Em menos de dez dias, duas chapas adversárias bateram à mesma porta. Na manhã de 6 de agosto, Wilder Morais e Ana Paula Rezende estiveram na sede da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás, em Goiânia, numa visita sem divulgação prévia e quase sem repercussão. Nesta quinta-feira, 13, foi a vez de Marconi Perillo chegar acompanhado da candidata a vice, Jacqueline Zaiden. Do outro lado estava José Mário Schreiner, o dirigente que havia passado meses disputando a vice de Daniel Vilela e terminou fora da chapa.
As agendas foram tratadas como institucionais. A sequência, porém, ajuda a explicar uma das disputas menos ruidosas da campanha goiana. Depois das convenções, ninguém abriu mão do agro.
Não porque o setor esteja sem representação. De acordo com o professor de Ciências Políticas Guilherme Carvalho, o agronegócio está espalhado pelas principais candidaturas, por relações políticas, identidade ideológica, interesses econômicos e histórias construídas ao longo de décadas. O que parece sem dono é a pretensão de qualquer grupo de falar sozinho em seu nome.
De candidato a anfitrião
Zé Mário virou uma espécie de personagem dessa disputa. Licenciado da Faeg durante a pré-campanha, percorreu o interior, reuniu apoios e chegou à reta final como um dos principais concorrentes à vice de Daniel. Tinha a preferência pública de Gracinha Caiado, apoio de parlamentares da base e uma credencial direta: representava um setor central para a economia e para a política de Goiás.
Perdeu a vaga para Luiz do Carmo. No dia seguinte, reassumiu a presidência da Faeg. A partir dali, ocorreu uma inversão: o homem que procurava lugar numa chapa passou a receber as chapas em sua casa institucional.
Marconi até tentou atraí-lo antes de fechar a composição tucana. O PRTB chegou a oferecer o comando estadual da legenda. Wilder e Ana Paula também procuraram aproximação. Zé Mário optou, ao menos até aqui, por voltar à Federação.
Para Carvalho, a procura não se explica apenas pelo peso individual de Zé Mário. A Faeg funciona como um grupo organizado de pressão, ouvido em discussões sobre legislação, infraestrutura e políticas públicas. “O agro, para além das individualidades, tem uma capacidade de fazer lobby e de pressão institucional”, afirma. De acordo com ele, a presença de representantes do setor em chapas diferentes é resultado de uma ocupação de espaços consolidada nas últimas duas décadas, no Parlamento, em governos e na sociedade civil. O agro pesa também porque construiu canais permanentes de influência, participa da formulação de políticas e mantém representação organizada.
Três caminhos para o mesmo eleitor
Daniel Vilela não escolheu um representante direto do agro para a vice. Escolheu Luiz do Carmo, evangélico e ligado à Assembleia de Deus. A decisão não significa afastamento do setor. A base governista mantém Ronaldo Caiado, cuja trajetória política nasceu no campo, além de prefeitos, deputados e lideranças rurais espalhados pelo Estado.
Uma das leituras para a escolha de Luiz foi justamente essa: o agro já estaria suficientemente próximo para que a vice pudesse ser usada na aproximação com outro segmento. Zé Mário ficou sem a vaga, mas o governo não considera ter ficado sem o produtor.
Wilder segue por outro caminho. O senador tenta converter em voto estadual a identificação que parte do campo mantém com o bolsonarismo. Em junho, a pesquisa Diagnóstico/Acieg mostrou Wilder com 43,7% entre entrevistados ligados à agropecuária. Daniel tinha 26,2% e Marconi, 16,7%.
O próprio Zé Mário já atribuiu parte do avanço de Wilder à ligação do setor com o bolsonarismo, mas fez uma ressalva: “As pessoas não votam no nome, votam no projeto, em quem conhece, em quem já fez”.
Marconi tenta construir uma terceira ponte. Depois de não conseguir fechar uma composição com Zé Mário, colocou na vice Jacqueline Zaiden, produtora rural e nome com relações antigas no setor. A visita dos dois à Faeg reforça a tentativa de recolocar o tucano numa conversa em que já esteve durante seus quatro governos.
Lugar garantido à mesa
Guilherme Carvalho também chama atenção para a posição particular de Zé Mário depois de perder a vice. Na avaliação do professor, nem Marconi nem Wilder demonstraram até agora força suficiente para oferecer ao dirigente uma projeção de poder que justificasse um rompimento explícito com a base governista. Há ainda outra vantagem: Zé Mário não precisa se precipitar.
“Independentemente de o governo ganhar ou não, ele tem lugar na mesa, porque representa uma das maiores entidades do agro no Estado”, resume Carvalho. Para o cientista político, a posição permite ao presidente da Faeg jogar de maneira mais cautelosa e preservar canais com todos os campos. Uma definição política mais explícita, se vier, poderia ser empurrada para uma etapa mais avançada da eleição.
Para o cientista político, Zé Mário não precisa declarar apoio imediatamente a nenhuma das chapas que o procuram. Pode manter os canais abertos, acompanhar o desempenho de Daniel, Marconi e Wilder e adiar uma definição. “Acho que ele deve esperar lá para o segundo turno para tomar uma decisão”, avalia Carvalho.
Existe um voto do agro?
A própria expressão “voto do agro” merece cautela. Para Guilherme Carvalho, a força política do setor cresceu justamente porque deixou de depender de uma única liderança ou de um único campo partidário. Representantes ligados ao agronegócio passaram a ocupar espaços no Congresso, nas assembleias, nos governos, nas entidades de classe e em diferentes partidos.
“Não é só formando uma bancada do agro federal, estadual e municipal. Eles estão ligados institucionalmente”, afirma. Carvalho lembra que até partidos historicamente mais distantes desse eleitorado, como o PT, procuraram nomes ligados ao setor para suas composições, como o do produtor rural Flávio Faedo. A presença espalhada pelas chapas, portanto, não demonstra fraqueza. Mostra que o agro se tornou parte permanente da engrenagem política.
Isso ajuda a explicar por que Daniel, Wilder e Marconi conseguem reivindicar relações diferentes com o mesmo ambiente. Possívelmente Luis César Bueno, do PT, também deve reivindicar audiência. O setor possui interesses compartilhados e capacidade de organização, mas sua presença em campos adversários impede tratá-lo como um eleitorado submetido a um único comando.
Existem ainda diferenças internas, claro. O produtor de soja do Sudoeste não necessariamente enfrenta os mesmos problemas do pequeno pecuarista do Norte. Cooperativas, agroindústrias, exportadores, produtores familiares e grandes propriedades dividem pautas como crédito, infraestrutura, energia, segurança jurídica, tributação e acesso ao mercado, mas não necessariamente fazem as mesmas escolhas eleitorais.
A força está menos numa suposta transferência automática de votos e mais na capacidade de ocupar espaços, pressionar governos e fazer com que suas pautas atravessem praticamente todas as candidaturas competitivas.
Durante a disputa pela vice, a presença de Zé Mário na chapa era apresentada por aliados como forma de aproximar Daniel do produtor rural. Fora dela, ele continua sendo procurado por adversários do governador. Isso sugere que seu valor político pode estar menos na transferência direta de votos e mais na capacidade de abrir portas, produzir diálogo e conferir legitimidade a quem pretende entrar nesse ambiente.
A própria posição institucional impõe equilíbrio. Zé Mário é filiado ao PSD, partido de Caiado e integrante da chapa de Daniel, mas preside uma entidade que precisa dialogar com Marconi, Wilder e qualquer outro candidato competitivo.













