O Brasil ainda convive com uma das maiores dívidas sociais de sua história. Cerca de 64 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não concluíram a educação básica, o equivalente a 37,3% da população nessa faixa etária. O número, revelado pelo estudo Demanda Potencial por EJA e Transição para o Trabalho, elaborado pela recém-lançada Rede EJA e Inclusão Produtiva, evidencia que milhões de pessoas permanecem excluídas de um direito assegurado pela Constituição e reforça os desafios para ampliar o acesso e garantir a permanência de jovens e adultos na escola.
O levantamento, baseado em dados da PNAD Contínua 2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que 44,7 milhões de brasileiros não concluíram o ensino fundamental e 19,3 milhões interromperam os estudos antes do fim do ensino médio. Apesar dessa demanda expressiva, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) alcança apenas 1,5% do público potencial, enquanto as matrículas na modalidade seguem em queda em todo o país.
Os dados também revelam que a exclusão escolar acompanha desigualdades históricas. Entre pessoas brancas, 63% concluíram a educação básica. Entre pretos e pardos, esse percentual cai para 50%, evidenciando que o acesso à educação continua profundamente marcado por diferenças sociais e raciais.
Uma exclusão construída ao longo da história
Para a professora Catarina de Almeida Santos, do Departamento de Planejamento e Administração da Universidade de Brasília (UnB), o número de brasileiros que não concluíram a educação básica é consequência de um processo histórico de negação de direitos e não de acontecimentos isolados.
“O Brasil nunca teve um efetivo compromisso com a garantia do direito à educação de toda a população. A educação continua sendo tratada como privilégio. Uma pequena parcela da sociedade tem acesso a uma educação de qualidade, enquanto a maioria enfrenta escolas precárias, infraestrutura insuficiente, superlotação, fechamento de turmas e condições que acabam expulsando estudantes do sistema educacional”, explica.
Segundo a pesquisadora, ampliar o número de vagas nunca foi suficiente para assegurar o direito à educação. O desafio envolve qualidade da oferta, permanência e políticas públicas capazes de responder às diferentes realidades vividas pelos estudantes.
Ela afirma que o próprio sistema educacional produz parte da exclusão observada atualmente. “Há aprovação automática sem aprendizagem, fechamento constante de turmas da Educação de Jovens e Adultos e uma distorção idade-série que empurra adolescentes para uma modalidade criada para trabalhadores adultos. Se não mudarmos a estrutura que produz esse resultado, continuaremos obtendo exatamente os mesmos números”, ressalta.
Na avaliação de Catarina, a pandemia de Covid-19 agravou esse cenário, mas não foi sua origem. “A pandemia não criou esse problema. Ela acelerou um processo que já existia. O abandono escolar, a distorção idade-série e a exclusão educacional eram problemas históricos e apenas se intensificaram a partir de 2020”, pontua.
A professora destaca que a baixa escolaridade produz consequências que extrapolam o indivíduo e atingem toda a sociedade. “Quando uma sociedade possui menor nível de escolarização, ela perde renda, reduz sua capacidade crítica, compromete a formação dos profissionais e enfraquece praticamente todas as áreas da vida social. O empobrecimento não é individual. É coletivo”, afirma.
Escolaridade também é desenvolvimento econômico
O estudo reforça que permanecer na escola influencia diretamente nas oportunidades de trabalho. Entre as pessoas que não concluíram o ensino fundamental, apenas 43,1% participam do mercado de trabalho. Entre aquelas que terminaram o ensino médio, esse índice sobe para 73,5%.
A formalização do emprego segue a mesma lógica. Apenas 38,4% dos trabalhadores sem ensino fundamental completo possuem vínculo formal, enquanto entre aqueles que concluíram o ensino médio esse percentual chega a 65%.
Uma simulação apresentada pela Rede EJA aponta que, se parte da população atualmente sem educação básica concluísse os estudos, o Brasil poderia gerar aproximadamente R$ 66 bilhões por ano em rendimentos do trabalho, valor equivalente a cerca de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB).
Para a superintendente do Itaú Educação e Trabalho, Silvana Oliveira, a pesquisa demonstra que a baixa escolaridade se tornou um dos principais entraves ao crescimento econômico brasileiro.
“Quando olhamos para esse número alarmante, percebemos que estamos diante de um dos maiores desafios estruturais do país. Estamos falando de aproximadamente um terço da população brasileira que ainda não concluiu a educação básica. Isso representa um enorme desperdício de potencial humano e econômico”, afirma.
Segundo ela, a escolaridade determina diretamente as possibilidades de inserção profissional. “Quando milhões de pessoas chegam ao mercado de trabalho com baixa escolaridade, elas tendem a ocupar postos mais precários, com menor remuneração, maior informalidade e poucas possibilidades de progressão profissional. Ao mesmo tempo, as empresas enfrentam dificuldades para encontrar trabalhadores preparados para acompanhar as transformações tecnológicas e produtivas”, destaca.
