsonarismo.
Caiado acompanhou parte desse movimento, mas nunca aceitou posição inteiramente subordinada. Apoiou Jair Bolsonaro em 2018, rompeu com o então presidente durante a pandemia e voltou a se aproximar do eleitorado bolsonarista quando 2026 entrou no horizonte. Prometeu anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro e defendeu indulto ao ex-presidente. Ao mesmo tempo, passou a se apresentar como alternativa à polarização entre o presidente Lula e a família Bolsonaro.
A contradição está no centro da segunda candidatura. Caiado precisa buscar votos no campo bolsonarista sem parecer um candidato auxiliar do bolsonarismo. Precisa criticar a polarização sem se afastar do eleitor conservador mobilizado por ela. E precisa vender uma imagem de moderação sem abandonar o confronto, uma das marcas de sua carreira.
O ex-governador raramente fala em meios-tons. A frase costuma vir pronta para o embate, com adversário muito bem definido. Foi assim no Congresso, nas campanhas estaduais e no governo. A política de Caiado quase sempre precisa de um lado oposto. Nos anos 1980, era a esquerda ligada à reforma agrária. Em Goiás, foi o marconismo. Na disputa nacional, são o PT, o presidente Lula e, quando necessário, os herdeiros políticos de Bolsonaro.
A candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), #01 de Jair Bolsonaro, abriu espaço para uma nova ofensiva. Caiado passou a questionar a transmissão familiar da liderança da direita. O argumento permite marcar distância do senador sem confrontar diretamente o eleitor fiel ao ex-presidente. É uma operação delicada: Caiado quer os votos de Bolsonaro, mas contesta o direito de um Bolsonaro herdá-los.
O projeto depende também de apresentar Goiás como prova prática. Caiado deixou o governo em março para disputar a presidência e entregou o cargo a Daniel Vilela. Na bagagem, leva os resultados da segurança pública, a reorganização fiscal, os investimentos na educação e uma base política ampla. Em 1989, possuía uma causa e uma organização ruralista. Em 2026, possui uma gestão para defender, um sucessor no governo e um grupo estruturado.
A mesma força pode se transformar em limite. Dentro de Goiás, Caiado não precisa dizer quem é. Fora do estado, ainda enfrenta o problema elementar de ser reconhecido, ouvido e considerado como opção real diante de candidaturas que ocupam diariamente o debate nacional.
O PSD oferece estrutura, recursos e uma rede de governadores, prefeitos e parlamentares. Não oferece necessariamente unidade. Em estados importantes, setores da legenda mantêm compromissos com outros candidatos. A escolha de Kassab como vice tenta reduzir esse problema, mas reforça outra contradição: para se apresentar como novidade contra a polarização, Caiado montou uma chapa com dois dos políticos mais experientes do país.
Há também um componente pessoal de insistência. Caiado passou boa parte da vida pública tentando chegar ao Governo de Goiás. Quando conseguiu, já tinha 69 anos. A Presidência não surge como ambição repentina de fim de mandato. É um projeto que o acompanha desde o início da carreira e permaneceu guardado mesmo quando parecia superado.
A política mudou seu figurino, ampliou sua biografia e lhe deu novos argumentos. Algumas marcas atravessaram o tempo. A defesa do setor rural permanece. O discurso de autoridade continua. A segurança pública ganhou centralidade. E o confronto, embora agora dividido com apelos à moderação, ainda é o idioma no qual Caiado parece mais confortável.
No dia 26, o PSD cumprirá a formalidade de colocá-lo outra vez numa eleição presidencial. A convenção encerrará a pré-campanha, mas não responderá à pergunta que acompanha o projeto desde o início: como transformar prestígio regional em competitividade nacional?
Em 1989, Caiado deixou Goiás para se apresentar ao Brasil. Retornou com menos de 1% dos votos, mas encontrou na derrota o início de uma carreira. Trinta e sete anos depois, volta à mesma estrada em posição inversa. Agora é conhecido em Goiás, comandou o estado e construiu um grupo capaz de sobreviver à sua saída do governo. Falta saber se o Brasil aceitará conhecê-lo de novo.















