Projeção indica que 20,2 milhões de soropositivos no mundo terão mais de meio século. Envelhecimento com o vírus exige mudança no modelo de cuidado, defendem pesquisadores.
Uma nova projeção publicada na revista científica The Lancet HIV indica que, até 2040, ao menos 20,2 milhões de pessoas com HIV no mundo terão mais de 50 anos. Esse número representará mais da metade da população diagnosticada com o vírus, um marco inédito na história da epidemia.
O cenário é resultado direto dos avanços no tratamento. Em 1996, a infecção se tornou controlável com a chegada da terapia antirretroviral altamente ativa (HAART), o chamado “coquetel”. Hoje, na maioria dos casos, o tratamento é feito com um único comprimido diário. Passados 30 anos, a expectativa de vida dos pacientes aumentou significativamente, e envelhecer com o HIV já é uma realidade.
A pesquisa, assinada por uma comissão de mais de 40 instituições, defende uma mudança no paradigma do cuidado. Para as autoras principais, Amy Justice (Universidade de Yale) e Keri Althoff (Universidade John Hopkins), o tratamento não pode se limitar ao uso de antirretrovirais. É preciso considerar a longevidade com qualidade de vida.
As pesquisadoras alertam que os pacientes mais velhos não têm garantia de um envelhecimento saudável. “Esse número está prestes a dobrar nos próximos anos, e 96% dessas pessoas estarão em países de média e baixa renda. Precisamos começar agora para garantir que eles tenham uma vida plena”, defende Althoff.
Uma das principais recomendações é considerar a idade fisiológica em vez da cronológica. Segundo Amy Justice, aos 65 anos, pessoas soropositivas apresentam uma idade fisiológica, em média, mais de 11 anos superior à cronológica, devido aos efeitos de longo prazo do vírus, mesmo com a carga viral suprimida.
O relatório também destaca a necessidade de um cuidado integrado, que inclua suporte digital, saúde mental, apoio comunitário e acompanhamento por profissionais especializados em envelhecimento e doenças crônicas. A prática de atividades físicas e uma alimentação balanceada são apontadas como pilares para um envelhecimento saudável.
No Brasil, o cenário é desafiador. Dados da Unaids apresentados na AIDS 2026 mostram que o país está entre os 21 que tiveram um aumento de mais de 20% em novas infecções. Sandra Wagner Cardoso, pesquisadora da Fiocruz e coautora do estudo, pondera que ainda existem dificuldades de acesso ao tratamento pelo SUS, especialmente para populações ribeirinhas e afastadas dos centros urbanos.
Américo Nunes Neto, de 64 anos, convive com o HIV há 38 anos. Diagnosticado em 1998, ouviu da médica que teria apenas seis meses de vida. Hoje, ele redefine sua identidade. “Sei que não sou o HIV. Sou uma pessoa com mais de 60 anos que vive com o HIV”, conta. Ativista e membro da ONG Instituto Vida Nova, ele ajuda outras pessoas soropositivas.
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