Silvana observa que investir na conclusão da educação básica significa ampliar oportunidades individuais e fortalecer a competitividade nacional. “O desafio da escolaridade não é apenas educacional. Ele também é um desafio de produtividade, competitividade e desenvolvimento econômico. Investir na conclusão da educação básica e na qualificação profissional significa ampliar oportunidades para as pessoas e aumentar a capacidade de crescimento do Brasil”, relata.
A pesquisa também evidencia que a articulação entre Educação de Jovens e Adultos e Educação Profissional e Tecnológica melhora significativamente os indicadores de empregabilidade. “Nossa pesquisa mostra que a educação profissional melhora a inserção no mercado de trabalho, amplia a formalização e aumenta os salários. Ela também desconstrói o mito de que um curso técnico impede o acesso ao ensino superior. As duas trajetórias são complementares”, pontua.
Na avaliação da superintendente, recuperar esse público exige políticas integradas entre educação, assistência social e desenvolvimento econômico.
“Não basta oferecer vagas. É preciso construir uma oferta que dialogue com a realidade dessas pessoas, com flexibilidade, acolhimento, estratégias de permanência e uma conexão clara entre educação e oportunidades concretas de trabalho e renda. Quando o estudante percebe que concluir a educação básica pode transformar sua vida, a permanência na escola deixa de ser apenas um desafio e passa a ser um projeto de futuro”, ressalta.
Goiás também enfrenta demanda reprimida
Embora os dados revelem uma realidade nacional, Goiás reproduz parte desse cenário. Para a professora Maria Margarida Machado, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (UFG), o Estado ainda possui uma demanda muito superior à capacidade atual de atendimento da Educação de Jovens e Adultos.
Ela explica que o problema não é recente e acompanha as discussões sobre políticas educacionais há décadas. “Esses dados não surgem agora. Eles são produzidos por órgãos públicos, especialmente pelo IBGE, e vêm sendo monitorados há muitos anos por pesquisadores da Educação de Jovens e Adultos. Infelizmente, essa realidade vem se reproduzindo há décadas”, afirma.
Segundo a pesquisadora, embora Goiás tenha registrado oscilações nas matrículas da modalidade ao longo dos últimos anos, isso não significou necessariamente ampliação do acesso.
“Em diferentes momentos houve aumento estatístico das matrículas provocado pela transferência de estudantes do ensino médio noturno para a Educação de Jovens e Adultos. Isso não significa, necessariamente, que mais pessoas passaram a estudar”, explica.
Maria Margarida chama atenção para a dimensão da demanda existente no Estado. “Hoje temos cerca de 33 mil matrículas na rede estadual. Isso está muito distante da necessidade real. Goiás possui mais de 531 mil pessoas com mais de 25 anos sem instrução ou com menos de cinco anos de escolaridade, além de outras 838 mil que ainda não concluíram a educação básica. É uma demanda muito maior do que a capacidade atual de atendimento”, destaca.
Para a pesquisadora, esse diagnóstico ganha ainda mais relevância porque coincide com a construção do novo Plano Estadual de Educação, que deverá estabelecer as metas para os próximos dez anos. A expectativa é que o documento transforme esse cenário em prioridades concretas para ampliar o acesso, garantir permanência e recuperar o direito à educação de milhares de goianos.
Em Goiânia, a Secretaria Municipal de Educação (SME) afirma que vem ampliando a oferta da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Atualmente, a rede atende 751 estudantes, distribuídos em 18 unidades educacionais e salas de extensão instaladas em espaços parceiros, como Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), centros comunitários e associações.
Segundo a pasta, após a reorganização da oferta entre as redes municipal e estadual, o município passou a concentrar o atendimento do Primeiro Segmento da EJA, voltado à alfabetização e aos anos iniciais do ensino fundamental. De acordo com a secretaria, entre 2025 e 2026 o número de matrículas cresceu 317%, impulsionado pela ampliação das ações de busca ativa e de permanência dos estudantes.
A SME informa ainda que desenvolve estratégias como implantação de salas de extensão em locais de trabalho, horários flexíveis, acompanhamento pedagógico, oferta de alimentação escolar, uniforme, material didático e formação continuada dos profissionais. Em parceria com o Instituto Federal de Goiás (IFG), a rede também oferece turmas da EJA integrada à Educação Profissional e Tecnológica (EJA/EPT), buscando ampliar as oportunidades de qualificação para jovens, adultos e idosos que retomam os estudos.
A secretaria ressalta que possui capacidade para atender toda a demanda do primeiro segmento da modalidade no município e reforça o compromisso com a garantia do direito à educação ao longo da vida.















