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Zé Mário, Marconi, Wilder e as demais candidaturas: o agro precisa estar no centro do debate sobre o futuro de Goiás


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 28/08/2026 - 11:04

Zé Mario (Foto: Arquivo pessoal)

A política goiana vive um movimento interessante em torno do agronegócio. Nos últimos meses, José Mário Schreiner, uma das principais lideranças do setor e presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), dedicou-se à construção de uma candidatura a vice-governador na chapa governista encabeçada por Daniel Vilela. Entre os nomes colocados à mesa, foi provavelmente aquele que conseguiu reunir maior convergência entre setores empresariais, produtores rurais e lideranças políticas. O apoio declarado do Fórum Empresarial, por exemplo, demonstrou a dimensão de sua articulação.

Ao final, porém, os articuladores da base, Daniel Vilela e Ronaldo Caiado, optaram por Luiz do Carmo. A escolha representou uma decisão política bastante objetiva: preservar e ampliar a interlocução com o segmento evangélico, considerando a forte ligação de Luiz do Carmo com lideranças religiosas do Estado.

Preterido na composição majoritária, Zé Mário abriu, naturalmente, canais de diálogo com outras forças políticas. Entre elas, o ex-governador Marconi Perillo, do PSDB. Há quem diga que o próprio Marconi tomou a iniciativa do contato. Não seria estranho. Zé Mário já serviu aos governos tucanos e ao próprio Marconi, os dois possuem relação de amizade e respeito, e a política, quando exercida com maturidade, também é feita de diálogo.

Mais do que isso: quando o assunto é agricultura, é absolutamente legítimo que diferentes forças políticas conversem. O agro não pode ser tratado como patrimônio eleitoral de ninguém. É um setor estratégico para a economia, para a cultura e para a própria formação social de Goiás.

No fim do processo, Zé Mário recuou de qualquer avanço político com os adversários da base governista e aceitou o convite para ser coordenador-geral da campanha de Daniel Vilela à reeleição. A decisão encerra uma especulação eleitoral, mas abre uma discussão muito maior: quem, afinal, compreende e representa o agro de Goiás?

É justamente aqui que a eleição começa a ficar interessante.

Marconi Perillo escolheu para sua vice Jacqueline Zaiden, produtora rural e liderança reconhecida pelo protagonismo das mulheres no campo. A composição é, evidentemente, um aceno político ao agronegócio. Mas não apenas isso. É também uma tentativa de apresentar uma visão de agro que combine produção, empreendedorismo, participação feminina e desenvolvimento rural.

E há uma razão histórica para essa estratégia. Durante os governos de Marconi, Goiás ampliou políticas de incentivo à produção, infraestrutura, defesa agropecuária e articulação institucional com o setor. Em 2015, por exemplo, seu governo coordenou a construção do Plano de Defesa Agropecuária de Goiás, envolvendo 65 instituições ligadas ao setor e buscando aumentar competitividade, segurança jurídica e segurança alimentar.

Também merece registro que foi no último governo de Marconi que Goiás instituiu a Política Estadual de Compra da Produção da Agricultura Familiar, em 2017. A legislação criou mecanismos para que o Estado pudesse comprar diretamente da agricultura familiar, fortalecendo comercialização e renda no campo. Em 2018, foi aprovada ainda a Política Estadual de Agricultura Familiar, estabelecendo instrumentos para assistência técnica, agroindústrias, cooperativismo, regularização fundiária, produção agroecológica e compras institucionais.

Isso não significa, evidentemente, que o desenvolvimento do agro goiano seja obra de um único governo. Seria uma simplificação histórica. O crescimento do setor é resultado de décadas de investimentos de produtores, cooperativas, empresas, trabalhadores, pesquisa, tecnologia, crédito, infraestrutura e políticas públicas. Mas também é correto reconhecer que determinadas administrações ajudaram a consolidar políticas que permaneceram como instrumentos de Estado.

Do outro lado do espectro político está Wilder Morais, representante mais identificado com o bolsonarismo nesta eleição. A composição com Ana Paula Rezende acrescenta outra dimensão à disputa.

O bolsonarismo construiu uma relação muito forte com segmentos do agronegócio e, em determinados momentos, transformou o agro em uma espécie de identidade política. Em minha avaliação, essa apropriação muitas vezes extrapolou os limites razoáveis e reduziu a diversidade do campo a uma única visão ideológica.

É preciso, contudo, fazer uma distinção. Wilder Morais, embora seja aliado do bolsonarismo, não necessariamente reproduz em todos os momentos suas manifestações mais radicais. Sua postura em relação ao setor produtivo pode ser considerada mais sóbria, especialmente quando se observa a necessidade de conciliar produção, infraestrutura, competitividade e desenvolvimento.

E sua vice também carrega uma simbologia importante. Ana Paula Rezende é filha de Iris Rezende, uma das maiores referências políticas da história de Goiás e também alguém que conhece a agricultura brasileira. Iris foi ministro da Agricultura entre 1986 e 1990, durante o governo José Sarney.

Até mesmo a chapa petista, liderada por Luiz César Bueno, possui uma relação importante com o campo, sobretudo com a agricultura familiar. Não se pode esquecer que, no governo Lula, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar foi recriado em 2023, recuperando uma estrutura específica de políticas públicas para agricultores familiares, povos do campo e desenvolvimento rural.

Também houve a retomada de políticas da Conab, inclusive dos estoques públicos, depois de anos de interrupção. O governo federal anunciou em 2023 a retomada dessa política com a aquisição de 500 mil toneladas de milho, associando abastecimento, preços mínimos e estímulo à produção.

O PT, por sua própria história, também possui forte relação com movimentos sociais do campo, incluindo o MST. E isso também faz parte da discussão sobre agricultura no Brasil. Reforma agrária, agricultura familiar, segurança alimentar, produção sustentável, acesso à terra e organização social são temas da agenda rural brasileira — ainda que sejam objeto de profundas divergências políticas.

É justamente por isso que o agro não pode ser reduzido a uma única corrente política.

O agro é diverso. É dinâmico. É plural. E não pertence a nenhum clã político.

Está no grande produtor de grãos, na pecuária, na agroindústria, na cooperativa, no pequeno produtor, na agricultura familiar, no assentamento, na feira, no supermercado e na mesa de cada família.

A própria história da humanidade demonstra isso. A civilização se desenvolveu a partir da capacidade de produzir alimentos, domesticar plantas e animais, organizar comunidades e estabelecer relações econômicas em torno da agricultura. O campo não está à margem da sociedade. Ele está na origem dela.

Por isso, a presença do agro nas candidaturas ao Governo de Goiás em 2026 não deveria ser vista apenas como estratégia eleitoral. Ela revela uma realidade econômica e social.

O debate que Goiás precisa fazer envolve exportação, agregação de valor, industrialização, tecnologia, inteligência artificial, conectividade rural, logística, armazenagem, irrigação, segurança hídrica, regularização fundiária, sucessão rural, crédito, assistência técnica, cooperativismo, agricultura familiar, produção de alimentos saudáveis, sustentabilidade, bioeconomia e abertura de novos mercados.

E existe ainda um tema que não pode ser colocado debaixo do tapete: a chamada “taxa do agro”, a contribuição destinada ao Fundeinfra, criada no governo Ronaldo Caiado.

A contribuição foi instituída em 2022 para financiar infraestrutura e incide sobre determinados produtos agrícolas, pecuários e minerais, podendo alcançar até 1,65% sobre o valor da comercialização, conforme a legislação. O STF validou sua cobrança em 2023.

Independentemente de posições favoráveis ou contrárias, essa é uma questão que precisa estar no centro do debate eleitoral. Quanto o produtor paga? Quanto retorna em infraestrutura? Qual é o impacto sobre a competitividade? Como o recurso é aplicado? O modelo deve continuar? Deve ser aperfeiçoado? Há alternativas?

Essas são perguntas legítimas e muito mais importantes do que simplesmente transformar o tema em palavra de ordem.

A eleição de 2026 oferece, portanto, uma oportunidade para Goiás discutir o agro para além da fotografia eleitoral. Marconi e Jacqueline apresentam uma determinada concepção de desenvolvimento rural. Wilder e Ana Paula representam outra. Daniel Vilela e Luiz do Carmo compõem uma base governista que também precisará apresentar sua visão para o setor. Luiz César Bueno e o PT trazem outra leitura, especialmente sobre agricultura familiar, segurança alimentar e políticas sociais.

É saudável que seja assim.

Espero que tenhamos um debate de ideias. Um debate técnico, mas também político. Um debate capaz de reconhecer a importância econômica do grande agronegócio sem esquecer o pequeno produtor. Que compreenda a agricultura familiar sem demonizar o empreendedor rural. Que discuta sustentabilidade sem transformar o produtor em inimigo. Que fale de produtividade, mas também de gente.

Porque, no final, discutir agricultura em Goiás é discutir o próprio futuro de Goiás.

E o que se espera de todas as forças políticas é que o campo continue produzindo, inovando, gerando renda e oportunidades — mas que esse desenvolvimento aconteça cada vez mais em benefício de toda a população goiana.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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